Gestão

O Vaticano e a tesoura afiada de Francisco


Em nome dos desprivilegiados, o sumo pontífice enfrenta as mazelas de seu Estado usando as boas práticas de negócios. O que ele busca é eficiência e lucro


  Por Inês Godinho 10 de Outubro de 2015 às 08:00

  | Jornalista especialista em sustentabilidade e gestão, a editora atuou no Estadão, na Editora Abril e na Folha de S. Paulo


Em dois anos de pontificado, o Papa Francisco tornou-se o mais influente e admirado líder do mundo, segundo avaliação da mídia internacional.

Ele trouxe de volta os valores fundamentais do cristianismo, como caridade, tolerância e simplicidade, por muito tempo soterrados sob camadas de soberba, formalismo e corrupção.

Como resultado, a Igreja Católica começa a recuperar seus fiéis, a angariar mais doações e a reverter a fuga de vocações religiosas que esvaziaram suas paróquias.

PRAÇA DE SÃO PEDRO TOMADA PELA MULTIDÃO

Essas novidades guardam uma surpresa. Não se devem a um talento especial de um pastor de almas. Há um cérebro requintado de gestor de negócios por trás da mudança radical em curso no Vaticano.

Uma reportagem reveladora de Shawn Tully para a revista americana Fortune flagrou a essência dessa transformação com a frase: “O novo papa quer falar sobre dinheiro.” 

O raciocínio de Francisco é simples: para atender sua principal missão, ajudar os pobres e os desprivilegiados, precisará de recursos autossustentáveis, isto é, negócios que deem lucro.

Essa meta está ameaçada pelo descontrole das finanças do Vaticano, marcadas por sucessivos déficits. “Isto precisa parar”, pregou o papa, ao pedir conselhos e ajuda a um grupo de financistas, segundo a reportagem.
 
O artigo traz os bastidores desse esforço que vem sendo feito para livrar o Vaticano da praga dos escândalos financeiros e da ineficiência. 

Qual é o plano? Enxugar, azeitar e aumentar a receita, como prega qualquer cartilha de administração. Na primeira meta, está o fechamento de dúzias de ralos que dilapidam uma imensidão de recursos - planos de pensão deficitários, excesso de funcionários, funções sobrepostas, privilégios, mal uso do patrimônio ou, simplesmente, fraudes.

Na segunda, pretende-se trazer de volta a excelência da educação católica aplicada às modernas práticas de gestão.

PIETÁ, DE MICHELANGELO, TESOURO DO VATICANO DE VALOR INCALCULÁVEL

A terceira meta concentra-se em duas frentes – transformar o fabuloso patrimônio imobiliário e artístico do Vaticano em uma máquina de fazer dinheiro; e mudar radicalmente o modelo de negócios das suas instituições financeiras, de ineptas gestoras das finanças internas para uma gestora internacional de recursos dos organismos independentes que compõem a estrutura da Igreja Católica, como as ordens e as dioceses.

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A nova instituição já tem nome, Vatican Asset Management - VAM. Segundo a revista, está-se falando de muito dinheiro. 

PROCISSÃO DE MUDANÇAS 

Para levar essa missão a cabo, o papa profissionalizou a gestão. Enfrentou e trocou os cardeais e bispos encastelados há décadas nos cargos-chave da hierarquia católica, como os cartolas do futebol, por profissionais de currículo e reputação irretocáveis, a maioria ouvida pela reportagem da Fortune.

Comprovando suas habilidades de liderança, montou um time de profissionais de alto desempenho, todos leigos, além de ter se cercado dos maiores cérebros do mundo dos negócios.

CÚPULA DA BASÍLICA DE SÃO PEDRO

A padronização da contabilidade segundo parâmetros internacionais ficou a cargo da KPMG (acredite, os controles financeiros do Vaticano eram um mosaico bizantino).

A EY (antiga Ernst&Young) assumiu o inventário do patrimônio do Estado do Vaticano e a avaliação do seu potencial de geração de renda (um dos tesouros chama-se Capela Sistina). 
 
As contas insondáveis do Banco do Vaticano estão sendo olhadas com lupa pela Delloite&Touche. As contratações para a alta gestão passam pelos processos de busca e seleção da agência Spencer Stuart, renomada caçadora de presidentes (com o cuidado de buscar talentos no mundo todo). 

A reestruturação das operações do dia-a-dia estão sob o comando de Lord Christopher Patten, ex-presidente da BBC e ex-governador de Hong Kong, que trabalha assessorado pela Mckinsey.   

À VONTADE ENTRE OS CAPITALISTAS

De acordo com a reportagem, a desenvoltura do papa no mundo da gestão e sua intenção de injetar uma cultura de negócios no Vaticano comprovam-se em muitos aspectos. Veja algumas posições inspiradoras assumidas por ele.

Visão estratégica – Para que a mensagem espiritual do Vaticano seja crível, as finanças do Vaticano também precisam ter credibilidade. 

Transparência – Segundo o papa, após séculos de segredos e intrigas, está na hora de a Igreja abrir os livros para os fiéis. Ele também olhou de frente para as denúncias de pedofilia e corrupção.  

Complience – Regras rígidas e protocolos devem ser adotados para por fim ao ciclo de escândalos que tem infernizado o Vaticano nos últimos anos.

Política de promoção – Para nomear um cardeal encarregado de algo importante, a escolha é sempre por alguém fora do círculo do Vaticano, como aconteceu com o australiano George Pell, indicado como uma espécie de diretor financeiro da instituição. 

Isonomia – Fornecedores do Vaticano não podem receber tratamento especial. Ricas doações não compram mais audiências particulares com o papa.
  
Conflito de interesses - Francisco repetiu no Vaticano o que havia feito na sua diocese na Argentina – proibiu por regulamento a troca de favores e os agrados no relacionamento com as instituições financeiras que trabalhavam com a Igreja. A alocação dos investimentos precisa seguir critérios técnicos definidos.

Prestação de contas - Em 2013, foi publicado o primeiro relatório anual de toda a história do Banco do Vaticano, com a apresentação completa das demonstrações financeiras. 
 
Diferencial competitivo – O reposicionamento do Banco do Vaticano como uma instituição de asset management pretende ter como diferencial os investimentos éticos, com valores alinhados aos do catolicismo.

Reengenharia – Para diminuir o impacto do pagamento de salários e pensões nas finanças do Vaticano, está em andamento uma gradual diminuição do corpo funcional.

Foram congeladas novas contratações e a prática de horas extras. Funcionários excedentes estão sendo transferidos para as novas áreas e suas vagas, extintas. As regras de aposentadoria serão mudadas para os futuros funcionários.

Retorno sobre investimento – Considerados muito modestos pela grandeza do patrimônio, os rendimentos provenientes de dezenas de fontes passam por total verificação.

Em uma das inconsistências verificadas, o Vaticano possui 2 mil apartamentos em área nobre de Roma que estão alugados por preços simbólicos a pessoas escolhidas por critérios arbitrários.

Portfólio de produtos – Terceiro instituição com maior número de visitantes no mundo, o Museu do Vaticano recebeu 5,5 milhões de visitantes em 2014, obtendo uma receita de US$ 130 milhões.

Trata-se de uma das principais fontes de recursos do papado. No planejamento estratégico, estão previstas campanhas promocionais e outros usos das obras-primas para obter receitas adicionais. 

Correção rápida – Assim que assumiu, Francisco nomeou dois profissionais de confiança para encabeçar a reestruturação do Banco do Vaticano, historicamente avesso às ações regulatórias.

A resposta às resistências internas de cardeais e bispos foi o afastamento sumário e a contratação de uma firma independente de auditoria para rastrear lavagem de dinheiro nas 20 mil contas da instituição.

Estilo de liderança – Francisco não fala sobre balanço ou fluxo de caixa. Deixa os números para os especialistas. Seu forte é a liderança; ele sabe que a cultura de uma organização é estabelecida no topo. 

Mudança pelo exemplo – O papa declinou de usar as suntuosas instalações do palácio papal para se instalar em um apartamento de um quarto na Casa Santa Marta, um hotel dentro do Vaticano. Frequentemente, é visto de bandeja na mão no bufê do local, que não é gratuito.

Preparo – Para cada assunto estratégico, o papa mantém cinco a seis fontes qualificadas de informação. São ouvidas antes da tomada de decisões cruciais. E também para mantê-lo informado sobre possíveis bloqueios às suas iniciativas. Segundo seus interlocutores, é impossível enganá-lo.

Assertividade – Encomenda para a nova equipe: “Vocês são os especialistas e eu confio em vocês. Agora, quero soluções para estes problemas. E quero tão rápido quanto possível.” 

Imagem: Thinkstock