Gestão

Jogando com dados para a turma brilhar


No Glossário do Empreendedor, entenda o que é People Analytics, metodologia que se vale de estatísticas para melhorar o desempenho dos funcionários


  Por Italo Rufino 15 de Fevereiro de 2019 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


No filme O Homem Que Mudou o Jogo ("Moneyball"), Brad Pitt (na foto acima) interpreta o gerente de um time de beisebol que inovou na forma de contratar jogadores. Com o clube em crise financeira, ele desenvolveu um método baseado em estatísticas para analisar o desempenho dos atletas da liga americana.

Assim, o clube passa a comprar jovens talentos desconhecidos a preço baixo, que são treinados conforme dados de desempenho, como rebatidas corretas por jogo. Com o novo programa, o time se torna mais competitivo na disputa por títulos.

A história de superação é baseada em fatos reais e narra a vida de Billy Beane, do Oakland Athletics. Hoje, Beane é um dos executivos esportivos mais respeitados dos Estados Unidos.

Agora, imagine usar um método de recrutamento, seleção e gestão de funcionários parecido com o de Beane. Nem precisa imaginar muito, o método já existe e é conhecido como People Analytics.

A metodologia é baseada em coletar, organizar e analisar dados e aplicá-los à gestão de pessoas.

Tecnologias para análise de dados (Big Data) já são rotineiras em muitas áreas corporativas, como marketing e finanças. E agora começam a ganhar popularidade em recursos humanos.

Um dos objetivos do People Analytics é fazer com que o departamento de RH utilize informações reais e relevantes para tomar decisões –ao mesmo tempo em que deixa de lado análises subjetivas.

Dessa forma, é possível evitar, por exemplo, o preconceito inconsciente do recrutador, que pode, sem perceber, discriminar pessoas devido a gênero, etnia, instituição de ensino ou qualquer outra característica que não importa para um bom desempenho no trabalho.

O People Analytics também é utilizado para identificar e medir o desempenho do funcionário, em aspectos como engajamento, produtividade, satisfação, retorno sobre treinamentos e possibilidade de promoção ou demissão.

Por exemplo, um funcionário que realizou um treinamento em gestão de redes sociais de um e-commerce pode ter seu desempenho avaliado de acordo com o aumento de interações nos perfis da marca.

Caso o resultado não seja satisfatório, a empresa pode utilizar outros dados para saber se é melhor trocar o método de treinamento ou o profissional. 

“O People Analytics torna a gestão de recursos humanos mais estratégica”, afirma Guilherme Dias, CMO da Gupy, empresa de tecnologia aplicada para RH. “Também é uma forma de digitalizar processos e diminuir a burocracia.

Um estudo divulgado pela revista Forbes apontou que 69% das empresas americanas estão integrando dados para gestão de pessoal. Nas edições anteriores, o número era de cerca de 15%.

Ano passado, foi a vez do tema aparecer num estudo da consultoria Deloitte. Globalmente, 84% dos executivos de RH entrevistados afirmaram que People Analytics é extremamente importante e o classificaram como segundo item na lista de tendências de gestão.

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DE ONDE TIRAR INFORMAÇÕES

Como os dados são uma parte chave do People Analytics, a empresa, primeiro, precisa saber onde buscar as informações. Algumas delas já estão disponíveis na maioria dos negócios.

FUNCIONÁRIOS DA NORTH STAR COM PULSEIRAS E CAPACETES
QUE COLETAM DADOS SOBRE SAÚDE  

São os casos da marcação de ponto, horas trabalhadas, folha de pagamento e produtividade, mais comum em áreas técnicas, como indústrias.  

Há no mercado diferentes fornecedores de softwares que coletam e armazenam dados, como a Appus e a Senior.

O software da Gupy é conhecido devido aplicar inteligência artificial na análise.

Quando uma empresa contrata a Gupy, a primeira ação é fazer um estudo de uma amostra de funcionários de alta performance.

As características desses funcionários, como cursos realizados, quantidade de feedbacks mensais e absenteísmo, passam a ser o padrão.

Conforme o software é usado com novos funcionários, o algoritmo da inteligência artificial aprende e se torna mais potente. Ou seja, sua acuracidade aumenta.

Há outras maneiras bastante curiosas para coletar dados. A empresa de tecnologia do Vale do Silício Knack pede que os candidatos a funcionários pratiquem jogos digitais.

Enquanto os profissionais controlam um personagem por um ambiente mágico, um sistema identifica centenas de variáveis, como tempo de hesitação, traços de persistência, criatividade e habilidade de aprender com erros.

Todos os dados são armazenados e, depois, comparados com o desempenho no trabalho.

A siderúrgica americana North Star Bluescope Steel utiliza sensores em pulseiras e capacetes dos funcionários para medir variação de batimento cardíaco, temperatura e outros indicadores podem atestar uma situação de estresse ou mal-estar.

O sistema serve para avisar os supervisores e a equipe médica antes de ocorrências com risco grave, como um desmaio próximo a uma fornalha.

O laboratório Cubist conduziu um levantamento sobre a quantidade de vezes que os funcionários tomavam café ao longo do dia.

Por meio de dados, foi identificado que as cafeteiras ficavam longe umas das outras –o que reduzia as interações, além de aumentar o deslocamento.

Foi criada, então, uma área de convivência. Novos dados constataram melhora no desempenho dos funcionários, principalmente dos vendedores, que passaram a trocar dicas e contatos para lidar melhor com os clientes.

IMAGEM: Divulgação