Finanças

Reduzir o spread bancário é um dos focos das reformas econômicas


Para Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, a solução é reduzir gradualmente o custo do crédito


  Por Estadão Conteúdo 07 de Fevereiro de 2017 às 14:29

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O governo não vai adotar medidas "voluntaristas" para a redução do spread bancário (diferença entre a taxa de captação dos bancos e o juro praticado aos clientes) porque esse tipo de iniciativa gera queda inicial do custo do crédito, mas resulta em elevação posterior. 

A explicação foi dada nesta terça-feira (07/02) pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, durante seminário sobre o spread bancário.

Goldfajn participou do "Painel Projeto Spread Bancário", promovido pelo Banco Central, em Brasília. 

Além de Ilan, participam do evento o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e os ex-presidentes do BC Armínio Fraga e Gustavo Loyola.

"Estamos procurando a redução estrutural e sustentável do custo de crédito. Essas duas palavras não são escolhidas coincidentemente”, afirmou Goldfajn. “É estrutural para que sejam medidas que, de fato, levem à queda do custo do crédito e sustentável porque não queremos mais experimentos voluntaristas que levam à queda e depois a gente sabe volta."

O presidente do BC notou que a agenda de redução dos spreads bancários faz parte do conjunto de reformas econômicas executada pelo governo federal. 

"São reformas que têm como objetivo melhorar o ambiente de negócios”, disse o presidente do BC. “Isso (o spread) se insere nisso: vai aumentar a eficiência e a produtividade da economia. E vai permitir que a economia cresça com produtividade.”

Goldfajn nota que, com mais eficiência na economia, o custo de crédito cairá estruturalmente.

"Com a eficiência, a taxa estrutural da economia também poderá ser menor no médio e longo prazo."

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MEDIDAS 

A apresentação de Ilan Goldfajn sobre a evolução dos spreads bancários tem a segurança das operações de crédito como um das principais mensagens. 

Goldfajn defende medidas para que as operações sejam consideradas mais seguras contra o calote para os bancos.

Quando há garantias - como no financiamento imobiliário e consignado -, os juros são menores e houve grande crescimento nos últimos anos, disse.

"Na pessoa física, há dois componentes (do mercado de crédito) que cresceram muito ao longo dos últimos anos. A primeira é o crédito habitacional e a segunda é consignado. Quando você tem certa segurança no empréstimo, (a operação) cresce. Não tem nada de muito complexo", afirmou Goldfajn.

O presidente do BC destacou diversas vezes na apresentação que o crescimento das hipotecas e do empréstimo com desconto em folha é explicada especialmente porque essas operações fornecem garantias aos bancos que concedem o crédito. 

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MÉDIA DOS CINCO ANOS 

O presidente do Banco Central apresentou uma série de dados sobre o spread bancário no país, tendo como foco os últimos cinco anos (2011 a 2016). 

De acordo com ele, o spread médio nas operações de crédito brasileiras nos últimos cinco anos foi de 16,9 pontos porcentuais. Este valor leva em conta o crédito com recursos livres e direcionados (BNDES e poupança).

Goldfajn apresentou ainda números que mostram a decomposição do spread no Brasil: 53,5% são justificados pela inadimplência; 5,1% pelo custo administrativo; 23,8% por lucros e outros; 15,8% por impostos diretos; e 1,8% por compulsórios, encargos fiscais e Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

"Estamos preocupados não é exatamente com o número ou com a vírgula, mas na direção do spread", afirmou Ilan Goldfajn ao apresentar os dados. 

Ele destacou a queda do spread verificada de 2012 a 2014, mas ponderou que o movimento não foi sustentável. 

"Depois o spread subiu com a crise, e para cima do patamar em que estava. Queremos que o spread tenha queda estrutural e sustentável no longo prazo", afirmou.

O presidente do BC chamou atenção ainda para o fato de o spread ter um valor maior em operações com segurança menor. "No consignado, que tem segurança maior, há diferença no spread (o spread é menor)", disse. 

Ele destacou ainda que, no Brasil, metade do crédito para empresas vem hoje do BNDES e outra metade está ligada a operações com recursos livres. 

No caso de pessoas físicas, metade do crédito está ligado à habitação (operações direcionadas com recursos da poupança) e outra metade a recursos livres. 

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CRÉDITO LIVRE 

O presidente do Banco Central defendeu que uma maior parcela do crédito livre permite maior potência da política monetária no Brasil.

De acordo com o ministro, resultados preliminares de estudos indicam que o custo dos direcionamentos de crédito representa parcela importante do custo atual do crédito livre. 

“Trabalhamos com o Banco Mundial nestes exercícios", afirmou. "Vamos reavaliar subsídios do crédito direcionado."

Segundo ele, uma maior parcela do crédito livre permitirá que o efeito dos juros (Selic) seja potencializado. Quanto maior o crédito direcionado, menos impacto a Selic tem.

Ele citou ainda medidas que estão em andamento, como o incentivo à adimplência e a garantias. Neste ponto, ele citou especificamente a inclusão de duplicatas numa central de registros - uma medida anunciada no ano passado pelo governo, dentro do pacote de medidas microeconômicas para impulsionar a economia.

Goldfajn citou ainda medida, oficializada em janeiro, de segmentação das instituições que fazem parte do Sistema Financeiro Nacional (SFN). 

"Segmentos menores terão complexidades menores, o que reduz os custos administrativos", afirmou, sobre os efeitos da nova dinâmica de enquadramento de bancos e demais instituições financeiras.

O presidente do BC lembrou ainda de medida recente da instituição, que alterou regras e simplificou o recolhimento dos compulsórios de bancos. 

"No momento, somente simplificamos. Mas quando der espaço, vamos mexer neles", afirmou Goldfajn.

Outro fator citado pelo presidente do BC é o aprimoramento da contratação de crédito por meio eletrônico.
 
“A questão do cartão de crédito - limitamos o rotativo, acabamos com a exclusividade”, disse. “Maquininhas agora recebem todas as bandeiras."

Ilan afirmou ainda que o BC passará a acompanhar um indicador específico do spread. "Vamos escolher um indicador mensal 'símbolo' do spread."

IMAGEM: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo