Finanças

Quem quer um empréstimo?


A Nexoos conecta pequenas e médias empresas que necessitam de recursos a potenciais investidores. Em 2018, a fintech projeta movimentar R$ 200 milhões em crédito


  Por Italo Rufino 15 de Janeiro de 2018 às 08:00

  | Repórter isrufino@dcomercio.com.br


Em setembro passado, o empreendedor paulista Dimas Tadeu Beato recebeu uma proposta interessante. Há pouco mais de um ano, ele é dono de uma franquia da Moncloa Tea Boutique, rede que vende chá e utensílios, como bule e copos, no Shopping Iguatemi de Campinas.

Com as vendas indo bem, Dimas foi convidado pela administradora do shopping para abrir uma nova unidade, dessa vez no Iguatemi de São Paulo.

A franqueadora também topou a ideia. Dimas teria 60 dias para contratar fornecedores e implantar um quiosque. No entanto, faltava dinheiro – e a burocracia dos bancos tradicionais na concessão de empréstimos poderia inviabilizar o projeto.

A salvação se deu quando Dimas conheceu a Nexoos, fintech que conecta pequenas e médias empresas que necessitam de empréstimos a potenciais investidores.

Em poucos dias, o empreendedor conseguiu um empréstimo de R$ 100 mil, com taxa de 1,8% ao mês, com pagamento em 24 parcelas.

Em dois meses de funcionamento, o quiosque faturou R$ 220 mil. Em 2018, a expectativa é crescer 12% e atingir receitas de 1,2 milhão (considerando a loja e o quiosque).

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DIMAS BEATO, DA MONCLOA: EMPRÉSTIMOS EM
GRANDES BANCOS É MUITO BUROCRÁTICO

Fundada no final de 2014, a Nexoos é uma startup de serviços financeiros especializada em empréstimos coletivos (peer-to-peer lending).

A fintech já financiou mais de 28 milhões em operações de crédito e possui uma carteira de cerca de 200 empresas financiadas e 8 mil investidores.

INOVAÇÃO DIGITAL

Um banco tradicional utiliza os recursos que pessoas e empresas investem em poupança, CDB e outras modalidades, para realizar empréstimos aos seus clientes.

No entanto, os juros pagos para quem investe é bem menor do que o cobrado para quem toma o empréstimo –essa diferença é o chamado spread bancário.

De acordo com Banco Mundial, o Brasil possui o segundo maior spread bancário do mundo –em média, de 21,6 pontos percentuais sobre o dinheiro emprestado. Uma das justificativas para a desproporcionalidade é a inadimplência.

De acordo com o Banco Central, a taxa de juros média para uma pequena empresa é de 44,6% ao ano. Para uma média, de 35,7%.

As fintechs vão contra essa corrente. Por ser mais enxutas e ágeis, as startups desburocratizam e barateiam o serviço. A Nexoos, por exemplo, cobra juros de 1,4% a 2,6% ao mês (18% a 36% ao ano, que é repassado ao credor).

Funciona assim: Para ter acesso a crédito, o empresário se cadastra no site da Nexoos, informa o valor de que necessita, o prazo de pagamento e o motivo do empréstimo. Posteriormente, a Nexoos faz uma avalição da empresa.

Diferentemente do padrão de grandes bancos, que avaliam principalmente o histórico e inadimplência, a startup, além de consultar birôs de crédito, faz uma varredura em uma dezena de fontes.

São examinadas informações públicas em órgãos oficias, como tribunais de justiça, índice de reclamações em organizações de defesa do consumidor e elementos de gestão de marca, como o posicionamento da empresa no mercado. Devido às regras de compliance, também são analisados o contrato social e extratos bancários.

“É uma análise qualitativa e humanizada”, afirma Daniel Gomes, CEO da Nexoos.

DANIEL GOMES, DA NEXOOS: VAREJO DEVE
MANTER CRESCIMENTO EM 2018

Caso a empresa seja elegível para receber empréstimo, é feito um anúncio que é disparado na plataforma virtual da startup. É aí que entra outra sacada. A Nexoos funciona como um marketplace de empresas que demandam crédito.

Pessoas físicas acessam a plataforma e se tornam credores, que avaliam as oportunidades que cabem no seu bolso e possuem sinergia com seus interesses. Cada investidor pode emprestar até 5% do valor solicitado – cada empréstimo reúne entre 20 e 50 credores, que aplicam em conjunto.

Em novembro, em dez minutos, a Nexoos conseguiu captar R$ 1 milhão, valor alocado em dez empresas.

O modelo pode criar um senso de coletividade entre credores e empresas.

“Quem empresta o dinheiro pode ser um cliente do negócio”, afirma Gomes. “Isso faz com que os recursos circulem na comunidade dos pequenos negócios.”

Firmado o acordo entre as partes, é feito uma assinatura de contrato digital e o empresário recebe o dinheiro em sua conta. Mensalmente, o credor recebe o retorno. Hoje, a taxa de inadimplência se mantém estável, abaixo de 4%. 

Por sua vez, a Nexoos gera receita ao cobrar do empresário uma taxa de cerca de 1% sobre o valor do empréstimo – taxa que já vem embutida nos juros mensal pago pelo tomador de dinheiro.

EXPECTATIVAS PARA 2018

Neste mês, a Nexoos já tem sentido alta na demanda por crédito entre as pequenas e médias empresas. A startup atende negócios que faturavam entre R$ 200 mil e R$ 30 milhões, com grande parte dos clientes com receitas anuais na casa dos R$ 2 milhões. Cerca de 40% dos clientes são estabelecimentos comerciais.

“Em janeiro, o comércio varejista costuma ter muitas contas a pagar, como reposição de estoque e folha de pagamento com trabalhadores temporários”, afirma Gomes. “isso puxa a demanda por empréstimo de capital de giro”

Após quedas bruscas em 2015 (-8%) e 2016 (-8,7), o varejo da capital paulista teve alta de 1,1% em 2017. E o que motiva Gomes é que ainda há muito campo para crescer, uma vez que as vendas ainda estão longe do patamar pré-crise.

“Estamos otimistas”, afirma ele. “Em 2018, esperamos financiar 200 milhões, seis vezes mais que o valor movimentado no ano passado.”

IMAGEM: Thinkstock