Gestão

A receita de duas redes do interior para enfrentar 2016


A Lojas Cem vai manter a prática de comprar à vista da indústria, segundo o supervisor Domingos Alves (foto). A Zema vai seguir com plano de fechar lojas deficitárias


  Por Fátima Fernandes 02 de Dezembro de 2015 às 08:00

  | Editora ffernandes@dcomercio.com.br


Corte de custos foi o que mais se ouviu dentro das empresas neste ano como medida essencial para enfrentar a crise. Em 2016, muito provavelmente, não será diferente, até porque o primeiro trimestre tende a ser o pior da história do comércio.

Duas redes do varejo que atuam em um dos setores que mais sofrem com a recessão, o eletroeletrônico, listaram algumas ações para enfrentar, no ano que vem, as consequências do aumento do desemprego, da inflação, dos juros e da falta de confiança do consumidor na economia.

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“Nós não somos de fazer grandes mudanças repentinas. Vamos manter o plano de corte de custos, sem que isso atrapalhe os investimentos da empresa”, afirma José Domingos Alves, supervisor da Lojas Cem, rede baseada em Salto (SP), com receita anual da ordem de R$ 4,5 bilhões.

Com 10,5 mil funcionários e 231 lojas espalhadas pelo interior de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a Lojas Cem tomou a decisão de não mais repor os funcionários que deixam a empresa.

Para evitar que os preços subam para o consumidor, vai comprar mercadorias dos fornecedores somente à vista.

Se os aumentos de preços da indústria ultrapassarem a inflação ou os preços da concorrência, a rede está decidida a trocar de fornecedor, mesmo que seja uma marca líder de mercado.

A empresa acredita que poderá ter melhor desempenho do que a concorrência. Primeiro, porque não depende de financiamento para adquirir produtos da indústria. Segundo, porque não depende de instituições financeiras para dar crédito para o cliente. A rede banca o financiamento.

“Vamos também ter promoções o mês todo. É logico que, num momento como este, temos de sacrificar mais as margens. É questão de oferta e procura”, diz Alves.

Os planos de investir R$ 60 milhões em dez novas lojas em 2016 estão mantidos. “Tem muita empresa fechando. Este é o momento de ganhar participação de mercado”, afirma o executivo.

ZEMA: PLANO DE FECHAR LOJAS DEFICITÁRIAS

Com 7,2 mil empregados, 523 lojas e um faturamento de R$ 1,3 bilhão, a rede Zema, com sede em Araxá (MG), decidiu manter em 2016 o plano de desativar lojas deficitárias e abrir pontos de venda em praças capazes de dar maior retorno financeiro para a rede.

Neste ano, a Zema já fechou 14 lojas, mas ainda assim vai terminar o ano com 22 lojas a mais do que em 2014. Para o ano que vem, a rede decidiu manter os 523 pontos de venda.

Assim como a Lojas Cem, a Zema também não vai mais repor funcionários e vai continuar com ação para adequar os estoques ao ritmo da demanda.

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Como parte da política para enxugar custos, a rede desativou neste ano um centro de distribuição (CD) de 10 mil metros quadrados localizado em Leopoldina (MG), o que resultou em uma economia de estoques da ordem de R$ 30 milhões.

“Reduzimos os estoques, sem deixar faltar produto nas lojas. Em vez de receber 1.000 peças da indústria de uma vez, nós optamos por receber 250 peças em quatro vezes”, afirma Juliano Oliveira, diretor adjunto comercial da Zema.

A rede também está pedindo mais prazo de pagamento para os fornecedores. E tem conseguido. O prazo médio para pagar a indústria, que era de 60 dias, aumentou para 75 dias.

Apesar de todo o esforço para minimizar os efeitos da crise, as duas redes projetam queda de receita no primeiro trimestre de 2016, na comparação com igual período de 2015.

A expectativa da Lojas Cem é de queda real de faturamento da ordem de 12%. A Zema estima uma queda real da ordem de 5%.

LOJAS CEM: PREVISÃO DE QUEDA DE 12% NO PRIMEIRO TRIMESTRE

A inadimplência dos consumidores que assombrou o comércio no final dos anos 90 começa a preocupar novamente o comércio. Nas Lojas Cem e na Zema, o atraso no pagamento dos clientes deu um salto de 20% neste ano, na comparação com 2014.

Na Zema, a inadimplência (atrasos acima de 30 dias) subiu de 2% para 2,4%, neste ano. Parece pouco, mas 0,4 ponto percentual significa R$ 8 milhões a menos no caixa da empresa.

A inadimplência da Zema, tradicionalmente, resulta em perdas de R$ 15 milhões por ano. Neste ano, este valor subiu para R$ 23 milhões.

Antes que essa situação se agrave ainda mais, a empresa decidiu criar um call center somente para cuidar da cobrança dos clientes. Cerca de 40 pessoas foram contratadas para o departamento, que já está em operação.

A inadimplência também é preocupação na Lojas Cem. Alves, que prefere não citar percentuais de perdas, diz que o atraso no pagamento dos clientes começou a ficar mais evidente a partir do segundo semestre.

De fato, em junho, a inadimplência de pessoa física era da ordem de 3,6% (atrasos acima de 90 dias), de acordo com dados do Banco Central. Isto é, de cada R$ 10 emprestados pelos bancos, R$ 3,6 não retornavam. Nos meses seguintes, o percentual subiu, até chegar a 4,1% em outubro.

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Com a perspectiva do aumento do desemprego e da queda de renda do consumidor, as duas redes temem que essa taxa seja ainda maior no começo de janeiro.

Afinal, no início do ano o consumidor tem ainda que arcar com despesas extras, como IPTU, IPVA e matrícula escolar.

O que vai prejudicar o comércio vende a prazo é também a lei estadual 15.659, que obriga o lojista a enviar cartas com aviso de recebimento (AR) para o consumidor com dívidas em atraso, antes de incluir seu nome em órgãos de proteção ao crédito.

“Se ele não assinar a carta, o nome não vai para o SPC, e ele pode continuar comprando e não pagando, aumentando a inadimplência das lojas”, diz Alves, da Lojas Cem.

“Para enviar a carta, em vez de gastar R$ 1, vamos gastar R$ 8, e pesquisas mostram que somente 40% dos clientes são encontrados. É uma lei que vai prejudicar ainda mais o comércio, que vai continuar vendendo para o mau pagador”, diz Oliveira, da Zema.

Para Emílio Alfieri, economista da ACSP, a tendência é de aumento da inadimplência. Uma taxa de até 5%, porém, ainda pode ser considerada normal para a economia brasileira.

Dificilmente, na avaliação de Alfieri, a inadimplência vai atingir os níveis do final da década de 1990 (que chegou em 18,7%, em setembro de 98), resultando na quebradeira de grandes redes, como Mappin, Mesbla, Arapuã, Casa Centro e G. Aronson.

O que pode acontecer hoje, na sua avaliação, é um movimento de troca de mãos. Isto é, as empresas mais sólidas vão acabar adquirindo as que não estão conseguindo manter o negócio em pé.

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