Gestão

Le Postiche revê modelo de negócio para dar a volta por cima


Plano da empresa em recuperação judicial prevê desconto de 70% da dívida de R$ 65 milhões. Conversas com credores começaram, assim como estudo para a entrada em novos setores, como o de moda e até o de joias


  Por Fátima Fernandes 05 de Julho de 2021 às 07:10

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site varejoemdia.com


Uma das mais conhecidas redes de malas e bolsas do país, a Le Postiche, acaba de obter o sinal verde da Justiça para colocar em prática um plano que promete uma reviravolta no seu modelo de negócio.

No final de junho, foi apresentado o plano de recuperação da empresa, que prevê deságio de 70% da dívida e parcelamento de débitos em 15 anos.

Credores considerados parceiros que aderirem ao plano poderão ter condições diferenciadas. Isto é, receber o dinheiro em prazos menores.

Com uma dívida de quase R$ 65 milhões, a empresa, que nasceu com a venda de perucas na década de 60, não resistiu aos efeitos da pandemia.

Em maio deste ano, a rede, hoje com 140 lojas espalhadas pelo país, entrou com pedido de recuperação judicial.

Agora vem uma das partes mais difíceis do processo, que é a rodada de conversas com os credores - fornecedores e instituições financeiras.

Em outubro ou novembro, uma assembleia de credores deve ser marcada para aprovar - ou não - as condições apresentadas pela empresa.

“Temos grande expectativa de aprovação do plano, pois está muito bem fundamentado para a empresa dar a volta por cima”, afirma Alessandra Restaino, diretora da rede, e filha do fundador, Álvaro Restaino.

A Le Postiche, que chegou a ter mais de 200 lojas no país e 2.500 colaboradores (hoje são 1.500), recorreu à Justiça devido à pandemia.

Cerca de 50% das vendas da empresa estão atreladas ao segmento de malas.

Outros itens importantes do portfolio da companhia são mochilas, especialmente usadas por profissionais de escritórios e alunos.

As restrições para viajar, ir ao escritório e à escola, e o fechamento do comércio em 2020 e neste ano, não deixaram alternativas para a empresa.

AÇÕES

Várias ações estão em andamento, diz Alessandra, para que a rede de lojas coloque as finanças em ordem e volte a crescer.

A empresa começou a usar uma ferramenta que permite integrar as lojas próprias (40), as franqueadas (95), e os estoques.

Se o cliente comprou pela internet, o sistema indica qual a loja mais próxima para ele buscar o produto ou receber em casa, sem pagar frete.

“Estamos reestruturando a empresa, revendo a gestão de estoques e logística, e avaliando produtos afins para começarmos a vender”, diz.

Cabos, carregadores de celulares e acessórios relacionados com viagens e com o mundo escolar já começaram a ser vendidos nas lojas.

Desde maio, a rede fechou 40 das 80 lojas próprias espalhadas pelo país e começou uma maratona de conversas com administradores de shoppings.

A família Restaino também avalia a entrada em outros setores do varejo, como o de moda feminina e masculina e até o de joias.

“O momento é de se reinventar, rever o negócio, e voltar a ser a marca mais relevante no setor de malas”, diz Alessandra.

A Le Postiche, que, em francês significa ‘o postiço’, diz ela, é uma marca democrática, com foco em mulheres de 25 a 45 anos das classes A, B e C.

A Corporate Consulting ajuda a família no processo de reestruturação.

“A empresa não perdeu crédito de banco, nem deixou de receber produtos. A operação só vem melhorando”, afirma Luís Alberto Paiva, sócio da Corporate Consulting, que assessora a rede desde 2020.

Há uma semana, o sr. Álvaro, com 76 anos, faleceu. As duas filhas, Alessandra e Fabiana, passaram a tocar a empresa.

Alessandra diz que ela e a irmã estão na Le Postiche há mais de 20 anos e que aprenderam a administrar o negócio da família.

“Temos uma família harmoniosa, legado do meu pai. Mais um motivo para manter a marca viva e continuar a jornada construída por ele”, diz.

Juliana Bumachar, sócia do Bumachar Advogados Associados, diz que neste ano aumentou uns 40% os casos de reestruturação de empresas, com passivos que vão de R$ 50 milhões a R$ 800 milhões.

A lei 14.112, de dezembro de 2020, que atualizou a legislação referente à recuperação judicial, contribuiu para a maior demanda de casos.

“Na lei antiga, a concordatária era vista como devedora contumaz. A nova lei trouxe uma roupagem de reestruturação, não de moratória”, diz ela.

Os descontos de 50% a 60% nas dívidas, como colocam as empresas em seus planos de reestruturação, de acordo com ela, são necessários.

Isso porque, com a nova lei, as dívidas com o fisco precisam ter um tratamento especial. “Não podem mais serem deixadas de lado.”

Ela cita o caso do Hotéis Othon, do Rio de Janeiro, que, apesar de ter um plano de recuperação aprovado, o Tribunal de Justiça interrompeu o processo por não ter sido apresentada a certidão de regularidade fiscal.

Para Juliana, muito mais importante do que o desconto que a empresa possa ter em sua dívida, é preciso analisar a viabilidade do negócio, a capacidade da companhia de honrar as dívidas nos prazos estabelecidos.

Há vários clubes de futebol, diz ela, recorrendo à Justiça para aprovar plano de recuperação judicial. “Esses clubes são viáveis ou somente estão recorrendo à recuperação judicial pagar ganhar tempo, sem qualquer tipo de ação?”, pergunta.

A nova legislação, diz ela, cai bem para a empresa que possui capacidade econômica para permanecer no mercado.

 

IMAGEM: Divulgação





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