Finanças

Procura do consumidor por crédito recua 2,8% em janeiro


Queda na confiança e restrição na concessão contribuíram para esse quadro, segundo a Boa Vista SCPC. Também cresce o percentual de cheques devolvidos, de acordo com a Serasa


  Por Karina Lignelli 22 de Fevereiro de 2016 às 17:09

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


A procura do consumidor por crédito vem diminuindo: dados da Boa Vista SCPC divulgados nessa segunda-feira (22/02) mostram que o indicador caiu 2,8% em janeiro.

Na comparação com igual período de 2015, a queda foi maior, de 9,4%. Mas, assim como em dezembro, a variação acumulada em 12 meses foi de uma redução de 6,7%.  

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Na divisão por segmentos - o de crédito de bancos e de lojas - houve um recuo de 13,5% na busca por crédito de instituições financeiras em janeiro. Já no segmento não financeiro, o resultado ficou positivo em 3,5%.  

Yan Cattani, economista da Boa Vista SCPC, diz que o indicador acumula resultados negativos pelo segundo ano consecutivo. Segundo ele, se o consumidor se habituou ao uso mais frequente do crédito na década passada, agora ele ficou mais “esperto” - depois de passar por algumas crises de inadimplência.

“O maior rigor na oferta de crédito e a alta dos juros também impactaram essa demanda: sabendo que não terá acesso tão fácil, o consumidor acaba nem tentando”, afirma.  

Outro fator que influencia para uma cautela na hora de recorrer ao crédito ou fazer compras parceladas é a falta de “sobras” no salário e a insegurança no emprego. Pelo menos, esses foram os motivos apontados por 54% dos entrevistados da mais recente pesquisa de confiança da ACSP com o Instituto Ipsos, de acordo com Emílio Alfieri, economista da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

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“Se por um lado essa cautela desacelera as vendas, por outro impede um grande estouro de inadimplência – o que seria muito pior no atual cenário”, diz Alfieri, lembrando que isso levou à quebra de grandes redes de varejo brasileiras em 1999.

Situação semelhante ocorreu com o indicador de inadimplência após a crise mundial causada pela quebra do banco Lehmann-Brothers, em 2008.

Agora, segundo ele, mesmo que a recessão dure até 2017, as duas pontas (quem empresta e quem concede) estão cautelosas. “Hoje, além de termos por aqui redes internacionais com mais fôlego e fazendo ajustes para resistir à crise, o mercado está mais preparado para analisar o risco de crédito”, completa.

BATE E VOLTA

Outro levantamento, da Serasa Experian, mostra que o percentual de cheques devolvidos pela segunda vez foi o maior em janeiro desde 1991. A taxa de cheques sem fundo sobre os compensados foi de 2,41%. Com isso, o total de devoluções foi de 1,128 milhão. Em janeiro de 2015, o indicador ficou em 2,06%.

De acordo com Alfieri, da ACSP, a inadimplência histórica do cheque é de 2% - algo que não preocupa, já que o uso desse meio de pagamento hoje corresponde a algo em torno de 10% a 15% do mercado financeiro, ante 30% e 40% de outros, como os cartões.

Segundo ele, dados do Banco Central mostram que a inadimplência é maior no crédito consignado, que subiu de 3,7% para 4,2% na comparação entre dezembro de 2014 e dezembro de 2015. A taxa de crédito pessoal ao consumidor também aumentou de 5,3% para 6,1% no período.

“Isso significa que a inadimplência só começou a subir depois de um ano de recessão, mas ainda não quebrou nenhum recorde. O problema é que não se sabe até quando a crise vai continuar”, afirma.

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Para Cattani, da Boa Vista SCPC, isso mostra que o sinal amarelo da inadimplência já acendeu, já que a alta medida por ela em 2015 ficou em 6,1%, ante 4,3% de 2014, e a projeção para 2016 é que o indicador bata nos 6,7%.

Segundo ele, a Boa Vista tem registrado elevação nos níveis de cheques devolvidos, além de aumento no fluxo de inadimplentes. Ou seja, há menos gente saindo do cadastro de devedores, deixando de ser negativada - um dado preocupante no atual cenário.

“O consumidor está com a confiança abalada, e as empresas não encontram linhas de crédito para financiar o seu caixa ou investir. Tudo contribui para que essa crise de confiança não passe neste ano”, diz. Expectativa para retomada e a melhora de todo o resto? Só em 2017”, diz.   

Imagem: Thinkstock