Gestão

Dificuldade com sucessão faz companhias ampliarem idade limite de CEOs


A substituição de executivo-chefe que atingiu idade limite continua a ser um momento crítico para as grandes empresas. O Bradesco de Luis Carlos Trabuco (foto) é o mais recente caso de mudança no limite de idade para o cargo


  Por Estadão Conteúdo 07 de Setembro de 2016 às 16:38

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A safra de executivos de grandes companhias de capital aberto se aproximando da idade limite imposta em estatuto, em geral de 65 anos, vem jogando luz sobre os processos de sucessão das corporações, obrigando-as a sair à caça de substitutos. 

O tema ganhou atenção redobrada com a mudança anunciada pelo Bradesco de ampliar a idade limite. Antes, Itaú Unibanco já havia optado por esse caminho. 

Outras empresas buscam respaldo nos chamados head hunters para garimpar no mercado ou em casa nomes que se encaixem na posição, como fez a BM&FBovespa. 

No entanto, mesmo as empresas que não contam com essa limitação precisam encarar, em algum momento, a necessidade de troca de seu principal executivo.

Ocupar a presidência de uma companhia não é algo trivial e vai muito além de conhecimento técnico, destaca o sócio da Caldwell Partners, especializada em recrutamento de executivos, Arthur Vasconcellos. O profissional deve ter, conforme ele, perfil articulador e diplomático ao mesmo tempo, além de habilidade política. "A sucessão não envolve apenas identificar o profissional, mas ajustá-lo a uma cadeira difícil de ocupar", afirma Vasconcellos. 

Na prática, poucas empresas têm limitação de idade no Estatuto. Além de Bradesco, Itaú e BM&FBovespa, a lista conta ainda com Itaúsa e Porto Seguro. 

A Bolsa incluiu esse item no estatuto na Assembleia Geral Extraordinária realizada do ano passado. A justificativa divulgado à época argumentou que a mudança estava em "em linha com as melhores práticas de governança corporativa".

INCIDENTES NO BRADESCO

No caso do Bradesco, pesou para a ampliação da idade limite uma sequência de imprevistos, além da integração do HSBC em meio à crise no país. Ocorreram o trágico falecimento de Marco Antonio Rossi, presidente da Bradesco Seguros e vice-presidente do banco, em um acidente de avião no ano passado e as denúncias contra executivos na apuração de um suposto esquema de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). 

Com a elevação, que passará de menos de 65 anos para menos de 67 anos, caso seja aprovada, Luiz Carlos Trabuco Cappi deverá ficar no comando do banco até meados de 2019, completando uma década à frente da instituição, mesmo período de seu antecessor, Márcio Cypriano.

MAIS TEMPO PARA SETUBAL 

Ao optar pela extensão de prazo, o Bradesco seguiu a mesma decisão tomada pelo concorrente Itaú. Dois anos antes de Roberto Setubal completar 60 anos, a instituição elevou a idade máxima para 62 anos para a sociedade, companhia aberta que controla todas as empresas do conglomerado. 

Fontes não descartam, porém, a possibilidade de o limite ser ampliado novamente. Um executivo diz que os comentários nesse sentido têm aumentado. "Não é impossível", complementa outro.

Se nada mudar, Setubal deixa o cargo de executivo do banco no ano que vem e um dos diretores gerais deve substituí-lo: Candido Bracher, Marco Bonomi ou Marcio Schettini. O Itaú, procurado, disse que não há intenção de alterar o limite de idade. 

"Postergar a saída do executivo é muito ruim para uma grande companhia", diz um executivo de mercado. “Pode ser lida como autorreconhecimento de um grave problema. A fonte acrescentou que a postergação pode ainda lançar dúvidas se a empresa será capaz de indicar um nome para a substituição ao final do prazo estendido.

Outro caso de executivo próximo de 65 anos que chamou atenção foi na Vale. Porém, a Justiça do Rio concedeu liminar proibindo que a assembleia geral extraordinária da companhia votasse a idade limite de 65 anos, após ação de acionistas minoritários.

BOLSA BUSCA SUCESSOR

Na BM&FBovespa, o diretor-presidente da companhia, Edemir Pinto, se aproxima da idade limite do estatuto e o assunto já está no radar do Conselho de Administração da companhia. Edemir ocupa a presidência desde 2008
Isto acontece em um momento delicado para a instituição, que aguarda aprovação dos órgãos reguladores para a fusão com a Cetip. O presidente da Cetip, Gilson Finkelsztain, é um dos principais cotados para ficar à frente da companhia.

A troca de bastão na Bolsa deve acontecer apenas após a conclusão da integração, ainda à espera da aprovação dos reguladores para a união, após seis tentativas anteriores. 

De acordo com uma fonte, a empresa responsável pelo processo é a Spencer Stuart, especializada em plano de sucessão de presidentes. Além de Finkelsztain, são cotados o diretor executivo de Clearing e Depositária da BM&FBovespa, Cícero Vieira, José Berenguer, presidente do JPMorgan no Brasil e conselheiro da Bolsa, e ainda o do ex-presidente do HSBC no Brasil, André Brandão.

A BM&BFovespa afirmou que o "atual mandato do diretor-presidente expirará em 30 de abril de 2017, sendo permitida a recondução nos termos do Estatuto Social. E que, alinhada às melhores práticas de governança corporativa, a empresa mantém uma política de sucessão mediante a qual avalia regularmente potenciais candidatos para os cargos chave de gestão da empresa em diversos níveis".

RENNER ESTUDA AMPLIAÇÃO DE IDADE

Apesar de não haver idade limite imposta em estatuto, a varejista Lojas Renner foi outra que estendeu a presença seu presidente, José Galló, no comando. O Conselho aprovou em fevereiro a prorrogação do contrato do executivo-chefe por dois anos, a contar de 1º de janeiro de 2017. No ano passado, o contrato havia sido renovado até 2017, quando ele completa 65 anos, mas a possibilidade de prorrogação até 2019 já era prevista.

Numa companhia sem controlador definido, a imagem de Galló é frequentemente associada com a identidade de "dono" na Renner. Por conta disso, a empresa é recorrentemente questionada quanto ao futuro no que diz respeito à sucessão do executivo. 

Durante evento com investidores no ano passado, o presidente do Conselho de Administração da companhia, Osvaldo Schirmer, procurou afastar temores. Ele afirmou que a Renner está preparada "caso algo retire Galló do nosso convívio" e que já se definiu na Renner que o sucessor na presidência "está dentro de casa".

DIFÍCIL E NECESSÁRIO

No entanto, o processo de sucessão é uma questão a ser trabalhada em qualquer empresa, havendo idade limite ou não. Para o especialista em governança Renato Chaves, o assunto não deve estar no radar da empresa apenas no momento em que o seu principal executivo se aproxima da idade da aposentadoria, mas ser tratado no dia a dia. 

Até porque, destaca, há situações em que o a companhia pode ser pega de surpresa, caso de falecimento ou até mesmo a saída do executivo. É importante, conforme ele, expor mais os executivos de dentro da casa para o Conselho, responsável pelo processo sucessório. 

"Muitas vezes, o Conselho não conhece todos os executivos. Ao conhecer, podem até mesmo sair da mesmice de escolher o diretor financeiro para ser o sucessor", opina Chaves.

Entre as empresas familiares, o processo de sucessão costuma ser um momento de vulnerabilidade, mas é necessário para garantir a perenidade da empresa, afirma Antonio Araujo, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). 

Para o consultor, a inclusão de uma idade limite, estampada no estatuto da companhia, pode ser um instrumento interessante para trazer o assunto da sucessão para a pauta da empresa.