Gestão

Para diminuir custos, empresas levam produção para dentro de casa


Empresários brasileiros apostam numa velha receita para fugir da crise: a verticalização


  Por Estadão Conteúdo 16 de Outubro de 2015 às 12:19

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Se cortar custos e aumentar a produtividade já era parte da estratégia das empresas brasileiras, na crise essas duas metas viraram um mantra, repetido exaustivamente por empreendedores e executivos.

Como parte desse movimento, há companhias aumentando suas apostas na verticalização e levando para dentro de casa processos que antes estavam nas mãos de terceiros.

Algumas passaram a correr atrás disso depois que a situação econômica começou a apertar. Outras já estavam com projetos engatilhados há mais tempo e estão se beneficiando agora dos ganhos de margem que, em momentos de retração, podem fazer a diferença.

É o caso, por exemplo, da divisão de agronegócios da Algar, que responde por 43% da receita do grupo mineiro.

Em setembro, a empresa encerrou o contrato com a fornecedora de embalagem para o óleo de soja e passou a fabricar internamente, depois de investir R$ 40 milhões em uma fábrica, que tem capacidade de produzir 25 milhões de unidades por mês.

"Quando esse projeto começou o sentimento de crise ainda não era tão profundo como é hoje, mas digamos que foi tudo providencial", diz Murilo Braz SantAnna, CEO da Algar Agro. "Em momentos de baixo crescimento, o mercado não está disposto a te dar margem e remunerar com preço. É preciso fazer a tarefa dentro de casa."

Embora não revele quanto conseguiu economizar com a mudança, SantAnna ressalta que a embalagem representa 25% do custo do produto.

DENTRO DE CASA 

Outra companhia que também está buscando fazer mais dentro de casa é a fabricante de biscoitos e massas M.Dias Branco. A empresa investiu R$ 250 milhões no primeiro semestre deste ano, valor que contemplou a construção de dois novos moinhos de trigo e aquisição de outra unidade.

Na divulgação de resultados do segundo trimestre, a indústria informou que 78,1% da farinha consumida pela companhia é produzida em moinhos próprios, índice que era de 72,4% no mesmo período do ano passado.

Para gorduras, o porcentual aumentou de 59,9% para 92,5% no mesmo período. A empresa informou, em relatório trimestral, que a maior verticalização da produção trouxe reduções de custo.

"É uma vantagem competitiva para as fabricantes de biscoito ser donas de moinho. Elas têm controle do preço da matéria-prima e têm um custo mais competitivo", explicou Vincent Baron, presidente da consultoria de gestão Naxentia.

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Na pequena cidade de Pomerode, em Santa Catarina, a alemã Netzsch Moagem investiu R$ 20 milhões para produzir internamente peças que eram obtidas com um grupo de cerca de 50 fornecedores.

Agora, a fábrica – onde são produzidos equipamentos para a indústria de alimentos, de tinta e para agronegócios –  tem 9,5 mil m² , área que é três vezes maior que a original.

"O investimento foi feito para reduzir custos e aumentar o controle da empresa sobre a qualidade do produto", afirmou Giuliano Albiero, diretor geral da empresa. "Nosso custo de produção caiu 8%."

Antes da inauguração da fábrica, em julho, entre 70% e 80% das peças eram feitas em fábricas de parceiros. Hoje, esse número caiu para cerca de 30%.

O prazo médio de produção caiu de quase quatro meses para dois meses com a verticalização. Albiero destaca, no entanto, que não vale a pena para a indústria produzir todas as suas peças.

"Nosso negócio é suscetível à economia. Se aumentamos a capacidade, temos de sustentar essa estrutura mesmo se não houver demanda.", afirma Albiero.

A 30 km de Pomerode, em Jaraguá do Sul, a fabricante de motores WEG já adota essa estratégia há muito tempo.

No passado, a empresa já teve de produzir tudo que fosse possível dentro de casa, por falta de fornecedores na região. "Hoje é uma estratégia. Tudo que tem tecnologia e podemos agregar valor fazemos na nossa fábrica", disse o Luis Alberto Tiefensee, diretor superintendente da WEG Motores.

Ele explica, no entanto, que a empresa precisa de escala para viabilizar a produção dos componentes internamente.

Assim, algumas de suas subsidiárias nascem abastecidas por fornecedores locais e, só depois que o negócio ganha escala, a companhia investe na verticalização. 

Foto: ThinkStock