Gestão

Como a família Breithaupt se desdobra para salvar negócio de quase 100 anos


Grupo de Santa Catarina, que já teve supermercado e shopping, entra com pedido de recuperação judicial, encolhe negócio, e se prepara para voltar a crescer


  Por Fátima Fernandes 05 de Novembro de 2020 às 07:00

  | Jornalista especializada em economia e negócios e editora do site Varejo em Dia


O nome é difícil de pronunciar, Breithaupt, mas não impediu que a família de origem alemã se tornasse uma das mais conhecidas de Jaraguá do Sul (SC) e cidades catarinenses.

Breithaupt já foi nome de supermercado e até de shopping center. Hoje, a família é dona de uma rede de material de construção com 12 lojas e de oito auto centers.

Depois de quase cem anos no varejo, iniciado em 1926 por Arthur Breithaupt, com uma pequena mercearia de secos e molhados, a família recorre à Justiça para manter o negócio.

Há cerca de dois meses, o grupo Breithaupt entrou com pedido de recuperação judicial por conta de uma dívida vencida de cerca de R$ 30 milhões, das quais 80% com fornecedores.

O plano de recuperação de dois anos já foi montado e está em poder da Justiça, que deve marcar uma assembleia com os credores para aprovação ou alterações de propostas.

“A empresa tem credibilidade, e os fornecedores estão apoiando o nosso negócio. O faturamento das lojas cresce mês a mês”, diz Bruno Breithaupt, 41 anos, presidente do grupo.

A RAIZ

O DNA empreendedor do seu Arthur se espalhou até a quarta geração da família, e foi justamente por apostar em vários negócios que os problemas financeiros surgiram.

De acordo com Bruno, o pai Bruno e o tio Roberto sempre tiveram disposição para investir, mas acabaram, assim como outros empreendedores, sofrendo com as crises que o país enfrentou.

Mas não foi só isso. Uma avaliação feita pela equipe da Corporate Consulting, contratada para reestruturar o grupo, constatou falhas nos processos de compra e venda de produtos.

A empresa estava amarrada a alguns grandes fornecedores e acabava comprando toda a linha de produtos, só que boa parte dos itens não saía do estoque.

“Como consequência, eles trabalhavam com margens apertadas, alto endividamento e sem resultado no final do mês”, afirma Luís Paiva, sócio-diretor da Corporate Consulting.

A mercearia de secos e molhados do bisavô da família, que foi fundador da Associação Comercial de Jaraguá do Sul, acabou se transformando numa rede de supermercados.

A entrada no setor de material de construção aconteceu no início dos anos 70 e, em 2010, os dois negócios já estavam do mesmo tamanho.

Como o setor de supermercado começava a exigir grandes investimentos, os irmãos Bruno e Roberto decidiram vender a operação, em 2012, para a rede Cooper, de Blumenau (SC).

Na época, os Breithaupt também já eram donos do primeiro shopping da cidade, com cerca de 40 mil metros quadrados e 90 lojas, inaugurado em 2000 e ampliado em 2012.

“Em 2012, começou o processo de avaliação dos negócios. Vendemos o supermercado, que chegou a ter seis lojas e, depois, o shopping, que já sentia dificuldade para atrair lojistas.”

O centro comercial foi vendido em 2015 para a rede Tenco, de Minas Gerais.

MATERIAL DE CONSTRUÇÃO

A crise decorrente do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff acabou tendo impacto no negócio que ganhava mais atenção da família: o de material de construção.

“O mercado da construção civil ficou quatro anos estagnado e agora, neste ano, veio a covid-19, que resultou no fechamento das lojas por 30 dias.”

O e-commerce ajudou o negócio, mas ainda representa de 5% a 10% do faturamento mensal do grupo, que hoje é da ordem de R$ 7 milhões a R$ 8 milhões por mês.

A RECUPERAÇÃO

Com o pedido de recuperação judicial, diz Bruno, o grupo vai ter condições de se reerguer, com prazo de até dois anos para quitar as dívidas.

“A construção civil tem sido a bola da vez, e já sentimos um aumento de 15% no faturamento a cada mês desde a reabertura das lojas”, afirma.

No processo de reestruturação, o grupo fechou sete lojas até agora e mudou o mix de produtos. Uma das lojas chegava a dar prejuízo acima de R$ 150 mil por mês.

As lojas, que tinham de 700 metros quadrados a 3.500 metros quadrados, agora serão menores, com cerca de 150 metros quadrados.

“A estratégia é de redução do negócio, otimização do resultado e retomada do crescimento a partir do ano que vem”, diz Paiva.

Hoje, diz ele, com menos lojas, o faturamento da empresa já é maior do que o somado com todas as que foram fechadas porque o giro de produtos aumentou.

“Dois meses após o pedido de recuperação judicial, o grupo atingiu o ponto de equilíbrio, o giro de produtos e a rentabilidade da operação estão dentro do que planejamos.”

Neste momento, quem toca a empresa são os Brunos, pai e filho. Por motivo de saúde, o seu Roberto está afastado, mas a sua família acompanha de perto a recuperação da empresa.

Para Bruno, o maior erro da família em toda a sua história foi ter investido em um segmento que desconhecia, o de shopping center.

“Não é fácil tocar no Brasil um negócio redondinho, quem dirá uma empresa que encontra dificuldades. Hoje, me sinto desafiado e otimista com o que temos feito e os resultados.”

Um dos desafios do momento, de acordo com Bruno, é manter a loja abastecida. “Devido à pandemia, muitos fornecedores colocaram o pé no freio”, afirma.

O varejo de material de construção, diz ele, registra falta de cimento, ferro, fio de cobre, telha, tijolo, produtos de PVC e ainda sofre pressão para aumentos de preços, de 5% a 10%. 

Hoje, já há empresas regionais interessadas no grupo criado pelo seu Arthur. A família avalia todas as possibilidades.

 





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