Finanças

Queda do investimento privado liderou o processo de recessão


Estudos de Carlos Antônio Rocca (foto) mostram que as empresas passaram a captar menos recursos. Com rebaixamentos de rating, pioram as condições para obter dinheiro no exterior


  Por Rejane Tamoto 18 de Fevereiro de 2016 às 16:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Um novo rebaixamento da nota do Brasil pela Standard & Poor's (S&P) deve acentuar as dificuldades de captação das empresas fechadas brasileiras não financeiras no mercado internacional. Excluído o efeito da alta do dólar, o exigível financeiro (dívida) total dessas companhias teve uma variação de 4,8% em dezembro de 2015, ante a um crescimento de dois dígitos no fim de 2014.

Os dados, levantados pelo CEMEC (Centro de Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais - IBMEC), mostram que a desaceleração das fontes de financiamento das empresas não ocorreu só no exterior, mas também no Brasil. Esse movimento também foi acompanhado por uma queda expressiva no investimento - que liderou o processo de recessão iniciado há quase dois anos. 

"O que predomina entre as empresas é a amortização da dívida. Esse volume menor não mostra apenas que elas estão buscando menos recursos fora do país. Houve um aumento no risco-país, com todas as empresas brasileiras perdendo posições em rating. Depois que o Brasil perdeu o grau de investimento, começou a haver uma restrição do lado da oferta", afirma Carlos Antônio Rocca, diretor do CEMEC. 

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Segundo o diretor, a proporção de investidores e bancos estrangeiros dispostos a comprar papéis de dívidas de empresas brasileiras é menor e eles exigem um retorno maior.

No entanto, se desconsiderarmos a valorização do dólar, o ritmo de crescimento da dívida das empresas em moeda estrangeira era maior - de 15% em junho de 2014.

A partir desse período, a captação de recursos no exterior entrou em uma trajetória descendente. Foi um período que coincide com o segundo trimestre de 2014, quando o Brasil entrou em recessão econômica, segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) da Fundação Getúlio Vargas (FGV). 

Por outro lado, se não houve crescimento expressivo na captação de recursos do exterior, ocorreu uma elevação do tamanho da dívida em moeda estrangeira por causa da valorização do dólar - que foi de 48,62% no ano passado.

Se considerada essa valorização, a dívida total das empresas de capital fechado e não financeiras teve um crescimento de 49,3% em 2015 - atingindo R$ 1,3 trilhão. A maior parte desse valor, ou 63,8%, equivale a empréstimos intercompanhias, quando a matriz estrangeira empresta para a brasileira. 

"A exposição é maior, mas há muitas empresas que têm uma proteção natural, ao ter dívida e receita em dólar, que é o caso das exportadoras. Há também as que fazem a proteção por derivativos no mercado financeiro. Mas boa parte desse custo é pago pelo Banco Central, com as operações de swap cambial (contratos de vendas de dólares no mercado futuro), que somaram em torno de R$ 100 bilhões", diz Rocca.

TAMANHO DA DÍVIDA ACELERA EM PROPORÇÃO AO PIB

O montante da dívida em moeda estrangeira atingiu em dezembro um valor correspondente a 35,1% do Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas do país). Houve um salto, considerando que em dezembro de 2014, quando a recessão já havia começado, essa participação era menor em 10 pontos percentuais: de 25,4%.

O passivo total das empresas, em moeda estrangeira e em reais, em bancos e no mercado de capitais era de 73,6% do PIB em dezembro - em boa parte pelo efeito do dólar. No fim de 2014, era de 64,2% do PIB.

Não apenas a captação no exterior cresceu menos no ano passado - se desconsiderada a valorização da moeda norte-americana. 

O estudo mostra que os recursos do mercado doméstico também arrefeceram para as empresas. A soma do crédito de bancos públicos e privados, com subsídios ou não, e ainda dos títulos emitidos no mercado de capitais (debêntures, notas promissórias entre outros) teve um crescimento de 6,4% no ano passado - bem abaixo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que subiu 10,67%.

Esse total foi de R$ 2,3 trilhões em dezembro de 2015, ou 38,5% do PIB. Em termos de participação, houve estabilidade, já quem em dezembro de 2014, era de 39% do PIB. 

Na composição total da dívida, é possível observar uma redução na participação das fontes de financiamento das empresas no país. Em dezembro, da dívida total feita no Brasil, 19,9% correspondia ao crédito com recursos de bancos. Em dezembro de 2014, essa parcela era maior, de 23,1%. 

O crédito do BNDES também diminuiu a participação de 16,8% do total dos recursos captados por empresas em 2014 para 14,5% em dezembro de 2015. O mesmo ocorreu com o crédito direcionado (de 5,4% para 4,7%) e com os títulos de dívida (de 10,7% para 9,5%), bem como com as debêntures estruturadas para os bancos (que não são adquiridas por investidores), que passou de 4,5% para 3,7% do total da dívida. 

"Houve uma convergência para baixo de todas as fontes domésticas de financiamento a partir de 2013. O movimento se acentuou a partir de 2014 e em 2015. Há o fator de oferta e demanda que explica isso, mas também a queda do investimento", diz Rocca. 

QUEDA DO INVESTIMENTO LIDEROU RECESSÃO

Para o diretor do CEMEC, o ciclo de recessão não começou com os bancos negando crédito e sim com a perda da condição das empresas de investir - seja porque tiveram a rentabilidade afetada por causa da intervenção do governo em alguns setores, seja pela queda da renda e da demanda e o aumento de custos.

Tudo isso convergiu para uma redução tanto do investimento quanto da captação de recursos no mercado. 

 

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"Do lado da oferta de crédito, à medida que o risco começou a aumentar, os bancos começaram a restringir o crédito. Se observarmos setores, os mais afetados foram os da construção civil e o elétrico. Este acumulou um prejuízo dramático por causa da mudança nas políticas de renovação dos contratos de concessão. A queda da indústria automobilística carrega o setor de autopeças e a siderurgia. Houve um processo recessivo, que não está claro quando termina", afirma. 

Um outro estudo de Rocca mostra que a forte desaceleração do investimento começou em 2014, quando a recessão teve início. Nos primeiros dois trimestres daquele ano a taxa de investimentos crescia 6% e começou a cair até atingir uma queda superior a 7% no primeiro trimestre de 2015. 

Esse processo, segundo Rocca, foi liderado justamente pela queda do investimento de empresas não financeiras, que foi de uma redução de 1,8% em proporção ao PIB no período de 2010 a 2014. Foi a maior queda na comparação com a redução de investimentos da administração pública de 0,2% e o leve crescimento no de empresas financeiras e famílias de 0,2%.

Neste período, o investimento total caiu 1,7%. O levantamento considerou os balanços de 320 empresas de capital aberto e 400 maiores empresas de capital fechado, que representam 25% do PIB. 

QUEM FOI MAIS AFETADO PELO CORTE

Outra empresa afetada fortemente no período por decisões de políticas públicas foi a Petrobras, que teve os preços contidos como instrumento de política anti-inflacionária e, desta forma, acabou afetando a indústria do etanol.

Ao incluir essas grandes empresas, o estudo mostra uma queda de 50% em relação ao PIB dos investimentos no país, que passaram de uma taxa de 8,59% do PIB em 2010 para 4,38% do PIB em 2014.

Sem considerar as empresas afetadas por políticas públicas, como Petrobras e Eletrobras, além de Vale, a taxa de investimento também caiu: de 4,60% do PIB em 2012 para 2,79% do PIB em 2014. A indústria de transformação também foi fortemente afetada entre 2010 e 2014, quando a taxa de investimento em proporção ao PIB passou de 2,49% para 1,23%. 
 
O que mais fez as empresas decidirem parar de investir, segundo Rocca, foi a queda da rentabilidade, associada à fraca atividade econômica e menor demanda e ao aumento de custos. Junto a isso, a expectativa negativa para o crescimento do PIB em três anos.

O lucro das empresas encolheu 2,8% entre 2010 e 2014. Se consideradas as afetadas por políticas públicas, esse percentual foi de queda de 24%. 

Nesse período, o retorno sobre o investimento caiu de 13,7% ao ano para 6,9% ao ano. O custo médio ponderado do capital evoluiu 14% para 15,9% de 2010 a 2014.

"Essa é a história verdadeira da recessão. Fizemos uma análise estatística que mostrou que essas variáveis, a relação entre a taxa de retorno do capital investido com o custo médio ponderado de capital, e mais a expectativa para o PIB calculada pelo boletim Focus são responsáveis por 72% da decisão de investimento das empresas brasileiras", diz. 

Rocca explica que o peso desses fatores é mais forte na decisão de investir do que a confiança - que é medida de forma mais subjetiva. Para ele, a proposta do governo de estimular o crédito não é uma solução para a falta de investimento e sim uma tentativa de resolver o problema em curtíssimo prazo, aumentando a conta de subsídios - leia-se aqui, gastos públicos. 

Para ele, o caminho de saída da recessão passa por posicionamento a favor do investimento privado, sem intervencionismo e com maior espaço de atuação do mercado. "Quando há muitos riscos regulatórios, o custo de capital do investimento acaba sendo alto. E isso vai levando a uma situação cada vez mais difícil, na qual se tenta compensar com dinheiro do BNDES. Não há mais de onde tirar, pois esse modelo esgotou", avalia. 

O diretor diz que, principalmente, é preciso que o governo faça um ajuste fiscal básico que seja capaz de mudar as expectativas para o PIB.

"É preciso sair da situação de endividamento público crescente e sem expectativa de reversão. Se o ajuste for encaminhado, abrirá espaço para a queda da taxa de juros e do custo de capital para empresas. Isso ajuda a confiança a voltar progressivamente. Para isso, é preciso um arranjo institucional na área de infraestrutura, com agências reguladoras independentes, profissionais de altíssimo nível, com mandatos e responsabilidades, e que não sejam objeto de negociação política", conclui. 

FOTO: Thinkstock