Gestão

'Empreender não pode ser apenas seguir um plano de negócio'


Rose Mary Lopes, doutora em psicologia social e coordenadora do Encontro de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas, que acontecerá entre 4 e 6 de julho, comenta os desafios e mudanças na forma de criar e gerir negócios emergentes


  Por Italo Rufino 18 de Junho de 2018 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Embora a quantidade de pedidos de falência de empresas tenha caído no último ano, o número de casos de recuperação judicial cresceu 19,6% no primeiro trimestre de 2018, em comparação com o mesmo período do ano passado.

Nos três primeiros meses de 2018, as micro e pequenas empresas lideram os pedidos, com 237 requerimentos. Negócios de médio porte somaram 91 pedidos. Entre os grandes, foram 57, de acordo com a Serasa Experian.

Num momento em que a breve recuperação econômica dá sinais de desgaste, o dado é preocupante.

“Hoje, um desafio para os empreendedores são as incertezas que ainda pairam sobre o país”, afirma Rose Mary Almeida Lopes, presidente da Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (ANEGEPE). “E um ambiente instável exige muita resiliência, agilidade e flexibilidade.”

Para superar desafios nada melhor do que buscar conhecimento. Entre os dias 4 e 6 de julho, acontecerá o X Encontro de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (EGEPE). O evento, organizado pela ANEGEPE, tem como tema central o slogan “Caminhos para o fortalecimento do empreendedorismo: transformando possibilidades em realidades”.

A programação do encontro tem forte viés acadêmico, com pesquisadores apresentando estudos sobre gestão. A principal palestrante será Saras Sarasvathy, professora da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos.

Ela é reconhecida mundialmente por seus estudos sobre formas de empreender que fogem do sistema tradicional de criação de negócio. De acordo com sua teoria (Effectuation), uma empresa tem início com uma autoanálise do indivíduo para buscar motivação. A partir daí, ele vai se virando como pode.

ROSE MARY, DA ANEGEPE: MENOS BUROCRACIA
E IMPOSTOS PARA O EMPREENDEDOR

Outro palestrante internacional será o Hugo Kantis, professor da Universidade Nacional de General Sarmiento, na Argentina.

Ele falará sobre as mudanças nas condições sistêmicas para o empreendedorismo dinâmico na América Latina. Também convidado, o empresário Conrado Abreu, cofundador da MaxMilhas, falará sobre como ser criativo.

Em sua décima edição, o evento terá como novidade visitas técnicas a ambientes que respiram empreendedorismo, como o coworking Cubo e a ACE, eleita três vezes a melhor aceleradora de negócios da América Latina.

“É um evento para se capacitar por meio de estudos relevantes, realizar networking e buscar inspiração”, afirma Rose, que também é coordenadora geral do EGEPE.

Doutora em psicologia social pela USP, com pesquisas sobre competências empreendedoras, tipos psicológicos e ensino de empreendedorismo, Rose é autora de artigos científicos e escreveu dois livros: Educação Empreendedora (Editora Campus, 2010) e Práticas de Empreendedorismo: Casos e Planos de Negócios (Editora Campus, 2012). Ela também foi professora de pós-graduação da ESPM e da FAAP.

A seguir, trechos da entrevista com a especialista sobre o panorama empreendedor brasileiro.

NA ATUAL CONJUNTURA DO PAÍS, QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS PARA OS EMPREENDEDORES?

Um dos maiores desafios são as incertezas que pairam sobre o país. Há uma indefinição no quadro político. Não sabemos direito as consequências da greve dos caminhoneiros e outros movimentos similares que podem surgir nos próximos meses.

Um ambiente instável exige do empreendedor mais resiliência, agilidade e flexibilidade. Se demorar para perceber que uma linha de produto, serviço ou estratégia não está funcionando, sucumbe. É necessário se reposicionar rapidamente – o que já é difícil em ambientes competitivos, é mais ainda quando há incertezas.

E QUAIS SÃO AS OPORTUNIDADES?

Dependendo do nicho de atuação, há boas oportunidades. Os empreendedores percebem falhas de outras empresas em atendimento, serviço e produto. E há as oportunidades que se abrem cada dia mais em novas tecnologias, aplicadas principalmente em e-commerce, finanças e saúde. Porém, descobrir uma oportunidade que consiga crescer e escalar requer muito talento, motivação e boas alianças.

O QUE PODERIA CAUSAR UMA REVOLUÇÃO NO UNIVERSO EMPREENDEDOR?

Diminuir a burocracia e minimizar o número de impostos. O empreendedor mata leões diariamente. Mas grande parte da vitória não é saboreada nem por ele e nem por seus empregados. Há muito gasto de tempo e dinheiro com impostos.

Há diversos agentes que podem facilitar ou dificultar a vida do empreendedor. Sempre pensamos primeiro no governo, em esfera municipal, estadual e federal. Mas há também instituições financeiras, entidades que fornecem crédito, investidores, escolas e mentores. Esses agentes precisam compartilhar experiências e ajudar o empreendedor a navegar, minimizando as fricções e os obstáculos do ambiente de negócios do Brasil.

EDIÇÃO DO EGEPE REALIZADA EM PASSO FUNDO (RS)

COMO A MENTE DO EMPREENDEDOR MUDOU NA ÚLTIMA DÉCADA?

Novas formas de pensar surgiram, que vão além de iniciar um empreendimento por meio de plano de negócio quadradinho. Nos últimos anos, surgiu a possibilidade de testar e implementar ideias muito rapidamente. E, se tiver resultado negativo, quando mais rápido falhar, melhor, pois é um aprendizado contínuo. Aí se posiciona, corrige. 

Essas formas de pensar e de proceder se espalharam para além do universo das startups. Grandes empresas têm criado programas de corporate venturing, dedicados a identificar e avaliar parcerias e investimentos em startups ou ideias de negócios de seus próprios funcionários.

Um estudo argentino, coordenado pelo doutor Hugo Kantis, aponta que existem mais de 150 casos de corporate venturing na América Latina. No Brasil, se destacam os realizados pelo Itaú, por meio do Cubo, do Bradesco, com o InovaBra, e o da Telefônica, com a aceleradora Wayra, entre outros.

A SRA. REALIZOU ESTUDOS SOBRE OS TIPOS PSICOLÓGICOS DE EMPREENDEDORES. DO QUE SE TRATA?

Minha tese de doutorado teve como referência estudos do psicólogo e psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Ele identificou que existem diferenças no funcionalmente psicológico das pessoas. Diz respeito a como o indivíduo utiliza a energia psíquica e a forma preferencial de receber e processar informações. Ele fala de percepção (se a pessoa percebe o mundo em pedacinhos de informações ou consegue ter uma visão de todo). Também aborda os critérios de processamento de informação (racional e neutro ou baseado em sentimentos, em como uma ação afeta a mim e aos outros). Há também diferenças entre como a pessoa se posiciona no fluxo da vida - decide rápido, planeja e segue em frente ou sai navegando e cada dia é um novo momento a ser descoberto.

Existem muitos estudos que apontam quais são as melhores profissões para cada tipo psicológico. Em empreendedores há as características de decidir rapidamente, desenvolver e seguir planos, ser intuitivo e possuir uma visão global da situação.

SERVIÇO
10º Encontro de Estudos sobre Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas (X EGEPE)
Quando: Entre 4 e 6 de Julho
Onde: Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas
Mais informações: consultar o site

IMAGEM: Thinkstock