Gestão

Empresa em crise: gestão paternalista e falha de controles


O caso da Dádiva, uma revenda de bicicletas, serve de alerta. Há dois anos, dividia os lucros com os funcionários. Endividada, recorreu à Justiça para tentar manter as portas abertas


  Por Fátima Fernandes 08 de Abril de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Até dois anos atrás, o empresário David Carlos Antônio, 55, dono da Dádiva, uma das maiores distribuidoras de bicicletas e peças da região Sudeste do país, costumava dividir o lucro da empresa, que chegou a faturar R$ 60 milhões por ano, com parte de seus funcionários.

Com um estilo paternalista de gestão, ele sempre deu mais ênfase às relações pessoais com os empregados do que ao compromisso com metas e resultados. Em época de Carnaval, ele gostava de levar os empregados para o sambódromo. Era uma festa.

A proximidade com os empregados era tanta que David chegou até a ajudar um deles a dar entrada em um apartamento. A Participação nos Lucros e Resultado (PLR) funcionava como 14º salário para os empregados mais próximos.

Essa maneira de administrar a empresa ruiu com a crise. Depois da Copa do Mundo, em 2014, as vendas da Dádiva caíram 50%, e não mais se recuperaram.

Com quase 25 anos no mercado, a Dádiva, que chegou a ter três depósitos de bicicletas e peças na zona Sul de São Paulo, se viu compelida a entrar com pedido de recuperação judicial neste ano por conta de uma dívida de milhões de reais (não revelada) com bancos, fornecedores e funcionários.

“Este é um caso típico de empresa que ‘derreteu’ com a crise”, afirma Adriano Gomes, consultor da Méthode, consultoria escolhida para cuidar do processo de recuperação judicial da empresa, que chegou a ter pouco mais de 100 empregados.

Enquanto a distribuidora de bicicletas e peças surfava na onda do crescimento da economia, diz Gomes, não apareciam falhas de gestão. “Com a primeira ventania, isto é, com a retração do mercado, a empresa não se segurou”.

A crise derrubou as vendas de bicicletas no Brasil. Nem mesmo o estímulo dado pela Prefeitura de São Paulo às bikes, com a criação de ciclovias, produziu efeito.

A produção de bicicletas atingiu 3,5 milhões de unidades no ano passado, o que correspondeu a uma queda de 34% em relação a 2008 (5,3 milhões de peças), o melhor ano de vendads para o setor, de acordo com a Abraciclo, associação da indústria de bicicletas.

Para a diretoria da Abraciclo, a expectativa é de que o patamar de 3,5 milhões de unidades se mantenha em 2016.

Na avaliação da Abradibi, associação que reúne indústrias, importadores e distribuidores de bicicletas, é até provável que as vendas registrem queda de 10% a 15%.

“As vendas no varejo caíram. Tem muita loja pedindo prorrogação de prazo de pagamento para as distribuidoras porque estão com dificuldade de acesso a crédito”, afirma Isacco Douek, presidente do conselho da Abradibi.

Não há dúvida, na avaliação de Gomes, da Méthode, que a crise abalou a estrutura da Dádiva. Mas a distribuidora sofre também as consequências de não ter organizado suas finanças quando os ventos estavam favoráveis. Houve falhas de gestão.

A Dádiva, que chegou a ser uma das três maiores distribuidoras de bicicletas e peças da Grande São Paulo, de acordo com o consultor, distribuía o lucro para os funcionários com base no que seus diretores consideravam o lucro real da empresa.

“Eles olhavam para o caixa e consideravam que dava para distribuir tantos reais para os empregados. Era simplesmente um chute, só que em época da bonança.”

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Depois de analisar por dois meses as finanças da empresa, ele arrisca dizer que a Dádiva tinha o porte de uma empresa média “com estrutura de uma quitanda”.

“Não havia um tratamento adequado das informações fundamentais de uma organização, como entrada e saída de produtos. Os livros estavam perdidos. A administração funcionava por osmose”, diz ele.

O que a empresa precisa ter, diz ele, é o controle de todo o conjunto de processos. Faturamento, custos, despesas, investimentos, obrigações fiscais precisam estar detalhados. "Para cada item desses é preciso contar com um controle interno e que seja confiável", diz.

Ter claro todos esses itens, segundo o consultor, é fundamental para se calcular o lucro de uma empresa.

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Para tentar colocar a Dádiva novamente nos eixos, a Méthode cortou de três para um o número de depósitos da Dádiva e reduziu para 20 o número de empregados.

“O que percebemos é que muitos dos empregados não faziam falta para a empresa. Uma estrutura menor poderia dar conta do negócio”, diz Gomes.

O pedido de recuperação judicial da empresa já foi deferido pela Justiça e a empresa já apresentou um plano de pagamento para os credores, que ainda não foi aprovado.

“Estamos fazendo os ajustes estruturais para a negociação com credos e bancos para, em seguida, buscarmos recursos financeiros para a operação.”

A PRÁTICA ERA DIVIDIR O LUCRO COM OS EMPREGADOS

A história de David com o mundo das bicicletas começou bem cedo, em 1972, quando ele trabalhava como office-boy da Caloi.

O conhecimento do mercado permitiu que ele abrisse, em 1982, uma loja de peças. Dez anos depois, David já se sentia preparado para ter uma loja maior de bikes e peças.

Em 1994 deu mais um salto, montou uma distribuidora, passando a abastecer lojas de bicicletas e peças da região Sudeste do país.

A partir daí, a empresa não parou mais de crescer. Em 2003, comprou a marca brasileira Gallo e passou a ser também fabricante de bicicletas.

“Em 2012, abri muito o meu leque de produtos. Passei a trabalhar com marcas importadas, como a americana James e a italiana Bianchi. Tudo ia bem só que, em 2014, de repente, as vendas despencaram”, afirma ele.

Além de enfrentar a queda nas vendas, o que colocou a empresa em dificuldade financeira, segundo o fundador, foi a concorrência com as importadoras de bicicletas.

Ainda quando a economia brasileira estava em expansão, os importadores ofereciam prazos de financiamento de até 300 dias para os lojistas, uma forma de aumentar a presença no mercado de bikes.

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David não tinha condições de oferecer esse prazo para os comerciantes. As bicicletas importadas, que chegavam a custar até R$ 25 mil, representavam quase 50% do seu negócio. A outra metade do faturamento (não revelado) ele obtinha com o comércio de peças e da bicicleta Gallo.

A maior parte da dívida da Dádiva é com bancos. Fornecedores e funcionários também esperam que David consiga a recuperar o seu negócio, pois também têm dinheiro para receber.

Há dois anos, ele distribuía parte do lucro para os empregados. Neste ano, começa a enfrentar uma enxurrada de processos trabalhistas de ex-empregados que recorrem à Justiça atrás de seus direitos.

Habituado a lidar com empresas com dificuldades financeiras, diz que o “estilo David” de administrar o negócio espelha o que acontece em boa parte das pequenas empresas.

No primeiro trimestre deste ano, os pedidos de recuperação judicial subiram 165,7% e, de falências, 31,6%, na comparação com igual período de 2015.