Gestão

Empresas de shoppings vendem ativos para aliviar balanço


Movimento deve ganhar força com consumo fraco e juros elevados, de acordo com especialistas do setor


  Por Estadão Conteúdo 11 de Outubro de 2015 às 08:18

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Diante de um cenário de juros elevados e consumo enfraquecido, as empresas do setor de shopping centers têm recorrido à venda de ativos para aliviar as operações e gerar capital.

De acordo com especialistas ouvidos pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o movimento deve se fortalecer nos próximos meses, puxado por companhias mais alavancadas que passaram por um forte ciclo de expansão.

Entre as negociações mais recentes de ativos, a BR Malls informou a venda de participação em três empreendimentos - Center Shopping (RJ), Paralela (BA) e West Shopping (RJ) - pelo valor total de R$ 318 milhões.

De acordo com a companhia, a operação possibilitará a utilização dos recursos provenientes da venda para otimizar a estrutura de capital e para investimentos que possuam maior rentabilidade.

Marcelo Motta, analista do JPMorgan, diz que a perspectiva é de que as vendas de ativos ganhem força nos próximos meses, principalmente, por conta da busca de algumas empresas em reduzir o endividamento.

No caso da BR Malls, por exemplo, a dívida líquida totalizava R$ 4,802 bilhões ao fim do segundo trimestre de 2015, enquanto a alavancagem medida entre dívida líquida e Ebitda ajustado anualizado chegava a 2,76 vezes.

"Dado que a economia continua fraca, muitas empresas alavancadas tendem a vender ativos, pois os juros estão elevados e o custo de dívida fica mais caro", afirmou o especialista. Para ele, as companhias tendem a negociar ativos mais maduros, isto é, com menor perspectiva de crescimento, ou empreendimentos em que não possuam o controle majoritário da gestão.

O anúncio da BR Malls ocorreu alguns meses após medidas semelhantes da Aliansce e da General Shopping.

Em julho, a Aliansce firmou um acordo para a venda de 35% das cotas do Fundo de Investimento Imobiliário Via Parque Shopping (RJ) por R$ 132,43 milhões, capital que deve ser utilizado, de acordo com executivos da empresa, para reduzir alavancagem e ajudar a liquidar dívida de curto prazo.

Ao fim do segundo trimestre, a dívida líquida da Aliansce era de R$ 1,641 bilhão, enquanto sua alavancagem atingia 4,4 vezes.

O caso da General Shopping, no entanto, é mais complicado e as negociações de ativos devem ser intensas nos próximos meses, de acordo com especialistas.

Em abril, a empresa informou que acertou a venda do Shopping Light por R$ 141,145 milhões, por meio da sua controlada Levian Participações e Empreendimentos.

Com exposição de dívida dólar, a companhia vem enfrentando dificuldades para quitar obrigações e já informou uma emissão de ações com esforços restritos para captar recursos.

"A situação da General Shopping é mais delicada. É difícil prever o próximo movimento, mas novas vendas de ativos serão necessárias", disse uma fonte de uma corretora nacional.

Em setembro, a General Shopping anunciou uma emissão de ações com esforços restritos, cujos recursos devem ser utilizados para diminuir o nível de endividamento, inclusive com a recompra de títulos emitidos no exterior, e também para capital de giro.

Do outro lado das negociações, os analistas têm ressaltado o interesse de investidores estrangeiros, que se beneficiam da desvalorização do real.

A negociação da Aliansce, por exemplo, foi feita com o Government Of Sinagapore Investment Corporation (GIC), que é o fundo de investimento de Cingapura.

Além dos estrangeiros, companhias brasileiras com caixa mais robusto, como Iguatemi e Multiplan, também podem contribuir com o lado comprador, mas esse movimento deve ser pontual e oportunístico.

Recentemente, a Iguatemi anunciou a aquisição de 8,4% do shopping Pátio Higienópolis, passando a deter uma participação total de 11,2% no empreendimento. O acordo foi firmado com a Fundação Conrado Wessel por um valor total de R$ 125 milhões.

Para Motta, do JPMorgan, a Iguatemi "aproveitou o momento e encontrou uma oportunidade de expandir, em um empreendimento bem localizado e voltado para alta renda. Mas casos como esse devem ser mais pontuais. Não é regra, é a exceção frente a situação atual do país", afirmou.

PERSPECTIVAS

Empresários dos setores de shoppings e varejo alertam que o ano de 2016 deve continuar envolto em dificuldades econômicas, após uma deterioração mais forte que a esperada em 2015.

Ao ressaltarem incertezas no país, os executivos destacam que o próximo ano deve ser um grande teste para as companhias, o que tem exigido mudanças nos negócios ou estratégias mais cautelosas, de forma a manter as vendas.

"O ano de 2015 piorou a cada mês. Nós nos preparamos para momentos de dificuldade, mas não esperávamos o atoleiro que viria", afirmou Renato Rique, presidente da Aliansce Shopping Centers.

Para ele, é difícil dizer como será 2016, pois ainda há fortes incertezas no cenário atual, como as discussões em torno da futura composição do governo.

No entanto, ele ressaltou que o setor de shoppings tem se mostrado mais resistente à crise do que outros setores, ao mesmo tempo em que já busca soluções para manter o fluxo de visitantes.

"Tenho visto promoções que há tempos não eram feitas. A despeito do momento, o movimento nos shoppings tem se mantido, embora isso varie de empreendimento a empreendimento", afirmou.

Para o presidente da Tenco Shopping Centers, Eduardo Gribel, o momento de crise pode oferecer algumas oportunidades na busca por expansão.

O executivo afirmou que a empresa planeja aumentar o número de shoppings até 2018, quando poderá decidir sobre uma eventual abertura de capital. "Oportunidades aparecem em empreendimentos em que o preço de aquisição é menor que o custo de reposição."

Os momentos de crise também podem apontar para estratégias mais cautelosas. O sócio-diretor da Farm, Marcello Bastos, afirmou que o ano de 2016 pode ser pior que 2015, o que será acentuado por mudanças nos padrões de consumo entre os jovens.

"Estamos concentrando nossos esforços em geração de caixa. Vamos aproveitar oportunidades, que possam ser rentáveis no curto prazo. Só devemos investir no que deve gerar caixa."

Participando de painel com os outros executivos, em evento organizado pela Associação Brasileira dos Shoppings Centers (Abrasce), José Galló, presidente das Lojas Renner, afirmou que os empresários do varejo e de shoppings devem se unir para pressionar os políticos em busca de soluções para a economia.

"Trabalhamos muito para pagar impostos, que são mal empregados. Temos muito mais influência do que imaginamos."

Foto: Alex Silva/ Estadão Conteúdo