Finanças

Orçamento apertado deve levar ao aumento da inadimplência


Enquanto os calotes crescem, economistas da Boa Vista SCPC estimam que o crédito deverá continuar em desaceleração neste ano. O cenário é pior para as empresas


  Por Rejane Tamoto 16 de Fevereiro de 2016 às 20:29

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Se antes o aumento da inadimplênciacaminhava junto com a fartura de crédito no mercado, o cenário hoje é oposto. Enquanto o índice de calotes cresceu, a concessão de empréstimos - seja para pessoa física ou para empresas - caiu em termos reais no ano passado.

"O crescimento da inadimplência deve continuar, e com redução do crédito. É algo novo, que não se via antes", afirmou Flavio Calife, economista da Boa Vista SCPC.

Segundo ele, a inadimplência deve continuar subindo - acompanhada do aumento do desemprego e da diminuição de renda - fatores que consequentemente deixam os orçamentos das famílias em uma difícil equação. A previsão da Boa Vista SCPC é que a taxa de inadimplência do Banco Central neste ano atinja 6,8% para os consumidores - ante ao aumento de 6,1% verificado em 2015. 

Ao mesmo tempo em que a estimativa é de aumento da taxa de inadimplência, para o crédito é de contínua desaceleração, com crescimento nominal estimado em 3,5% neste ano. 

No ano passado, segundo dados do Banco Central, o saldo de crédito total cresceu 6,6% em termos nominais. Se descontada a inflação do período medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 10,67% é possível observar que o crédito contraiu 3,68% em termos reais. 

As linhas que mantiveram o ritmo de crescimento menos afetado foram as consideradas mais blindadas contra a inadimplência, por oferecerem garantias reais: o crédito imobiliário e o consignado, que responderam por 51,2% da carteira de empréstimos ao consumidor.

ALEXANDRE NÃO CONSEGUIU ARCAR COM AUMENTO DO ALUGUEL E IMPOSTO DO CARRO. FOTO: ITALO RUFINO/DC

Ouvir um "não" do gerente do banco foi bastante comum no ano passado. O analista administrativo Alexandre de Oliveira Alves, de 31 anos, passou por uma situação como essa. Tentou obter um empréstimo para pagar uma dívida de IPVA (Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores), que era de R$ 1,8 mil no ano passado e não conseguiu, pois estava negativado. 

"Permaneci inadimplente durante um ano e só consegui pagar a dívida com desconto de R$ 600 depois de economizar nesse período. Deixei de viajar e de ir com os amigos para a balada", explica.

As dificuldades começaram no ano passado, quando o orçamento ficou apertado por causa do peso da inflação e dos custos. Apesar de estar empregado naquela época, e ainda hoje, Alves disse que não conseguiu manter as contas em dia por causa do aumento do aluguel da casa onde mora, em Arthur Alvim, na zona leste da capital. 

Quem passa por esse tipo de experiência fica mais cauteloso depois e deixa de buscar empréstimos - justamente para não ficar inadimplente novamente. Um indicador da Boa Vista SCPC mostra que os pedidos por crédito de consumidores recuaram 6,7% no ano passado. 

A projeção é que neste ano haja uma nova queda de 1,5% na demanda por crédito. Além do crédito difícil e de alto custo, o orçamento das famílias está sendo pressionado pela inflação elevada e juros altos. 

"Para 2016, a expectativa ainda é de inflação alta. Esperamos que a taxa básica de juros Selic fique estável. Pode até recuar. Se isso ocorrer, não esperamos redução dos juros para consumidores e empresas. Os spreads (a diferença entre o custo de captação do banco e o cobrado do tomador de crédito) não vão diminuir porque o risco de inadimplência aumentou", avalia o economista. 

Dados da Boa Vista SCPC mostram que situações como a de Alves são cada vez mais comuns, com o consumidor demorando mais tempo para quitar débitos. Enquanto o registro de novos inadimplentes da empresa cresceu 1,2% em setembro, o de recuperação de crédito (que mede quem quitou os débitos) caiu 1,5%. 

Esses dois indicadores mostram que o consumidor tem mais dificuldade para pagar as dívidas antigas. Assim, há um número menor de "novos" inadimplentes e outro maior de pessoas que não conseguem sair dessa situação. Esses dados são referentes ao mês de setembro por causa da lei do AR (Aviso de Recebimento), que distorceu a base de cálculo dos registros de inadimplentes. 

CENÁRIO É PIOR PARA EMPRESAS

Para as empresas, a projeção é que o índice de calotes do Banco Central aumente 5% em 2016. No ano passado, essa taxa ficou em 4,5%, já que as empresas tiveram de enfrentar um forte aumento de custos gerados pela inflação junto com a perda de receita provocada pela queda do consumo. 

Esses fatores exerceram uma pressão sobre o caixa, que não teve respaldo do crédito bancário. "A seletividade dos bancos, por causa do risco de aumento da inadimplência, é um movimento que já havia começado em 2012, se intensificou em 2015 e deve continuar neste ano", diz Calife.

Yan Nonato Cattani, economista da Boa Vista SCPC, diz que o indicador trimestral de inadimplência de empresas chegou a 8,9% em 2015. Ele é basicamente constituído por cheques devolvidos e protestos. "A estimativa é que a inadimplência das empresas cresça 10% neste ano em nosso indicador", afirma. 

Calife diz que as dificuldades das empresas não se limitam ao pagamento de contas. Junto com a inadimplência, também aumentou o percentual de falências.

Segundo dados da Boa Vista, em 12 meses até janeiro os pedidos de falência cresceram 16%. Desse universo, 90% são de pequenas e médias empresas. A novidade é que pela primeira vez houve um salto das empresas do setor de comércio. "Isso não costumava ocorrer. Tradicionalmente, os setores que mais pediam falência eram a indústria e os serviços", diz o economista. 

Ele avalia que as empresas sofrem mais do que os consumidores quando o assunto é crédito.

"O consumidor pode deixar de tomar empréstimo, mas a empresa não pode. Com a retração da atividade, o empresário tem redução na receita e um problema de caixa. Demite para diminuir custos, mas ainda encara uma inflação alta. Ele precisa de recursos, que estão escassos e caros", avalia Calife. 

Segundo ele, as medidas do governo para estimular o crédito - que ainda precisam ser aprovadas no Congresso - não devem surtir efeito sobre os consumidores, pois eles demandam menos crédito hoje em dia, mas podem ser positivas para as empresas.

"Podem trazer um efeito positivo para as pequenas empresas, que têm mais dificuldade de tomar crédito, principalmente para o capital de giro. Mas será preciso observar se a empresa que tomar crédito para giro e investimento vai conseguir transformar isso em receita para pagar a dívida. Se a situação econômica não melhorar, a inadimplência pode até aumentar", conclui. 

FOTO: Thinkstock






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