Gestão

As 4 armas do Carrefour para enfrentar a crise


Charles Demartis, presidente da rede no Brasil, conta qual a munição escolhida para manter o Carrefour lucrando mesmo com a economia desfavorável


  Por Karina Lignelli 22 de Março de 2016 às 14:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


O varejo definitivamente não vive seu melhor momento – a crise política e econômica tiram a confiança e o poder aquisitivo do consumidor, que se afasta das compras e derrubam o faturamento dos comerciantes. Esse ciclo nada positivo não está restrito aos pequenos negócios.

Gigantes como o Walmart e o Carrefour também estão assistindo à queda nas vendas. A primeira desistiu do Brasil neste ano – toda a sua operação no país foi encerrada em meio a essa pasmaceira econômica. Considerando todos os setores do varejo, já foram mais de 100 mil lojas fechadas somente no ano passado.

Há mais de 40 anos no mercado brasileiro, a rede Carrefour foi uma das primeiras a desembarcar em território nacional. Esta não é a primeira crise atravessada pela companhia. Ainda assim Charles Desmartis, presidente do Carrefour Brasil, vê este momento econômico com cautela e otimismo.

 “Vejo de maneira concreta o apelo do varejo brasileiro para a recuperação do crescimento da economia. Basta trabalhar”, disse durante o 4º Fórum Lide de Varejo, Consumo e Shopping Centers, realizado no último sábado no Guarujá (SP).

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Trabalho é o que não falta. Com faturamento de R$ 37, 9 bilhões em 2014, segundo o último Ranking Abras, a empresa tem feito muitos esforços para se manter de pé – e investindo.

Olhar para dentro do negócio tem sido uma das atividades mais fundamentais para a sobrevivência do negócio. Para Desmartis, "a grande concorrência é um estímulo para se inovar e se reinventar." 

Para lutar contra a deterioração do mercado, os executivos da rede optaram por reagir – lançaram mão de quatro armas que podem ser uma ótima alternativa para quem está buscando uma saída para essa crise que ainda não tem hora para acabar. 

1 – ALÉM DOS MULTIFORMATOS

O pensamento aqui não é "loja física ou e-commerce". Foi preciso ampliar o número de formatos possíveis para adequar as as lojas aos diversos tipos de público. “São milhares de oportunidades para empresas renovarem ativos tradicionais e criarem novos padrões de qualidade e sofisticação”, afirma Desmartis.

O e-commerce, que foi desativado em 2012, será relançado no final do segundo trimestre, restrito a produtos não alimentares, em princípio. A despeito dos desafios logísticos, venda virtual de alimentos frescos não está descartada. “A ideia é começar com pilotos e escopo geográfico bem delimitado, até entender as complexidades e acertar o modelo”, afirma, lembrando que a venda de alimentos pelo e-commerce já é sucesso no país-natal da rede.

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“Apostar no modelo de conveniência hoje é o que ajudará o varejo a sobreviver”, afirma o executivo. Não por acaso, as lojas Express, que são menores e ocupam a posição do mercado de bairro, ganharam importância neste momento econômico. 

Um dos grandes destaque da rede é o formato de atacarejo, criado e exportado pelo Carrefour. Em 2007, a aquisição do Atacadão foi a faísca para o crescimento de um mercado prioritário para a rede francesa.  “Em termos de vendas, há muito tempo o atacarejo já ultrapassou a bandeira Carrefour”, diz Desmartis. 

2 - CAPACITAÇÃO

Para Desmartis é um erro pensar em capacitação e treinamento como um custo vazio. "Não é um luxo. O varejo precisa disso para sobreviver ao nível de sofisticação da atividade e do cliente", diz. Aqui, a atenção está dedicada não só ao produto, mas principalmente à experiência de compra.

O executivo afirma que em 2015 foram ministradas 800 mil horas de aulas em diversas áreas – desde a educação básica até as possíveis especializações para melhor atuação no varejo alimentar. 

3 – FORNECEDORES

Nos Estados Unidos, o hyperlocal já é uma realidade. Aqui, o Carrefour afirma ter desenvolvido parceria com mais de mil fornecedores em todo o país para simplificar a cadeia de abastecimento. De acordo com Desmartis, são produtos com garantia de origem e a ideia é que esta certificação aproxime os clientes das novidades que serão colocadas na rede.

“A tendência é de crescimento: são produtos não necessariamente mais caros, mas continuam a atender às expectativas desse consumidor por qualidade.”

4 – CRÉDITO

Segundo Desmartis, desde março do ano passado o Carrefour "já antecipa a degradação do cenário e do risco de inadimplência". Foi neste momento que começaram as adaptações na área financeira. Antes conhecida por ser “difícil” na concessão de crédito, a rede passou a trabalhar, caso a caso, em três grandes áreas: aprovação de novas contas, gerenciamento do limite de crédito e cobrança.

FORMATOS MENORES: A PRIORIDADE DA REDE/FOTO: DIVULGAÇÃO 

A rede passou a atender os clientes individualmente através da parceria financeira com o Itau. “Estava difícil trazer consumidores para lojas, mas (depois da mudança) tivemos grande sucesso”, afirma Desmartis, que não informou o número de clientes novos, nem de “recuperados”. “É nesse momento que precisamos mais do que nunca ampliar o sortimento de clientes”, conclui.