Finanças

Segundo o Banco Central, juros do crédito bateram recorde em agosto


A taxa média do rotativo do cartão passou de 400% ao ano. Saldo de crédito ao comércio recuou em agosto


  Por Estadão Conteúdo 23 de Setembro de 2015 às 14:32

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Não é de hoje que a incerteza em relação aos rumos da economia derruba fortemente a confiança de quem quer emprestar dinheiro e também de quem quer tomar o recurso.

O efeito imediato disso aparece no custo do dinheiro - refletido pela taxa de juros. Segundo o Banco Central, algumas linhas de crédito atingiram a maior taxa da série histórica. 

O dinheiro de fácil acesso - que tem limite pré-aprovado - é o que mais encarece nesse cenário.  Em agosto, a taxa média de juros cobrada do consumidor que usa o cheque especial foi de 253,2% ao ano, ou 11,09% ao mês. 

O levantamento do Banco Central mostra que a taxa média do rotativo do cartão de crédito - o pagamento mínimo - bateu recorde: passou de 394,7% ao ano em julho para 403,5% ao ano em agosto. Isso equivale a 14,42% ao mês. 

Mesmo para quem parcela a fatura do cartão, o custo subiu, passando de 120,9% ao ano para 129,8% ao ano, no mesmo intervalo. Ao mês, a taxa ficou em 7,18%. 

Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, apresentou nesta quarta-feira (23/09) uma série de novos recordes de taxas de juros em agosto, que ultrapassaram patamares já altos vistos no mês anterior. 

"Isso é para ilustrar que estamos num nível relativamente elevado de juros e o ciclo de alta da Selic é o principal determinante desse movimento", disse.

Ao comentar sobre o juro do rotativo de cartão de crédito, que passou a marca de 400% ao ano no mês passado, o técnico salientou que essa modalidade de financiamento já possui origem dúbia porque é formado por falta de pagamento do valor principal do cartão. 

"O juro de 400% ao ano sem dúvida reflete, em parte, inadimplência elevada, mas, claro, taxas de juros mais altas contribuem para inadimplência maior", afirmou.

A taxa média de juros no crédito livre subiu de 44,3% ao ano em julho para 45,3% ao ano em agosto. Com essa alta, a taxa volta a ser a maior da série iniciada em março de 2011. 

Desde o início do ano, em todos os meses, a taxa de juros tem sido recorde e batido a do mês anterior.

No ano, até o mês passado, a taxa subiu 8,0 pontos percentuais, já que em dezembro de 2014 estava em 37,3% ao ano. Em 12 meses até agosto, a alta foi de 8,3 pontos percentuais.

Para pessoa física, a taxa de juros no crédito livre passou de 59,8% ao ano em julho para 61,2% ao ano em agosto, também a maior da série histórica. 

Já para o crédito pessoal, a taxa total subiu de 49,9% ao ano em julho para 50,6% ao ano em agosto. No caso de consignado, a taxa ficou estável em 27,8% ao ano de julho para agosto.

O custo médio do financiamento para aquisição de veículos pelo consumidor  passou de 24,5% ao ano para 24,8% ao ano, de um mês para outro.

Além dessas linhas, houve aumento na taxa média do crédito pessoal não consignado. A taxa passou de 117,5% ao ano para 120,9% ao ano, de julho para agosto. 

Quem buscou recursos para aquisição de bens também pagou mais: a taxa subiu de 84,1% ao ano para 86,6% ao ano. 

SALDO MENOR PARA O COMÉRCIO

O encarecimento do crédito para o consumo prejudica sobretudo o comércio, o único segmento que teve recuo no saldo total em agosto. Se para o setor de serviços, o estoque de crédito (concessão nova e já contratado) ficou em R$ 831,1 bilhões - com alta de 0,5% na comparação com julho - para o comércio houve uma queda de 0,4% no período, com um saldo de R$ 296,6 bilhões. 

Segundo o Banco Central, o estoque de crédito aumentou para a indústria (alta de 0,5%) e para o setor agropecuário (0,3%), na comparação entre agosto e julho. 

Além dos três setores, o Banco Central registrou alta de 5,5% em agosto no estoque de crédito para empresa com sede no exterior.

Maciel disse que as modalidades de crédito para empresas associadas a atividade econômica tem mostrado contração. Ele deu como exemplo o crédito rotativo, que caiu 0,8% entre julho e agosto e acumula queda de 1,2% em 12 meses.

As linhas que cresceram foram as associadas ao setor externo. O financiamento para as importações avançaram 3,2% no mês passado e para as exportações a alta foi de 3,5%.  A linha de repasse externo cresceu 7,9% no mês. 

"No caso de linhas para exportação não é só câmbio, as vendas aumentaram, teve aumento de concessões", disse.

O chefe do Departamento Econômico do BC disse que a expansão do crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em agosto se deu exclusivamente pela influência do câmbio. 

No mês passado, a alta do dólar foi de 7,45% e a parte da carteira do banco está atrelada a essa variável. "Não fosse isso, a alta de 0,9% em agosto sobre julho seria negativa em 0,1%", disse.

A oferta de crédito pelo BNDES mostra um crescimento "bem mais modesto" por causa das concessões, que caíram 26% no ano, segundo o técnico. 

"Claro, os juros aumentaram, a TJLP subiu depois de vários anos em 5% e o próprio ciclo de atividade; isso tudo implica em demanda menor por investimento", comentou.

JUROS PARA AS EMPRESAS

Com as vendas em queda, as empresas estão com o caixa apertado e enfrentam a alta dos juros do crédito para o giro da operação. 

Em agosto, o custo médio do capital de giro subiu 1,1 ponto percentual, para 26% ao ano. A taxa média que mais subiu foi a do capital de giro com prazo de pagamento superior a 365 dias - passou de 23,2% ao ano para 24,5% ao ano. 

No entanto, a linha que mais encareceu foi a do cheque especial da empresa. A taxa média passou de 223,5% ao ano em julho para 231,2% ao ano em agosto. Ao mês, a taxa equivalia a 10,49% em agosto. 

O custo médio do rotativo do cartão de crédito da pessoa jurídica passou de 246% ao ano em julho para 250,2% ao ano em agosto, um aumento de 4,2 pontos percentuais. Ao mês, o ato de efetuar o pagamento mínimo da fatura custou em média 11,01%.

O parcelamento da fatura do cartão da empresa também acompanhou o movimento: a taxa média passou de 37,8% ao ano para 40,9% ao ano. 

Os juros médios da conta garantida passaram de 46,5% ao ano para 47,2% ao ano no mesmo período. 

INADIMPLÊNCIA

A taxa de inadimplência no mercado de crédito com recursos livres ficou estável em agosto em 4,8% ante julho, segundo o Banco Central. 

Para pessoa física, foi registrado o único aumento nessa comparação, passando de 5,4% para 5,5%. Para as empresas, permaneceu em 4,1% de um mês para o outro. 

Desde o início do ano, verifica-se uma certa estabilidade no volume de calote ao sistema financeiro.

Na aquisição de veículos para pessoas físicas, foi mantida de julho para agosto em 3,9%. Esta taxa está inalterada desde dezembro do ano passado. No cartão de crédito, avançou de 7,5% para 7,6% na mesma comparação.

IMAGEM: Thinkstock