Finanças

O pior da crise política passou. E agora, onde aplicar meu dinheiro?


Com o desfecho do processo de impeachment, um novo cenário se desenha para quem quer diversificar seus investimentos. Mas ainda será preciso manter a cautela


  Por Rejane Tamoto 01 de Setembro de 2016 às 08:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


A saída definitiva de Dilma Rousseff da presidência da República abriu um novo capítulo para os investidores.

O pior da crise passou -mas isso não significa que os desafios terminaram, uma vez que a economia brasileira continua sob uma das maiores recessões da história.

A partir de agora, a atenção está voltada aos projetos que o governo Temer conseguirá ou não emplacar no Congresso. Dois deles são primordiais para a recuperação econômica: o que estabelece o teto dos gastos públicos e a reforma da Previdência

Talvez por isso a reação ao desfecho do impeachment não foi de alta do Ibovespa (índice que reúne as ações mais negociadas e de maior valor de mercado da bolsa), como se esperava.

O índice terminou a quarta-feira (31/08) em queda de 1,14% aos 57.901 pontos, encerrando setembro com prejuízo de 1,03%. O resultado pouco afetou os ganhos acumulados ao longo do ano, de 33,57%. 

Para especialistas, o comportamento do mercado de ações basicamente vai depender das votações dos projetos e de quais realmente sairão do papel.

Há expectativas positivas, mas um consenso é que a recuperação da economia levará tempo.

Em outras palavras: as empresas ainda vão demorar para oferecer lucro aos acionistas -exceto as que operam em setores mais resilientes, como o financeiro. É o que afirma Celson Plácido, estrategista-chefe da XP Investimentos. 

Ele diz que espera a retomada do investimento em infraestrutura, que pode ser incentivado com estabilidade regulatória pelo novo governo. 

Para Plácido, a bolsa ainda pode subir e encerrar este ano em 62.000 pontos. Se os projetos forem aprovados, ele estima um potencial de 70.000 pontos na metade de 2017.

"Acreditamos que as reformas e privatizações trazem um otimismo para o país depois de anos recessivos. Temos uma situação na qual existe uma maioria que pode aprovar projetos", afirma. 

No entanto, o que ocorreu na quarta-feira (31/08) deixou à mostra uma ponta de desconfiança em relação à suposta unidade em torno dos projetos do governo Temer.

"O fato de Dilma ter conseguido manter os direitos políticos, em uma votação separada, com apoio de muitos integrantes do PMDB, revelou uma divisão", diz Fabio Colombo, administrador de investimentos.

"O presidente foi pego de surpresa e isso mostra que a unidade em torno de seu governo é a bola da vez".

Plácido concorda que o impeachment não significou o fim da crise política. Por trás do resultado da votação em destaque dos direitos políticos de Dilma, pode estar um recado a Temer de que o "toma lá, dá cá" continua.

"Mas é fato que a crise política se reduz bastante porque temos um presidente efetivo, que pode tomar medidas impopulares daqui para frente", diz. 

O estrategista avalia que o cenário para investir no Brasil melhora porque há uma agenda econômica na qual se espera uma queda dos juros e a volta do crescimento do PIB. "O investidor estrangeiro quer fazer parte disso, mas precisa ver as regras claras".

Segundo ele, com o fluxo de dólar para o Brasil, há uma tendência de a moeda norte-americana se desvalorizar. Em setembro, o dólar caiu 0,38% e, no ano, já acumula queda de 18,34%. 

Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest, afirma que a ameaça à queda na cotação do dólar pode vir de fora, em decorrência do aumento dos juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

"Se isso ocorrer no fim do ano, será necessário aumentar a taxa de juros no Brasil, para mantê-la atrativa ao investidor", afirma. 

O investimento na renda variável requer cautela, alerta Calil, pois os fundamentos das empresas listadas ainda são frágeis, se considerado o atual momento econômico, com 12 milhões de desempregados, fechamento de vagas de trabalho e de estabelecimentos comerciais.

"Não há consumo e as pessoas que minimamente formaram uma renda não estão dispostas a comprar e querem poupar. Isso é ruim para muitas empresas que estão na bolsa, cujo desempenho depende de vendas e lucro", afirma.

Para o especialista, na renda variável, há oportunidade mais sólida em fundos imobiliários de recebíveis, que devem exibir uma recuperação mais rápida.

Esses fundos são formados por títulos de dívida imobiliária, como CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) e LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) com rendimento de até 18% ao ano.

"Com a redução da inflação e da taxa de juros, eles tendem a se valorizar. Já os fundos imobiliários de tijolo (renda de aluguel) e fundos de fundos devem levar mais tempo para se recuperar", afirma. 

RENDA FIXA 

O especialista diz ser cético em relação ao ritmo de recuperação da economia e de redução da taxa básica de juros (Selic), que nesta quarta-feira (31/08) foi mantida em 14,25% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

"Acredito que a taxa comece a cair em um período de 12 a 18 meses, dependendo da aprovação das reformas necessárias. A curva de juros futuros para daqui nove anos mostra a taxa de 12,50%", afirma. 

Com base nesse cenário, a avaliação de Calil é de que a renda fixa ainda vai continuar oferecendo alegria ao investidor por um bom tempo --especialmente os títulos públicos e privados que pagam a variação da inflação e um cupom de 7% ao ano.

"Quem conseguir essa taxa por dois anos tem de esticar o máximo que puder porque ela vai diminuir. É claro que a escolha deve obedecer ao planejamento financeiro de cada um", afirma. 

De acordo com o ranking de investimentos elaborado por Colombo, em setembro os fundos de renda fixa ofereceram a melhor rentabilidade bruta -na faixa de 1,20% a 1,35%-, dependendo da taxa de administração.

Os fundos DI e os CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) também obtiveram bom desempenho, com remuneração bruta de 1,15% a 1,30% e de 1,10% a 1,25% respectivamente. 

Os títulos públicos que pagam a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerraram o mês com retorno indicativo bruto de 0,90% a 1,05%, dependendo do prazo do papel.

Só foi melhor do que o da caderneta de poupança, que teve rendimento líquido de 0,76% no mês. 

A expectativa de Plácido, da XP Investimentos, é que a taxa de juros caia para 13,75% neste ano e para 11,50% em 2017.

Quando a taxa de juros diminui, as aplicações prefixadas tornam-se mais atrativas - por de certa forma travarem um ganho maior para o investidor.

"Por isso, temos recomendado aplicações que pagam de 15% a 16% ao ano, em vez de aplicações pós-fixadas (cujo rendimento é conhecido no resgate) ou atreladas à inflação", afirma. 

Nesse sentido, Sandra Blanco, consultora de investimentos da Órama, lembra que o Copom deve esperar sinais claros de queda da inflação para dar início à redução da taxa de juros.

Justamente porque isso pode levar tempo que ela também tem recomendado as aplicações prefixadas. "Ainda dá para entrar nessa modalidade enquanto a taxa de juros está alta. Quando começar a cair haverá uma reprecificação e boas oportunidades podem sumir", diz.

Segundo Sandra, para o investidor que dispõe de uma reserva disponível para aplicar este é o momento de comparar aplicações e fazer escolhas.

"Há CDBs que pagam 14% ao ano para um prazo de 4 anos, enquanto um título público prefixado do Tesouro oferece taxa de 12,19% ao ano. O CDB ainda tem a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito", completa.  

FOTO: Thinkstock

ARTE: William Chaussê