Gestão

Energia tem impacto de até 20% nos custos dos pequenos negócios


Bandeira de escassez afeta o caixa de estabelecimentos com equipamentos como forno elétrico. Especialista orienta sobre como gastar menos


  Por Karina Lignelli 25 de Outubro de 2021 às 07:30

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A chuva dos últimos dias deu um certo alívio para a matriz energética brasileira. Porém, não tão cedo resolverá problemas que aparecem no radar do governo como racionamento e alta das tarifas, que chegaram a 11,38% na Enel SP para consumidores de baixa tensão, como residências e pequenos negócios. 

Com a economia ensaiando uma retomada pós-pandemia, a atual bandeira de escassez nas contas de luz, que deve gerar impactos em 2022, tem dificultado a vida dos empresários, que estão em uma encruzilhada: absorver esses custos, ou repassá-los a um consumidor afetado pelo desemprego e queda na renda. 

No âmbito dos micro e pequenos negócios, esse número é bastante preocupante, pois energia representa 15% dos custos de operação dessas empresas, segundo levantamento do Sebrae Nacional do último mês de julho. 

Apesar da variação percentual para mais ou para menos, que depende do tipo de atividade e até da localização, esse custo pode atingir os dois dígitos em setores como bares e restaurantes ou no pequeno comércio de gêneros alimentícios, que usam equipamentos como refrigeradores, freezers e fornos elétricos.

Presidente da Abrasel Nacional (associação do setor de bares e restaurantes), Paulo Solmucci explica como as tarifas especiais impactam de jeitos diferentes estabelecimentos em shoppings e de rua, por exemplo. 

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Nos primeiros, o impacto de curto prazo é muito pequeno, pois são estabelecimentos que contratam energia por demanda no mercado livre, via contratos mais estáveis e longos. Portanto, o efeito é quase nulo.

Quando se fala em fast foods, gastos com energia representam 6% a 8% do faturamento, enquanto que para os restaurantes que usam gás, eles variam entre 1% e 2%. Mas, apesar dos percentuais significativos em tempos de faturamento reduzido, o impacto mais forte se dá no pequeno que está fora do shopping. 

Os que têm loja de rua absorvem a tarifa como um todo, e alguns chegam a ter de 15% a 20% do faturamento comprometido com esses custos, pagando uma conta mais pesada, afirma Solmucci. "Para quem consome da rede tradicional de energia, como a pequena pizzaria com forno elétrico, a realidade é muito dura."   

Citando os dados mais recentes da Pesquisa Mensal de Comércio do IBGE, de 2018, o economista Fábio Pina, da FecomercioSP, diz que 4,3% das despesas do varejo sobre o faturamento equivalem a custos de energia.

O consumo dessa energia está intimamente ligado ao crescimento econômico do país, destaca. "É um custo com peso relevante para todos os setores, que pode não só complicar como impedir a retomada." 

MAIS PRESSÕES

Percival Maricato, presidente do conselho da AbraselSP que acabou de lançar a campanha 'Somos Água', em parceria com a Sabesp, para incentivar o consumo consciente em bares e restaurantes, lembra que, no atual cenário, mesmo quando os custos de energia são mínimos, entre 1% e 3%, não deixam de pesar.

Ele diz que o setor tenta se salvar e sobreviver renegociando dívidas com locadores, fornecedores, o Fisco estadual, trabalhadores e até o Pronampe. "Recomeçamos agora, estamos faturando pouco. As dívidas continuam acumuladas, e muitos tiveram a energia cortada por não suportarem mais esse custo."

No caso dos pequenos comércios de gêneros alimentícios, que trabalham com energia ligada 24 horas por dia, sete dias por semana, quantificar esse gasto e o quanto pesa nas receitas é alvo de sondagem que está sendo realizada pelo Sincovaga (Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios do Estado de São Paulo). 

Segundo Álvaro Furtado, presidente do sindicato, varejistas que trabalham com carnes ou sorvetes e demandam áreas frigorificadas, assim como padarias que utilizam forno elétrico, têm impactos mais altos. 

"E é muito difícil para empresas de menor porte adotarem sistemas alternativos de energia, que custam, em média R$ 25 mil. Mesmo financiado, é muito caro, e um gasto economicamente inviável nesse momento." 

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Solmucci, da Abrasel, lembra que a pressão de custos não vem só da energia, mas do aumento excessivo do gás e dos combustíveis - principalmente para os estabelecimentos cuja parcela importante do faturamento vem do delivery, gerando pressão também por parte do motoqueiro para ampliar o frete.

Sem contar os alimentos, que fizeram com que a inflação média dos bares e restaurantes subisse 35% no acumulado de um ano e meio, enquanto o setor só conseguiu repassar entre 10% e 15%. 

"A consequência é que temos ainda 35% das empresas do setor de portas abertas, mas operando no prejuízo."

Para Fábio Pina, da FecomercioSP, a questão é que o Brasil vive uma 'tempestade perfeita', ou seja, um ambiente de instabilidade e incertezas na economia que inclui a possibilidade de faltar água - fator que afeta não só a torneira em si, mas também o quadro de luz de empresas e consumidores em geral.

"Essa soma de problemas é mais relevante em si do que o preço da energia. Não que ele seja irrelevante, mas o mais importante é ter consciência de que há vários 'senões' sobre a nossa cabeça", alerta.   

PARA MINIMIZAR OS IMPACTOS  

A falta de diversificação da matriz energética brasileira, 'muito refém do clima', segundo especialistas, leva consumidores cativos - ou seja, pequenos negócios e consumidores finais - a pagarem a conta da crise.

No caso das MPEs, reduzir impactos da alta de custos vai além de atitudes simples para economizar energia, como usar luz natural, reduzir desperdícios ou simplesmente apagar a luz: envolve o uso de equipamentos com maior eficiência energética, e tecnologias de automação comercial para otimizar processos.

"É claro que uma padaria com forno elétrico está mais preocupada com o custo da energia do que uma farmácia. Cada negócio tem sua aderência, então o ideal é avaliar o impacto e procurar se adaptar", diz Paulo Eduardo Guimarães, presidente da Afrac (Associação Brasileira de Tecnologias para o Comércio e Serviços).

Para fugir da cadeia de custos pressionados, a tecnologia tem se mostrado uma das saídas mais eficazes para a maioria das operações comerciais, e algumas alternativas despendem um consumo muito menor de energia - como adotar sistemas de caixa baseados em computadores pessoais, por exemplo.

"Uma operação baseada em tablets consome 25 vezes menos energia", explica Guimarães.  

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Já refrigeradores e equipamentos de ar condicionado, com controles automáticos de temperatura ou que regulam a potência dos freezers, representam um consumo 25% menor do que os de gerações anteriores.

Guimarães cita ainda a eficiência da iluminação de led, cujo consumo de energia é oito vezes menor que o de lâmpadas fluorescentes. Ou os fornos controlados de forma inteligente, que consomem 20% menos energia.

"A aplicação da tecnologia correta vai fazer com que essas empresas usem menos esse tipo de insumo. Ou ainda, reduzir a demanda por mão de obra, gerando uma economia mais significativa."

Ele compara o sistema tradicional de gestão de restaurantes, onde uma ou duas pessoas cuidam do caixa, com um software moderno em que o próprio garçom processa o pagamento, e a solução fecha o caixa sozinha. 

Além de reduzir os custos em 20%, é uma outra visão para ganhar dinheiro e aproveitar esses funcionários em outras tarefas que não as repetitivas do dia a dia - como cuidar de um delivery, por exemplo.

"Sem contar que, o custo de implementar um sistema do tipo se paga em sete ou oito meses", afirma. 

NA PONTA DO LÁPIS

O presidente da Afrac, que também representa desenvolvedoras de meios de pagamento e participou ativamente das discussões do Pix, avisa que, se a saída para o pequeno lojista nesse momento de alta de custos é a tecnologia, é preciso colocar tudo na ponta do lápis para conquistar uma melhora consistente. 

Não adianta, para quem tem uma padaria, por exemplo, ligar e desligar o forno para economizar energia: com a pandemia, o mercado mudou, e subiu um degrau no quesito competitividade, diz. Vale até contratar crédito para trazer melhorias à operação, se possível, para pagar em alguns meses. E sem tirar da empresa.

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"Pense que é preciso incluir coisas na operação que sejam sólidas: afinal, em 2022 a competição é com empresas melhores, que fazem entregas mais rápidas e estão em cadeias de custo mais enxutas", sinaliza. 

Para mais orientações, clique nos links a seguir: a Abrasel Nacional e a AbraselSP oferecem uma cartilha com dicas para reduzir o custo da energia em bares e restaurantes, assim como a FecomercioSP tem um e-book com recomendações para pequenos negócios em geral tentarem minimizar o encarecimento da conta. 

FOTO: Divulgação/Dídio Pizza






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