Finanças

O crédito está mais enxuto e de alto custo para as empresas


Ao reduzir os estoques, elas buscam recursos apenas para manter o fluxo de caixa. Bancos continuam cautelosos na hora de emprestar


  Por Rejane Tamoto 27 de Outubro de 2015 às 20:49

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Do saldo de crédito livre (com recursos captados pelos bancos) de R$ 813 bilhões para empresas em setembro, houve recuo mensal de 0,6% nas carteiras de capital de giro e de 3,8% na conta garantida, segundo dados do Banco Central. 

De agosto para setembro, outras linhas também exibiram reduções no saldo, como as de desconto de cheques (-1,2%), cheque especial (-0,1%), aquisição de bens (-2,6%), financiamento de veículos (-0,8%), arrendamento mercantil (-2,3%) e financiamento a importações (-0,3%). 

O saldo corresponde a todo o estoque ativo na carteira de crédito (já emprestado e novas concessões).

Para as empresas, em setembro, só houve expansão no saldo de crédito das linhas desconto de duplicatas (14,2%), antecipação de faturas de cartão (0,1%), vendor (1,6%), compror (1,7%), cartão de crédito (7,5%), adiantamento de contrato de câmbio (1,9%), financiamento às exportações (0,6%) e repasse externo influenciado pelo efeito da depreciação cambial (8,8%) e outros créditos, como aquisição de recebíveis (4,6%). 

Quando se fala em novos créditos concedidos pelos bancos, com recursos livres, na passagem de agosto para setembro, houve crescimento nas linhas de desconto de duplicata (20,6%), desconto de cheques (3,1%), antecipação de faturas de cartão (2,7%), capital de giro (16,3%), conta garantida (1,2%), cheque especial (0,6%), vendor (34,3%), cartão de crédito (10,6%), adiantamento de contrato de câmbio (39%) e repasse externo (278,1%). 

Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), avalia que as empresas buscaram mais o desconto de duplicata, na comparação com outras linhas, como o próprio capital de giro, por causa do momento da economia, que está levando a uma desalavangem geral do mercado. 

"As empresas estão vendendo menos, diminuindo estoques e precisando menos de capital de giro para fazer novas vendas. Quem toma recursos faz a rolagem financeira por ter um giro menor do que antes", diz. 

Dados da Serasa Experian mostram que a demanda das empresas por crédito caiu 14% em setembro na comparação com igual mês do ano passado. Esta foi a retração mais intensa para o mesmo mês desde 2012. Naquela época, a procura havia diminuído 15%.

No acumulado do ano, a procura das empresas por crédito diminuiu 0,8%, frente a igual intervalo de 2014. As mais afetadas, neste período, foram as médias empresas, que recuaram 18,6% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período de 2014.

No mesmo período, as grandes empresas apresentaram diminuição de 13,3%, enquanto as micro e pequenas empresas tiveram um pequeno avanço de 0,3%.

No acumulado deste ano contra 2014, a indústria registrou a maior queda na demanda por crédito (-7,7%), seguida pelo comércio (-0,9%). O setor de serviços foi o único que ainda registrou expansão, de 1,1%.

Em nota, os economistas da Serasa Experian dizem que o movimento é resultado das quedas praticamente ininterruptas da confiança empresarial, ao aprofundamento da recessão econômica e às taxas de juros em níveis elevados.

O economista da Acrefi diz que a todos esses fatores soma-se, ainda, a seletividade dos bancos na hora de liberar empréstimos, o que não é uma novidade. 

Tingas classifica a atual fase da economia como um período fora da normalidade, com queda de PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país) e inflação alta, que deixa  consumidores, empresas e bancos cautelosos. 

"Ninguém quer se expor ao crédito se as vendas despencarem e os custos da empresa continuarem subindo. Estamos perto do Natal e a empresa não vai buscar crédito para produzir mais. Ela só toma o empréstimo necessário para equilibrar o fluxo de caixa e pagar custos fixos e variáveis, já que as receitas caíram", afirma. 

A avaliação do economista é que um horizonte melhor para o crédito só surgirá após o desfecho da crise política, que está agravando consideravelmente a economia. "Hoje, só busca crédito quem precisa e quem pode, evita", diz.  

JUROS SEGUEM EM ELEVAÇÃO

As taxas de juros nas linhas de crédito com recursos livres continuam em elevação. Segundo dados do Banco Central, a taxa do cheque especial subiu 11,7 pontos percentuais de agosto para setembro, alcançando o patamar de 243,1% ao ano (10,82% ao mês). 

O custo de utilizar o limite da conta garantida também subiu 1,3 ponto percentual. A taxa de juros saiu de 47,2% ao ano em agosto para 48,5% ao ano em setembro, o equivalente a 3,35% ao mês. 

O empresário que utiliza o cartão de crédito corporativo também deve tomar cuidado, em especial com o pagamento mínimo da fatura (o rotativo), cuja taxa chegou a 277,5% ao ano em setembro, ou 11,71% ao mês. A variação em relação a agosto foi 27,3 pontos percentuais. 

O custo médio total das linhas de capital de giro também subiu 0,8 ponto percentual, passando de 26% ao ano para 26,8% ao ano. 

A taxas de inadimplência para empresas permaneceu estável no mês passado, em 2,4%. 

CRÉDITO DO BNDES: ELEVAÇÃO DE 0,9% 

Os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para empresas cresceram 0,9% de agosto para setembro, somando um total de R$ 626,746 bilhões, segundo dados do Banco Central. 

Nos primeiros nove meses do ano, a expansão está em 5,3% e, em 12 meses, de 12,1%.

Apesar disso, em setembro houve recuo de 4,7% nas linhas de capital de giro (R$ 12,887 bilhões), alta de 1,0% no financiamento ao investimento (R$ 601,426 bilhões) e estabilidade nas modalidades para o setor rural (R$ 12,433 bilhões) por parte do banco de desenvolvimento.

*Com Estadão Conteúdo

FOTO: Thinkstock

Atualizado em 28/10 às 17h






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