Gestão

“É preciso ajustar as contas. O mercado encolheu"


Para Luís Alberto Paiva, reformador de empresas, o empreendedor brasileiro tem pouca clareza sobre os reais custos e se equivoca na hora de precificar produtos e serviços


  Por Fátima Fernandes 09 de Maio de 2016 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


O empresário brasileiro é vaidoso e raramente admite que a sua empresa está com dificuldades financeiras. Boa parte deles não tem clareza dos custos da companhia e erra na hora de fixar preços.

Os donos de empresa, independentemente do porte das companhias, só se dão conta de que o negócio precisa de socorro, quando não conseguem mais pagar fornecedores e salários.

São percepções de Luís Alberto Paiva, sócio-diretor da Corporate Consulting, responsável pela reestruturação de mais de 200 empresas dos mais diferentes setores.

Desde que a crise se intensificou, conta Paiva, uma enxurrada de empresas bateu à sua porta para pedir ajuda. As primeiras foram as construtoras, seguidas pelas indústrias de autopeças.

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Muitas delas, conhecidas no mercado, estavam tão debilitadas, diz ele, que a sua equipe sequer conseguiu colocar no papel algum plano de reestruturação. As empresas pediram ajuda tarde demais.

Atualmente, as empresas de pequeno, médio e grande porte, de acordo com Paiva, passam por dificuldades. O nível de endividamento delas é altíssimo, com faturamento em queda.

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As empresas menos debilitadas, diz ele, são as que conseguiram, ao longo dos anos, formar caixa e não eram dependentes de bancos para giro de suas operações.

“A maioria das empresas precisa ajustar rapidamente suas contas porque o mercado encolheu”, diz.

Neste momento, ele trabalha, principalmente, com empresas dos setores têxtil, eletroeletrônico, cerâmico, varejo de distribuição e restaurantes.

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Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

CRISE OU MÁ GESTÃO?

A crise de uma empresa é deflagrada por uma série de descontroles e decisões erradas tomadas ao longo de um tempo, e não apenas por um único motivo. São raros os casos de empresas que entram em crise por uma alteração de legislação ou mudanças abruptas na taxa de câmbio, por exemplo.

SINTOMAS

Os índices de liquidez caem, a conta corrente da empresa seca. Outros sinais são quando a empresa precisa comprar algo e não tem dinheiro em caixa, há duplicatas em atraso, começa a chegar aviso de cartório com títulos protestados, e o mercado fecha as portas para qualquer solicitação da companhia.

Uma empresa que investe em tecnologia, que possui uma controladoria moderna, consegue identificar sinais de crise dois a três anos antes, olhando o ciclo de vida dos produtos, a rentabilidade sobre os ativos, a dívida sobre o patrimônio, em uma simples análise de balanço.

A empresa age, preventivamente, se ela detecta que fabrica um produto que tem uma vida útil de quatros anos e age para inverter a inércia de queda de vendas.

FALHAS

Falta clareza em relação aos custos de produtos e preços. O empresário entende que está ganhando dinheiro, mas não está. Muitas vezes, na formação de custos, a companhia não considera o desperdício, as paradas no processo fabril, os reajustes dos insumos.

Boa parte das empresas teve de enfrentar alta de até 70% nos preços da energia elétrica e de 50% nos custos com transportes. Só que, muitas delas, não estavam atentas a isso.

Quando a empresa sofre aumento de custos desta magnitude, precisa agir imediatamente em relação ao corte de desperdícios e não elevar preços. Se os preços sobem, elas não conseguem concorrer no mercado.

MITOS

O empresário acha que o pedido de recuperação judicial pode mexer com a imagem da empresa. O que arranha a imagem de uma organização é quando ela não consegue mais pagar salários e fornecedores.

Entrar com pedido de recuperação judicial no momento em que a empresa passa por dificuldade financeira é uma forma de preservar  empregos, e o recolhimento de impostos. Não há vergonha alguma nisso.

Vergonha é comprar e não poder pagar ou  não ter dinheiro para pagar a folha de salários.

VOLTA POR CIMA

O empresário precisa estar aberto para mudanças, ter a mente aberta. O empreendedor é normalmente vaidoso. Convive com problemas financeiros durante muito tempo e tem a impressão que ninguém sabe que ele está com problema.

Somente quando a empresa entra com pedido de recuperação judicial é que a família fica sabendo. Muitas vezes, ele recorre à Justiça quando a companhia já não tem mais capacidade de dar a volta por cima.

O frigorífico Diplomata, quando nos procurou, tinha uma dívida de R$ 250 milhões. Sugerimos entrar com pedido de recuperação judicial e a empresa não topou. Mais tarde, a empresa decidiu recorrer à Justiça, mas não tinha mais capacidade para isso. A dívida já estava em R$ 500 milhões.

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Foto: Fátima Fernandes