Finanças

Dólar liderou o ranking de rentabilidade em julho


A valorização foi de 10,13% no mês, retorno superior ao da renda fixa. Saiba como avaliar aplicações atreladas à moeda norte-americana


  Por Rejane Tamoto 31 de Julho de 2015 às 19:31

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Em julho, o governo reduziu a meta de economizar para pagar a dívida pública e o Brasil teve a nota de risco de crédito colocada em perspectiva negativa. Tudo isso, em meio à falta de coesão política, ajudou o dólar a se fortalecer sobre o real.  Além disso, há a expectativa de aumento de juros nos Estados Unidos e a desaceleração da economia chinesa. 

A valorização da moeda foi de 10,13% no mês e de 28,66% no ano, segundo o ranking do administrador de investimentos Fabio Colombo.  

A notícia foi boa para quem já tem recursos aplicados em fundos cambiais ou em outras modalidades atreladas ao dólar ou ao euro - embora o último seja menos comum. A moeda europeia encerrou julho com alta de 8,30%. No ano, também acumulou 16,32%. 

Segundo especialistas, quem pensa em contratar essas aplicações não deve olhar apenas a rentabilidade passada. Deve, primeiro, observar o próprio perfil de risco e os detalhes de cada produto. 

Primeiro, é preciso entender que esse tipo de aplicação é de renda variável, ou seja, está sujeito aos altos e baixos da divisa norte-americana.

O coordenador do laboratório de finanças do Insper, Michael Viriato, chama atenção para o fato de que o dólar caiu em abril, subiu em maio, caiu em junho e subiu em julho - se observados os fechamentos desses meses. 

"Desta vez aumentou com tanta força que impressionou todo mundo. Por isso, fica a sensação de que vai continuar subindo. As aplicações atreladas ao dólar são boas para quem tem dívida ou pretende fazer compras na moeda, em uma viagem por exemplo. É um jeito de proteger o dinheiro. Para investir, é difícil adivinhar em que mês a moeda vai subir ou cair", explica. 

Mauro Calil, especialista em investimentos do Banco Ourinvest, recomenda a aplicação apenas para quem tem esse perfil. "Não pode colocar o dinheiro e depois sentir que teve a vida arruinada caso o dólar se desvalorize", afirma.

Assim, uma aplicação razoável seria de 5% do patrimônio - desde que a pessoa já tenha em outras aplicações o limite de R$ 250 mil assegurados pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC, uma espécie de seguro que cobre essa quantia por banco e CPF em caso de quebra da instituição).

O pequeno investidor pode pesquisar o fundo cambial, que rende a valorização do dólar, mas tem cobrança de taxa de administração. "Há fundos que podem ser acessados com R$ 1 mil ou R$ 5 mil. Uma dica que dou é a seguinte: se R$ 10 mil for muito dinheiro para o aplicador, é melhor não entrar, porque o dólar é volátil", diz Calil. 

Ele recomenda a leitura do estatuto do fundo cambial para descobrir se há um aviso sobre a possibilidade de o patrimônio líquido ficar negativo - caso a estratégia com o dólar não dê certo. "Se o gestor errar a direção, os investidores terão de fazer novos aportes", explica. 

Calil diz que é preciso pensar no objetivo: se é de um ganho consistente ou eventual. Ele conta que uma alternativa a quem está interessado em diversificar em aplicações atreladas ao dólar é o COE (Certificado de Operações Estruturadas), que geralmente têm estratégias diversas de derivativos com a moeda. 

Quem tem medo de perder pode avaliar se quer um COE de capital protegido - o que no caso de queda do dólar garante de volta pelo menos o valor aplicado, sem redução. Há muitas possibilidades, como a de estabelecer um percentual de ganho na alta e na baixa. 

"Esse produto tem prazo fechado de oito meses a dois anos. Cada COE é feito e registrado no CPF do investidor e o risco é de quebra da instituição emissora. Ele não é protegido pelo FGC", explica o especialista do Ourinvest. 

A expectativa é que agosto seja um mês ainda tenso - principalmente na esfera política, nas relações entre Congresso e o governo sobre o ajuste fiscal.
 
Calil estima que o dólar ainda possa chegar a R$ 3,50 no fim deste ano - mas se antes disso o Brasil perder o grau de investimento, a cotação pode atingir R$ 4,20.

"Há ainda as investigações de corrupção, que também trazem volatilidade", diz Viriato, do Insper. 

É um cenário descrito como nebuloso pelo analista da XP Investimentos, André Moraes.

Ele diz que enquanto o imbróglio político não for solucionado, o mercado de ações não se recupera. No mês, a bolsa teve queda de 4,17%. No ano, acumula alta de 1,71%. 

Na avaliação dele, o que puxou a bolsa para baixo - ao trazer mais insegurança ao investidor - foi o rompimento entre o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, com o governo de Dilma Rousseff

Outro fator, diz, decorre da desaceleração da economia chinesa, que já derrubou os preços do minério de ferro. Com isso, a ação da Vale caiu 6,8% no mês e a da siderúrgica CSN, 16%. 

Quem influenciou negativamente a bolsa foi a ação da Petrobras, que caiu 17% no mês - ainda por causa dos escândalos de corrupção, da queda na cotação do petróleo e da falta de confiança do investidor de que a companhia aumentará o preço da gasolina para melhorar sua situação financeira. 

PROTEÇÃO NO GUARDA-CHUVA DOS JUROS

O que também não incentiva o investidor a tomar riscos de moedas e bolsa são os juros atrativos da renda fixa - que ganharam tônus com a alta recente da taxa básica Selic para 14,25% ao ano. 

 

 

No acumulado do ano, quem teve o melhor desempenho foi o título público indexado ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), com retorno indicativo de 10,55%. No mês, o título - que paga um cupom de juros e mais a variação da inflação - teve retorno na faixa de 1,10% a 1,25%. 

"É uma rentabilidade acima do CDI (Certificado de Depósito Interfinanceiro, taxa praticada entre bancos). Trata-se de uma opção para diversificar, mas é preciso cuidado com a volatilidade as taxas", afirma Viriato, do Insper. 

Colombo, autor do ranking, diz que com a alta da Selic o cupom de juros do título está atrativo - na faixa de 6,50% a 6,70%. No entanto, diz que é uma boa opção para quem pode esperar o prazo de vencimento - que hoje oscila de 2017 a 2050. 

Os fundos DI também tiveram um bom desempenho - com retorno indicativo idêntico ao título atrelado à inflação em julho. No acumulado do ano, a aplicação ofereceu ganhos de 7,28%, dependendo da taxa de administração.

Ainda assim, ficou abaixo do apurado pelos fundos de renda fixa, que renderam em média 7,76% no ano e de 1,10% a 1,15% em julho. 

Os CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), por outro lado, tiveram uma remuneração indicativa de 1,05% a 1,20% no mês passado, acumulando 6,98% no ano. 

De qualquer forma, foi melhor do que a caderneta de poupança, que rendeu apenas 0,73% em julho, e 4,46% no ano - abaixo da inflação medida pelo IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado), que ficou em 5,05% no mesmo período.

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