Finanças

Recessão bate no crédito, que seca para empresas e consumidores


A queda nos financiamentos para o setor de serviços e agropecuária foi de 1% cada. O comércio teve a maior redução, de 1,7% em fevereiro


  Por Estadão Conteúdo 29 de Março de 2016 às 15:15

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A recessão combinada com a incerteza política e econômica do país estão afetando de maneira mais clara a tomada de recursos por famílias e empresas, que evitam comprometer a renda futura com dívidas. 

Isso já fez o Banco Central alterar a estimativa de crescimento do crédito de 7% (formulada em dezembro) para 5% em 2016.

No mês passado, de forma considerada "anormal" pelo Banco Central, houve uma interrupção do crescimento do estoque de crédito (indicador que mostra o volume total de financiamentos ativos, novos e antigos) de consumidores e empresas. 

De janeiro para o mês passado a queda no estoque foi de 0,5%. As outras vezes em que houve uma baixa nesse mês, de acordo com Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central, foi em fevereiro de 2009 e de 2000. 

Ele lembrou que a tendência de queda é comum em janeiro, mas que, no segundo mês do ano, geralmente já há retomada.

"Com a atividade mais fraca no início do ano, isso é comum, mas foi visto principalmente no crédito livre [com recursos captados no mercado pelos bancos], que tem mais influência do ciclo de atividade", afirmou.

Ele avaliou que o principal fator desse comportamento, tem sido a retração do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país). 

Maciel disse que a sazonalidade do início de ano foi "bem presente" e refletiu de maneira mais intensa sobre as empresas. 

"O financiamento voltado para as empresas foi o que apresentou mais sazonalidade. Houve queda de 1,1% na margem em fevereiro ante alta de 0,4% verificada em igual mês do ano passado", comparou.

Ele disse que a queda do estoque de crédito direcionado (com taxas menores e subsidiadas pelo governo) para as empresas em fevereiro foi atípica. 

Neste caso, houve um recuo de 0,3% em fevereiro ante alta de 0,8% na margem em igual mês de 2015. 

"Aqui, tivemos um movimento menos usual", disse. No segmento de crédito, destacou, o carro chefe costumam ser as linhas com recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

EMPRESAS

Os financiamentos do BNDES para empresas recuaram 1,0% de janeiro para fevereiro, somando um total de R$ 626,748 bilhões. 

Em 12 meses, ainda há uma expansão de 4,6%. Em fevereiro, houve queda de 2,7% nas linhas de capital de giro (R$ 13,931 bilhões), queda de 1,0% no financiamento ao investimento (R$ 599,602 bilhões) e uma alta de 1,3% nas modalidades para o setor rural (R$ 13,215 bilhões) por parte do banco de desenvolvimento.

Ao observar o estoque de crédito total (não só do BNDES, mas de outros bancos), houve uma variação negativa de janeiro para fevereiro para empresas de todos os três setores de atividade: agropecuária, indústria e serviços. 

O crédito total recuou 0,9%, para R$ 1,668 trilhões. A agropecuária recuou 1,0%, a indústria 0,7% e os serviços 1,0%. No crédito para pessoa jurídica com sede no exterior e créditos não classificados o recuo foi de 1,8%.

O crédito para o setor de serviços ficou em R$ 786,651 bilhões em fevereiro. Dentro desse setor, o comércio teve recuo de 1,7% (R$ 291,073 bilhões) no mês passado. 

Em transporte, também caiu 0,8%, para R$ 167,890 bilhões. Na administração pública, houve alta de 0,8% para R$ 124,381 bilhões. A categoria "outros" caiu 1,8% para R$ 41,874 bilhões.

Para a indústria, o crédito recuou para R$ 815,123 bilhões. Na construção, houve baixa de 0,7% no mês passado, para R$ 110,537 bilhões. 

A indústria de transformação caiu 1,3% para R$ 457,771 bilhões. Já os serviços industriais de utilidade pública (SIUP) registraram aumento do crédito de 0,3% no mês passado, para R$ 200,657 bilhões. 

No caso da extrativa, houve uma alta de 0,2% em fevereiro, para R$ 46,159 bilhões. Para o setor agropecuário, o crédito minguou em fevereiro ante janeiro, para R$ 24,681 bilhões.

FAMÍLIAS

Os financiamentos para os consumidores também desaceleraram, principalmente para a compra de imóvel. "Após um crescimento expressivo, é natural que tenha taxas de expansão menores, mas é claro que teve elevação de taxa de juros no financiamento imobiliário", disse Maciel.

No crédito com taxas subsidiadas pelo governo para financiar imóveis também houve desaceleração em fevereiro. Embora tenha crescido 0,5% no mês passado, em igual mês do ano passado tinha tido alta de 1%. 

Maciel lembrou que, em anos anteriores, houve altas muito mais fortes, como o pico de 55% em 2010. A partir daí, a taxa de expansão foi se desacelerando. 

As concessões de crédito do BNDES para pessoas físicas caíram 21,7% em fevereiro na comparação com janeiro, chegando a 4,614 bilhões. No bimestre, a queda é de 33,3% e em 12 meses, de 23,8%.

"As taxas de juros BNDES aumentaram consideravelmente desde 2013", disse o chefe do Departamento Econômico do BC.

ENDIVIDAMENTO

O endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro passou de 45,2% em novembro para 44,3% em dezembro e para 44,6% em janeiro, conforme o Banco Central. 

O cálculo do BC leva em conta o total das dívidas dividido pela renda no período de 12 meses e incorpora os dados da Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD) contínua e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), ambas do IBGE. 

Se forem descontadas as dívidas imobiliárias, o endividamento apresentou uma baixa em dezembro, ficando em 25,6% da renda anual. Em novembro, estava em 26,3%. Em janeiro, no entanto, apresentou uma leve elevação para 25,8%.

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