Finanças

Na crise, brasileiro com dinheiro decide investir nos EUA


Empresários decidem dolarizar os investimentos e escolhem a Flórida como sede para novos empreendimentos


  Por Estadão Conteúdo 22 de Novembro de 2015 às 16:00

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


Imigrantes brasileiros com um novo perfil estão desembarcando na Flórida: são empreendedores que buscam "dolarizar" os investimentos e que, em muitos casos, estão desistindo de seus negócios no Brasil para gerar emprego e renda nos Estados Unidos e receber na moeda do Tio Sam. Parte desse contingente é formado por pessoas que antes viam Miami e Orlando somente como grandes outlets para gastar o dinheiro que ganhavam por aqui.

Há números que evidenciam o poder econômico de parte dos brasileiros que estão migrando agora para a Flórida. Segundo especialistas em imigração consultados pelo Estado, a obtenção de um visto de negócios temporário exige o investimento pelo menos US$ 70 mil em uma nova empresa que gere postos de trabalho em solo americano. Para garantir a permanência definitiva, uma aplicação de pelo menos US$ 500 mil em atividade produtiva é necessária. Não é dinheiro que um cidadão comum costume ter disponível, mas não chega a ser um montante absurdo para os brasileiros que, nos últimos anos, compraram casas de veraneio na região.

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Dados da Associação dos Corretores de Imóveis dos Estados Unidos mostram que dinheiro não é problema para os brasileiros que compraram casas nos arredores de Orlando e Miami. O preço médio das residências compradas por brasileiros na Flórida é de US$ 587 mil - entre os estrangeiros, só os chineses compram imóveis mais caros.

Os números mostram ainda que cerca de 23 mil casas foram vendidas a cidadãos do Brasil desde 2008 na Flórida (leia quadro acima). De todos os imóveis vendidos a estrangeiros nos 12 meses encerrados em junho último, 9% ficaram em mãos brasileiras. Em alguns condomínios, como o Champion?s Gate, em Orlando, os brasileiros chegam a representar 60% do total de moradores. Segundo a Elite International, imobiliária voltada ao público brasileiro fundada há 25 anos em Miami, mais da metade das negociações são feitas à vista.

Uma parte desse público que comprou imóveis em Miami durante o período de "vacas gordas" e de dólar baixo que o Brasil viveu entre 2010 e 2013 agora considera transformar a antiga casa de férias em residência definitiva. Esses membros da classe A que estão deixando o Brasil para trás citam como motivos a crise econômica, a corrupção e, principalmente, a segurança pública.

Em Miami, no escritório da Elite International, o Estado encontrou um empresário capixaba que havia trazido a família para Miami, mas continuava a trabalhar em Vitória (ele não quis se identificar). "Aqui, minha família fica tranquila. O americano não tem nada contra quem ganha dinheiro honestamente. O cara pode andar de Lamborghini e ninguém vai achar que ele é bandido." O empresário contou que decidiu transferir a família para os Estados Unidos seguindo o exemplo do irmão, que já havia tomado a mesma decisão.

O arquiteto Luiz Mori dos Santos, de 51 anos, conhecido por projetos de decoração de interiores para a classe alta de Curitiba, está na "ponte aérea" entre os Estados Unidos e Brasil há dois anos e meio. Embora afirme ter conseguido um visto definitivo por "habilidade extraordinária" - quando um profissional é acolhido em um país pelo seu talento -, Santos ainda não tem uma carteira relevante de clientes em solo americano. Por enquanto, o arquiteto ganha dinheiro em Curitiba e gasta na Flórida. Apesar de criar projetos à distância, viaja com frequência ao Brasil para acompanhar obras e manter o relacionamento com a clientela. "Passo dois meses direto em Miami e fico três semanas em Curitiba."

SEM OLHAR PARA TRÁS

Enquanto o arquiteto curitibano manteve um pé no Brasil, o empresário Osvaldo Macedo Neto, 41 anos, e sua esposa Luciana, de 43, decidiram vender tudo o que tinham para apostar suas fichas no projeto de construir um edifício de luxo não muito longe de um dos maiores símbolos do comércio de luxo de Miami, o shopping Bal Harbour, onde encontraram a reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo". No início deste ano, o casal e os filhos Rafael e Gabriel - de 12 e 9 anos - trocaram a praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis, por Boca Raton, no condado de Palm Beach.

A adaptação à cultura americana foi rápida, segundo Luciana. "A escola na Flórida é pública e toda a comunidade se esforça para torná-la melhor. Aqui, ensina-se as crianças a ir à luta desde cedo. São os alunos que limpam o refeitório na hora do almoço", diz. A abertura da empresa para a construção do residencial idealizado por Osvaldo - um edifício "butique" de sete andares, voltado principalmente ao público brasileiro com muito dinheiro para gastar - também foi facilitada. Toda a papelada foi resolvida em 48 horas.

Ao migrar para os Estados Unidos, Osvaldo atraiu um de seus sócios, Daniel Jevaux, de 31 anos, para a empreitada - eles repassaram os projetos em Florianópolis para um terceiro cotista da empresa, batizada nos dois países de Tross. Daniel conta que ele e a noiva tinham o entendimento de não terem filhos quando moravam em Florianópolis. Agora, diante da qualidade de vida e da facilidade para fazer negócios em Miami, ele diz estar disposto a mudar de ideia.

IDENTIDADE

A "fuga" do Brasil em um momento de crise com um discurso relacionado aos problemas sociais e econômicos abre a discussão para a questão da identidade, segundo o sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Trata-se de um perfil nômade, sem muita identificação cultural", diz o professor. "Diante disso, acho que o discurso de ?não volto mais? pode mudar ao sabor dos ventos da economia." A tendência do migrante em exaltar as qualidades do novo destino também deve ser relativizada. "É tudo uma questão de referência cultural", avalia Oliveira. "Para muita gente, a Flórida pode ser sinônimo de brega, kitsch."