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Cuidado, sua marca pode estar associada a sites ilícitos


Redes de propaganda online distribuem anúncios de marcas que podem ser exibidos de sites de filmes piratas às páginas de extremistas religiosos


  Por Italo Rufino 16 de Janeiro de 2018 às 13:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Uma recente pesquisa divulgada pelo IBOPE Repucom, a pedido da Motion Picture Association – América Latina (MPA-AL), revelou um dado alarmante da indústria de propaganda brasileira.

Os dez sites de pirataria de filmes mais acessados no Brasil arrecadaram, no mínimo, R$ 17 milhões com publicidade entre 2015 e 2016. Em média, esses sites receberam cerca de 135,3 milhões de visitas mensais em 2016.

Em 2015, foi destaque na mídia a prisão de um casal do interior paulista que administrava um site de vídeos online ilegais. No acervo, havia 150 mil filmes, documentários, séries de TV e shows. O site recebia 60 milhões de visitas por mês e gerava lucro de R$ 70 mil mensais.

Esses sites ilegais se beneficiam do sistema redes de publicidade online. Funciona assim: uma marca quer anunciar seus produtos e serviços na internet.

Ela, então, contrata uma agência de publicidade, que, por sua vez, contrata empresas de propaganda online que possuem uma rede de sites, aplicativos e serviços digitais, que ganham dinheiro para exibir os anúncios em suas páginas. A remuneração é baseada de acordo com o número de cliques no banner da marca.

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YGOR VALÉRIO, DA MPA-AL: MARCAS PODEM NEM
SABER ONDE VÃO PARAR SEUS ANÚNCIOS

A falha do sistema é que a distribuição dos anúncios é feita de acordo com o volume de acessos dos sites onde a propaganda será exibida.

Um anúncio pode ser exposto em um respeitado jornal online, mas também há chances de ir parar num site de atividades ilícitas ou obscenas, como pornografia.

“No final das contas, pode acontecer da marca nem saber onde seu anúncio foi exibido”, afirma Ygor Valério, vice-presidente Jurídico e de Proteção de Conteúdos da MPA-AL.

E é aí que mora o perigo. A imagem da marca pode ser comprometida, uma vez que o público fará associação entre a empresa e conteúdos ilícitos.

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No ano passado, cerca de 250 grandes empresas, como Audi, L'Oreal, McDonald's e HSBC, retiraram os investimentos em publicidade que faziam no YouTube e no Google. A razão foi uma investigação do jornal britânico The Times, que concluiu que anúncios publicitários de várias empresas eram promovidos em vídeos com teor homofóbico, antissemita e de extremismo religioso, como os do Estado Islâmico -- uma vez que esses conteúdos podem se tornar virais. 

Em 2015, durante a CPI dos crimes cibernéticos, foi realizado um levantamento que identificou mais de 500 sites com conteúdo criminoso no Brasil. Nos sites, além de anúncios de grandes marcas, havia também propagandas do próprio Governo Federal.

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E QUAL É A SOLUÇÃO?

De acordo com Valério, não há muita coisa que o empreendedor possa fazer. Ele afirma que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) não atua de maneira constante no ambiente digital.

Por sua vez, Conselho Executivo das Normas-Padrão, que assegura boas práticas comerciais entre anunciantes, agências de publicidade e veículos de comunicação, também não possui diretrizes especificas sobre o tema.

Para Valério, a solução teria que partir das empresas de anúncios online. A maior do Brasil é o Uol. Uma das mais usadas pelos brasileiros é o Google. Essas empresas criam contratos comerciais com os administradores dos sites, pois os dois lados ganham dinheiro das marcas.

“Além do critério de audiência e perfil do público, as intermediadoras de anúncios precisam desenvolver ferramentas para averiguar o conteúdo dos sites e fazer uma análise de risco”, diz o Valério. “Assim será possível classificar os sites e evitar o financiamento de páginas ilícitas”.

IMAGEM: Thinkstock e Lucio Bernardo Jr./Câmara dos Deputados