Finanças

Dólar foi o campeão em rentabilidade em 2015


Valorização da moeda norte-americana foi de 48,62%, enquanto a bolsa encerrou o ano com prejuízo de 13,31%. 2016 ainda será um ano de incertezas e, assim, de proteção do patrimônio


  Por Rejane Tamoto 30 de Dezembro de 2015 às 19:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


O ano de 2015 chega ao fim quase do jeito que começou, com muita incerteza sobre o ajuste fiscal e com a economia paralisada pela crise política. Só que termina com recessão e, desta forma, com mais pessimismo em relação ao PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas do país), à inflação e aos juros. Foi um ano em que a classificação de risco de crédito do Brasil começou em grau de investimento e encerrou em junk (lixo).

E para completar, um rombo histórico nas contas públicas, que deixou pouca esperança de recuperação rápida da economia em 2016. Em um ano assim não é de se espantar que o dólar tenha sido o ativo que mais se valorizou, com alta de 48,62%. No último dia útil do ano, a moeda fechou cotada a R$ 3,96. A bolsa terminou na lanterna e a renda fixa, com rentabilidade na casa dos dois dígitos. 

É arriscado afirmar que há espaço para ganhar com novas altas, já que parte dos analistas diz que a janela de oportunidade para entrar em uma aplicação atrelada ao dólar já passou, mas ainda há muita incerteza pela frente. Internacionalmente, o dólar ganhou força com a recuperação da economia norte-americana, que já resultou no aumento da taxa de juros dos Estados Unidos em dezembro. Novas altas nos juros lá fora tendem a atrair o capital de investidores e pressionar a cotação do dólar em outros países. 

Por outro lado, em Brasília, com a volta do recesso, há o retorno do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. E isso também influencia a cotação da moeda. 

"No Brasil, a incerteza sobre o cenário político ainda pode pressionar o câmbio. Outro fator que influencia é o ritmo de alta dos juros nos Estados Unidos. Os profissionais de mercado, incluindo os do relatório Focus, estimam o dólar a R$ 4,19 no fim de 2016. É importante lembrar que, na atual crise, muitos erraram as projeções para 2015. Para o dólar, a projeção era de R$ 2,76 e passou para R$ 3,95", afirma Fabio Colombo, administrador de investimentos, que elabora o ranking anual. 

O dólar, assim como o euro, que teve retorno de 33,67% no ano, e o ouro, com alta de 33,63% no mesmo período, são ativos voláteis. Por isso, as aplicações que são atreladas a esses três ativos são mais arriscadas para o pequeno investidor, que não pode correr o risco de ter prejuízo em aplicações. 

 

 

Uma alternativa que pode ser analisada em 2016 é a aplicação em Certificados de Operações Estruturadas (COEs), que são operações com derivativos montadas por instituições financeiras e geralmente oferecidas ao investidor de grande porte. Esse produto deve começar a ser ofertado para o investidor de varejo - mas com a opção de capital protegido - em 2016. 

Um COE pode ser estruturado para ter retorno com a alta ou a queda de uma moeda estrangeira, com ações do exterior e diversos ativos, como juros. 

Como não é protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), a ideia é que ele chegue ao varejo com a opção de capital protegido, na qual o investidor possa escolher entre receber um pedaço do retorno (se for positivo) ou exatamente o dinheiro que aplicou sem rendimento algum, caso a aplicação tenha prejuízo. A diferença é que, no caso de valorização, o aplicador fica sem o retorno cheio. 

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Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, diz que o COE permite participar de um pedaço da rentabilidade e protege o capital principal (o investido) contra a queda. "Há muitas modalidades de COEs e acredito que há potencial de crescimento no próximo ano. As instituições estão montando para o varejo e devemos distribuir no começo de 2016", afirma. 

Apesar disso, ele vê 2016 como um ano ainda de cautela - como foi 2015. "Não vejo muito como ser agressivo em momentos como esse. Há muita incerteza política", diz. 

BOLSA DEPENDE DO IMPEACHMENT

O Ibovespa (índice da bolsa que reúne as ações mais negociadas e de maior valor de mercado) encerrou 2015 com prejuízo de 13,31% aos 43.349 pontos. Não houve espaço para rali de fim de ano, mas para Colombo há chance de que 2016 seja melhor para a bolsa. Mas isso se houver um desenlace positivo para o impeachment da presidente. "Se continuarmos nessa paralisia, a bolsa pode ter mais um ano ruim", disse. 

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Para Cardoso, da Easynvest, há chances também de boas empresas oferecerem retorno no longo prazo por causa do aumento do dólar, em geral exportadoras e pouco endividadas em moeda estrangeira. "É difícil ter certeza de que a bolsa se recupera. É para o investidor com capacidade financeira para ficar posicionado em prazo longo, mas o problema é que é difícil para a renda variável competir com a taxa de juros", diz. 

Rodrigo Puga, sócio e responsável pelo home broker da Modalmais, diz que nesse período de crise o perfil de investidor de bolsa é cada vez mais o de curto prazo, que faz operações diárias. "Ele utiliza a análise técnica para operar na alta e na baixa e vê oportunidade de ganhar dinheiro em qualquer tendência. É um investidor mais experiente", avalia. 

RENDA FIXA: PROTEÇÃO CONTRA A INFLAÇÃO

No ano de 2016, ainda será importante proteger o patrimônio contra a inflação alta. As aplicações conservadoras, apesar de ganho real (descontada a inflação) pequeno, devem continuar oferecendo taxas de juros de dois dígitos. 

Os títulos públicos indexados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ofereceram retorno indicativo médio de 17,66% no ano, dependendo do prazo de resgate e da marcação a mercado.

A tendência é que continuem com cupons atrativos, na opinião de Cardoso, da Easynvest. "A melhor opção para proteger o dinheiro da inflação é o título que acompanha a taxa Selic. Para quem vai deixar até o vencimento, o título que paga juros e mais IPCA", afirma.

Na avaliação dele, o problema é que parte da taxa do título de inflação é prefixada (definida no ato da compra do papel), e esta muda diariamente. Quem precisa vender o título para resgatar o dinheiro antes do vencimento pode perder rentabilidade. 

"Outro problema da taxa pré é que não sabemos para onde vai a Selic. A prefixada acompanha a curva de expectativas e é atrante, mas indicada para quem não vai mexer no dinheiro no prazo estabelecido", afirma Cardoso.

Segundo ele, além dos títulos públicos há oportunidades em títulos privados, que têm proteção do FGC, como as Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio (LCIs e LCAs). 

É também o caso do CDB (Certificado de Depósito Bancário, empréstimo ao banco), que teve retorno médio de 12,88% em 2015.

Segundo o ranking de Colombo, melhor do que o retorno do CDB foi a rentabilidade bruta oferecida pelos fundos de renda fixa, que foi em média de 13,49%, e os fundos DI, de 13,17% - de acordo com a taxa de administração. 

"Essas aplicações ofereceram retorno real (descontada a inflação) baixo em 2015. No próximo ano, dependem da política de juros do Banco Central e da participação de títulos prefixados e indexados à inflação nas carteiras", diz.  

Essas aplicações, porém, foram melhores do que a poupança, que encerrou o ano com rendimento líquido de 8,07%, abaixo da inflação medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), que foi de 10,54%. 

"Há oportunidades boas na renda fixa e fora da poupança, em CDBs de prazo maior, com taxas pré mais atrativas e maiores do que a Selic, e em títulos públicos, para quem precisa de liquidez", afirma Puga, da Modalmais. 

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