Finanças

Um novo capítulo na guerra das maquininhas


Crediário no cartão representa nova opção de financiamento das compras. Embora possa resultar na redução de custos para lojistas a curto prazo, pode ter impactos negativos na dinâmica da concorrência do mercado de maquininhas


  Por Vitor França  16 de Abril de 2019 às 08:00

  | Economista da Boa Vista SCPC


*Com  Flávio Calife, economista da Boa Vista

Embora tenha sido apresentada basicamente como uma nova opção de financiamento para os consumidores, com benefícios especialmente para os lojistas, pode-se dizer que o recém lançado crediário no cartão de crédito – parcelamento com juros concedido diretamente nas maquininhas – representa, na verdade, um novo capítulo da acirrada guerra das maquininhas de cartão.

Se, até meados de 2010, quando teve fim a exclusividade entre as principais credenciadoras e bandeiras do mercado, Cielo e Rede respondiam por mais de 90% dos volumes transacionados com cartões no país, atualmente a participação dessas empresas –as duas maiores do setor – não chega a 70%.

A Cielo, cujos principais sócios são Bradesco e Banco do Brasil, e a Rede, do Itaú, perderam espaço para a GetNet, do Santander, e para novas empresas como PagSeguro e Stone, fintechs não ligadas aos grandes bancos.

Além da perda de espaço no mercado, o aumento da concorrência resultou em queda das taxas pagas pelos lojistas, redução do aluguel das maquininhas e aumentos das despesas comerciais e de marketing dessas credenciadoras.

Como consequência, a Cielo registrou no ano passado um lucro líquido ajustado 19% inferior ao de 2017, o primeiro recuo nominal da história da empresa. Na Rede, as receitas totais com credenciamento e adquirência caíram 13% no mesmo período.

A retração teve impacto nas receitas de prestação de serviços de seus sócios. No Bradesco, as receitas de serviços de cartões cresceram apenas 3,1% em 2018, abaixo da inflação (3,75%) e da média de crescimento das demais receitas de serviços (6,3%). No Itaú, as receitas de serviços de cartões cresceram apenas 2% em 2018, contra média de 9,1% das demais receitas de serviços.

Tanto no Bradesco como no Itaú, as receitas de cartões representam a principal linha de receitas de prestação de serviços, seguida pelas receitas com tarifas de conta corrente.

O crediário no cartão de crédito, além de corrigir algumas distorções do mercado de cartões de crédito brasileiro, parece ser uma resposta dos grandes players a esse acirramento da concorrência.

Para entender a razão disso, é preciso ter em mente que o mercado brasileiro de cartões possui duas particularidades: o prazo médio de trinta dias para recebimento das vendas no cartão de crédito e o parcelamento sem juros.

O prazo elevado de recebimento, que representa um custo para os lojistas, de certa forma financia o maior prazo para pagamento das compras, um benefício para os consumidores, que só liquidam as transações no pagamento da fatura.

O parcelamento sem juros, por sua vez, substituiu o cheque pré-datado e já está incorporado ao hábito de consumo dos brasileiros. De acordo com dados da Abecs, ele responde por mais da metade dos volumes transacionados com cartões de crédito no país.

Se, por um lado, a modalidade ajuda a alavancar as vendas do comércio, por outro, ela apresenta taxas de desconto mais elevadas para os lojistas, que, além disso, recebem o valor das transações também em parcelas mensais.

O elevado prazo de recebimento das vendas no cartão abriu espaço para o surgimento de operações de crédito via antecipação de recebíveis, em que as empresas do comércio pagam uma taxa de desconto para antecipar o recebimento das vendas no cartão, taxa esta menor do que a taxa de juros média de mercado – ou, ainda, as empresas podem obter crédito nos bancos, utilizando, para isso, os valores a receber como garantia.

Esses custos com as taxas de desconto e de juros muitas vezes são incorporados aos preços dos bens e serviços, de forma que os consumidores que pagam suas compras à vista e sem desconto também acabam arcando com eles –a prática da diferenciação de preços por meio de pagamento, que poderia minimizar esse problema, é pouco usual, especialmente nos grandes estabelecimentos comerciais.

O crediário no cartão de crédito, assim, representa uma oportunidade de redução de custos para os lojistas, que passam a receber o valor das vendas em um prazo menor, já que os custos dos juros do parcelamento, nesse caso, são pagos pelos próprios consumidores.

Os custos menores da modalidade, por sua vez, viabilizam também sua oferta por pequenos negócios, que até então tinham dificuldade para oferecer a opção de parcelamento sem juros para os clientes por causa do prazo alongado de recebimento e das taxas elevadas para antecipar os recebíveis.

Se uma eventual redução dos custos das vendas parceladas sem juros no cartão de crédito for repassada para os preços dos bens e serviços, ganha, com isso, toda a sociedade.

Há, porém, outros impactos a serem considerados.

Nos últimos anos, os lojistas se beneficiaram do acirramento da concorrência no mercado de maquininhas decorrente, em grande medida, do crescimento de fintechs não ligadas a grandes bancos.

A redução dos custos dos pagamentos com cartão e o surgimento de novos modelos de negócio, como a venda das maquininhas, colaborou para o aumento da aceitação de cartões.

De acordo com pesquisa divulgada recentemente pelo Sebrae, por exemplo, saltou de 39% em 2016 para 46% em 2018 a parcela de micro e pequenas empresas que possuíam maquininha de cartão.

Segundo a mesma pesquisa, a PagSeguro já é líder neste segmento, com 35% de participação de mercado em 2018.

De acordo com levantamento da Boanerges & Cia., consultoria especializada em varejo financeiro, as receitas com antecipação de recebíveis representaram, em 2018, 33% das receitas totais da PagSeguro e 51% no caso da Stone –na Cielo, a participação é de pouco mais de 20%, o que sugere menor dependência das grandes credenciadoras desta linha de receitas.

Imaginemos um cenário em que todos os volumes transacionados atualmente na modalidade de parcelamento sem juros migrassem para o crediário no cartão de crédito. Isso resultaria em uma perda significativa de receita para as credenciadoras nas operações de antecipação de recebíveis.

Para os grandes bancos, donos das maiores credenciadoras e também principais emissores de cartão de crédito do país, ao menos parte da perda das receitas da atividade de credenciamento seria compensada pelas novas receitas com juros do crediário do cartão de crédito, pagos pelos consumidores.

Já as credenciadoras menores, não ligadas bancos, veriam sua competitividade reduzida diante da perda de receita de antecipação, o que, a médio prazo, poderia resultar em menor competição e, com isso, taxas de desconto mais elevadas para os lojistas.

Trata-se aqui, porém, apenas de um cenário hipotético. Afinal, é muito cedo para falar no potencial da nova modalidade de crediário, até porque o parcelamento sem juros parece bastante enraizado no hábito de consumo dos brasileiros.

De qualquer forma, parece importante analisar o novo crediário não somente como mais uma opção para os consumidores e lojistas, mas também como um movimento estratégico dos grandes players na guerra das maquininhas, a qual, ao que tudo indica, segue cada vez mais acirrada –como evidencia, por exemplo, o recente movimento da GetNet de reduzir para 2% a taxa cobrada de pessoas físicas e microempreendedores individuais sobre as vendas no débito e no crédito em uma parcela, com o pagamento dos valores aos comerciantes em até dois dias.

FOTO: Divulgação/Santander