Gestão

A empresa que transformou funcionários em 'inventores'


Na Brasilata, fabricante paulista de embalagens de aço, 90% das sugestões das equipes são aprovadas e aplicadas na prática. Saiba como a companhia obtém esse índice recorde


  Por Italo Rufino 31 de Março de 2016 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Imagine a seguinte soma: ideia + implementação + resultado. Sabe qual é a resposta? Inovação. Esse é o conceito que a Brasilata, fabricante paulista de embalagens de aço, persegue a cada dia. 

Tudo começou em meados da década de 1980, quando a empresa passou a implementar práticas nipônicas de gestão. Uma delas  trazia um novo olhar sobre o papel do funcionário dentro da organização. Em vez de ser apenas um executor de tarefas, ele deveria ser um inventor. 

Em 1987, o desejo de transformar o funcionário em um agente da inovação motivou a Brasilata a criar o Projeto Simplificação, um programa formal que estimula, capta e implementa ideias de empregados.  

A Brasilata se tornou tão notável neste campo que ganhou destaque no livro "Organização Guiada Por Ideias", dos americanos Alan G. Robinson e Dean M. Schroeder, lançado no Brasil em novembro de 2015.

A obra aborda as vantagens competitivas de organizações que valorizam ideias de funcionários.  

De acordo com um levantamente mundial realizado por Robinson e Schroeder, especialistas em sistema de sugestões, a Brasilata é a empresa com maior número de ideias por funcionário ao ano – sendo que cerca de 90% das sugestões são aplicadas na prática. 

Nas palavras de Antônio Carlos Teixeira Álvares, vice-presidente do conselho e ex-CEO da Brasilata e membro fundador do Fórum de Inovação da Fundação Getúlio Vargas, uma organização guiada por ideias só tem sucesso a partir da mudança cultural de seus dirigentes. É preciso acabar com preconceitos e postura autocrática – muito comum nas organizações ocidentais. 

“Alguns CEOs não valorizam as ideias dos empregados que atuam na linha de frente da organização”, afirma Teixeira. “Isso é um grande equívoco, pois esses funcionários sabem quais são os desafios reais da operação.”

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Conheça o Projeto Simplificação da Brasilata e inspire-se. 

VALORIZAR A ORIGEM DAS BOAS IDEIAS 

Quem vivencia os problemas sabe como resolvê-los. Seguindo esse princípio, apenas funcionários que não desempenham cargo de chefia podem propor ideias para melhorar a operação da empresa – e cerca de 80% das sugestões são provenientes de empregados que atuam no chão de fábrica. 

TEIXEIRA, VICE-PRESIDENTE DO CONSELHO DA BRASILATA: FUNCIONÁRIOS PRECISAM SER CONTRATADOS COMO INVENTORES

Geralmente, as ideias são simples e resolvem problemas do dia a dia – inovações incrementais que geram melhorias continuas, como um funcionário que propõe mudanças na linha de montagem para ter mais agilidade no processo fabril. 

Há alguns anos, uma operadora de máquina da Brasilata percebeu que um equipamento italiano que armazenava latas em caminhões deixava espaços vazios na carroceria do veículo.

Ela, então, sugeriu um novo sistema para reorganizar o armazenamento para encaixar mais latas. Meses depois, foi constatado o motivo do problema – a máquina era programada para armazenar latas do tamanho padrão italiano, que era um pouco maior que o padrão brasileiro.  

"A ideia reduziu em 10% o custo com frete, o que gerou economia de milhões de reais nos anos seguintes", afirma Teixeira. 

De acordo com o executivo, cerca de 70% das ideias dos  funcionários já são praticadas de forma autônoma – neste caso, a vantagem é transformar um hábito individual numa prática formal da empresa. 

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FUNCIONÁRIOS DA BRASILTA EM PREMIAÇÃO POR MELHORES IDEIAS

CRIAR CANAIS DE COMUNICAÇÃO PARA TODOS

Há quatro anos, a Brasilata deixou de usar caixa de sugestões de papel. Hoje, em cada uma das quatro fábricas que a empresa mantém no país há espaços com computadores compartilhados (um tipo de lan house corporativa) em que os cerca de 1.000 funcionários podem dar ideias por e-mail ou via intranet. 

Dar uma sugestão é muito simples. Basta o funcionário informar seu nome (ou a equipe), setor de atuação, a ideia e o resultado esperado.   

No caso da Brasilata, há um sistema robusto de tecnologia de informação. Empresas com menos funcionários ou menos recursos técnicos podem usar formulários de papel e caixa de sugestões. O importante é a empresa abrir canais de comunicação para que o funcionário envie sugestões espontaneamente. 

AVALIAR AS SUGESTÕES COM AGILIDADE 

Pelo fato de a maioria das sugestões terem impacto local, as ideias são avaliadas pelo coordenador de equipe. Em até duas semanas, o funcionário sabe se sua ideia foi ou não aceita. Depois de acatada, o prazo para implementação é de até um mês. 

“Geralmente, 90% das ideias são aplicadas”, afirma João Vicente Tuma, diretor técnico da Brasilata.

Um reuniões semanais, o funcionário pode pedir um feedback detalhado caso a sua ideia seja indeferida. Se um coordenador de equipe barrar ideias de maneira constante, ele poderá ser chamado para dar maiores explicações.

A prática serve para evitar que um coordenador tente prejudicar determinado funcionário, seja por motivos pessoais ou por medo de que o subordinado se destaque demais. 

“Atualmente, todos os coordenadores já estão inseridos na cultura da empresa e não temos esse tipo de problema há muitos anos”, afirma Tuma.

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RECONHECER O ENGAJAMENTO 

Premiar os funcionários mais engajados é uma boa forma para estimular sugestões recorrentes. Mas é necessário ter cuidado. Algumas empresas oferecem prêmios em dinheiro – muitas vezes o valor está atrelado à economia gerada pela sugestão. 

O professor Teixeira é contra essa prática: “Se a empresa paga por uma ideia transmite a mensagem que o funcionário não foi contratado para dar sugestões”. 

A recomendação de Teixeira – a exemplo do que ocorre na Brasilata – é reconhecer os funcionários com recompensas úteis ou oferecer participação nos lucros da empresa – neste caso, para todos os funcionários. 

Mensalmente, a Brasilata reconhece a melhor ideia sugerida em cada fábrica. A grande ideia campeã é escolhida na festa anual da empresa – e seu autor ganha um prêmio no valor de 1,4 mil reais, geralmente um eletrodoméstico. Caso a ideia tenha sido proposta em grupo, o prêmio é dividido. 

Há também um prêmio similar para o funcionário que apresentou maior número de sugestões e para o coordenador à frente da equipe mais engajada. 

Em 2010, ano com recorde de ideias, foram mais de 205 000 sugestões com participação de 100% do quadro de pessoal.