Gestão

Como a Lojas Cem enfrenta o fechamento de 278 lojas


Apesar da crise sanitária mundial, a rede vai manter os investimentos para dobrar o centro de distribuição (foto acima), hoje de 102 mil metros quadrados, localizado em Salto


  Por Fátima Fernandes 09 de Abril de 2020 às 07:00

  | Editora do site Varejo em Dia


Uma das maiores redes de eletrodomésticos e móveis do país, a Lojas Cem prevê uma perda de 7,5% na sua receita anual por conta do fechamento de suas 278 lojas.

Com faturamento anual da ordem de R$ 5,3 bilhões, a empresa, comandada pela família Dalla Vecchia, faz essa estimativa considerando que o comércio permaneça fechado por um mês.

“A nossa sorte é que somos uma companhia bem estruturada e os imóveis são do próprio grupo. Imagina se tivéssemos de renegociar aluguéis de 278 pontos”, diz Domingos Alves, superintendente da rede.

Com o fechamento das lojas, não entra receita, claro, diz ele, mas os custos de mantê-las continuam os mesmos, incluindo os salários dos funcionários.

LEIA MAIS: Guia para reabertura do comércio

A Lojas Cem optou por colocar os 11,7 mil empregados em férias coletivas por 30 dias.

Só manteve ativo, na sede da empresa, em Salto, interior de São Paulo, o pessoal de Recursos Humanos para, justamente, cuidar dos pagamentos dos salários.

Mesmo as pessoas que tinham acabado de ser contratadas pela rede foram colocadas em férias. “Não demitimos e não vamos demitir ninguém”, afirma Alves.

Nos próximos dias, a rede deverá fazer um comunicado para os clientes para informá-los que não precisam se preocupar com o atraso no pagamento das prestações.

A empresa não vai cobrar juros enquanto as lojas estiverem fechadas e, quem já tiver com prestação atrasada, não terá nome encaminhado ao SPC (Serviço de Proteção ao Crédito).

A Loja Cem possui uma carteira de pelo menos 2 milhões de clientes que compram pelo sistema de carnês. Eles vão todos os meses às lojas para pagar as prestações.

Geralmente, quando quitam um carnê, acabam saindo da loja com outro na mão.

Assim que as lojas voltarem a abrir, de acordo com Alves, todas estarão preparadas para cuidar da saúde dos empregados e dos clientes.

“Vamos dar máscaras para os funcionários, espalhar álcool em gel e fazer tudo o que recomendam as autoridades de saúde.”

Os gastos com máscaras, diz ele, neste primeiro momento, já é da ordem de R$ 300 mil.

“Com essa pandemia, o mundo precisa ter a consciência de que enriqueceu a China, e que está nas mãos dos chineses. É preciso refletir sobre este movimento”, diz Alves.

Pouco antes da decisão dos governos para o isolamento social e o fechamento do comércio, Natale Dalla Vecchia, 83 anos, um dos fundadores da rede, falou com o varejoemdia.

Isso ocorreu exatamente no período em que os consumidores brasileiros estavam correndo às lojas para estocar alimentos básicos e até remédios.

“Esse movimento é assustador. Passo perto de meia dúzia de farmácias de volta para casa. Nunca vi tanto carro parado na frente delas. As pessoas estão se municiando de remédios e álcool em gel”, diz Natale Dalla Vecchia.

“O novo coronavírus afetou tudo”.

A inadimplência dos consumidores, que já estava em ritmo crescente, diz Dalla Vecchia, deve continuar subindo. Há dois anos, era de 4% a 5% sobre a carteira financiada e, atualmente, está em 7%.

Apesar da crise sanitária mundial, a família Dalla Vecchia vai manter os investimentos para dobrar o centro de distribuição, hoje de 102 mil metros quadrados, localizado em Salto.

“O resultado da nossa atividade vai bem e acreditamos que a nossa empresa comporta mais 100 novas lojas em um raio de 600 quilômetros a partir do nosso centro de distribuição”, afirma.

A força da rede, diz ele, se deve principalmente à carteira de milhões de clientes ativos que compram a prazo com recursos da própria rede, sem a parceria com bancos.

Com tanta tecnologia surgindo no mundo dos meios de pagamento, como a carteira digital (e-wallet), a Lojas Cem não abre mão do velho e bom carnê.

“O carnê traz o cliente para a loja todo o mês. Não morremos de amores pela venda on-line.”

Dalla Vecchia diz que, apesar de a inadimplência ter subido, a venda financiada pela rede ainda é uma boa alternativa para a loja e para o cliente.

Há anos a rede cobra 1% de juros ao mês no valor das prestações em atraso, menos do que os bancos, que cobram taxas pelo menos cinco vezes maiores nos financiamentos.

Além do fechamento de lojas, o que preocupa a Lojas Cem é a alta do dólar. “Este aumento do dólar deixa a indústria apavorada.”

Isto é, negociar preços fica bem mais difícil em momentos como este.

Em Salto, a Lojas Cem emprega cerca de 600 pessoas no escritório e outras 700 no depósito.

Ao ser questionado sobre os reflexos da crise do novo coronavírus, Dalla Vecchia diz.

“A nossa empresa, fundada em 1952, aprendeu o seguinte: em uma crise, o forte sai fortalecido e o fraco, sucumbe. Nós somos fortes e vamos enfrentar mais esta crise.”

A Lojas Cem é a única varejista do seu setor e do seu tamanho que ainda está totalmente nas mãos dos fundadores, a família Dalla Vecchia.

*Texto originalmente publicado no Varejo em Dia

 

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IMAGEM: Divulgação Lojas Cem