Finanças

Crédito vai piorar com perda de grau de investimento


O Brasil é altamente dependente da entrada de capitais estrangeiros para financiar o investimento. S&P diz que custo de captação pode aumentar


  Por Estadão Conteúdo 14 de Setembro de 2015 às 09:49

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O tamanho do desafio das companhias para lidar com esse cenário adverso fica evidente nos números bilionários de dívidas que vencem no ano que vem. Pelos dados do Banco Central, o volume total a ser pago (ou renegociado) soma US$ 65 bilhões, sendo US$ 54,8 bilhões do setor privado.

O custo de captação das empresas pode subir se o Fed (Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos) decidir elevar a taxa básica de juros na reunião que ocorre nesta semana, alerta a agência Standard & Poor's (S&P).

"As condições para as empresas brasileiras serão mais desafiadoras", disse Lisa Schineller, diretora-gerente de ratings soberanos da S&P.

Ela frisou que o rating de muitas companhias foi rebaixado no Brasil recentemente, seguindo o corte da nota soberana.

Pelo lado positivo, a diretora da S&P disse que o BC entrando mais no mercado de câmbio para conter a disparada do dólar ajuda a melhorar as condições para as companhias endividadas na moedas norte-americana, pois facilita o acesso ao dólar. "Mas definitivamente as empresas vão ter que lidar com um cenário mais difícil."

Lisa mencionou que as companhias brasileiras têm que lidar ainda com o ambiente doméstico de forte desaceleração do crescimento econômico, acima do inicialmente esperado, e a falta de políticas do governo que sinalizem mudanças dessa trajetória.

O relatório do banco Mizuho lembra que o quadro já vinha bastante difícil desde o primeiro semestre com a crise fiscal e piorou com a decisão da equipe econômica de rever as metas de superávit primário para os próximos anos. 

As condições se deterioram ainda mais com a sequência de más notícias que antecederam o rebaixamento do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poors, como a crise política cada vez mais intensa e a proposta de Orçamento deficitário entregue ao Congresso Nacional.

O reflexo de tanta incerteza fez o Credit Default Swap (CDS) - espécie de seguro contra o risco de calote do Brasil - subir de 200 pontos no início do ano para 386 pontos na quinta-feira (10/09). O valor está muito acima do verificado em países com grau de investimento.

No dia a dia das companhias, a escalada do risco se traduziu na redução do apetite dos investidores por papéis brasileiros e no aumento do custo das operações de crédito. 

Para comprar um título nacional, o investidor passou a exigir um retorno muito maior. "Há dois meses, um bond de Petrobrás que vence em 2021 tinha uma taxa de dólar mais 5,80% ao ano. Esse papel hoje tem uma taxa de dólar mais 9,80% ao ano", afirma Damont Carvalho, sócio da Claritas Investimento. 

De acordo com o relatório do Banco Mizuho, o problema é que o país é altamente dependente da entrada de capitais estrangeiros para financiar o investimento dada a sua baixa taxa de poupança interna. "Com a perda do grau de investimento, os investidores devem se tornar mais relutantes em investir no Brasil."

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CAPTAÇÕES EXTERNAS 

O aumento do custo do crédito assustou as empresas, que reduziram drasticamente o volume de emissões no exterior. De janeiro a julho, as captações no mercado internacional caíram 78% - de US$ 37,3 bilhões em 2014 para US$ 8,1 bilhões neste ano, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

"As empresas estão mantendo a captação no mínimo possível. Só captam o que precisam para o garantir um plano de investimento para o ano", afirma Carolina Lacerda, diretora da Anbima. 

Na avaliação da especialista, há mercado para emissão de dívida no exterior, mas o custo é bem alto e a volatilidade do dólar torna a operação menos atrativa. Isso deve empurrar muitas companhias para o mercado doméstico, de capitais ou financeiro.

No caso dos bancos, no entanto, não há apetite para emprestar, diz Carolina. "O setor está consolidado e com as carteiras expostas em Eike Batista, Odebrecht e outras empresas envolvidas na Operação Lava Jato e com a Petrobrás. Os bancos não têm capacidade de financiar mais essas grandes empresas e muito menos as pequenas, cujo crédito é mais complicado."

Além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que também está restringindo a concessão de crédito, restará às empresas o mercado local de dívidas. "Companhias que antes faziam operações no exterior (por causa dos custos mais baixos) passarão a se financiar no mercado local, que continua funcionando", afirma Cristina Schulman, superintendente executiva de mercado de capitais de dívida do Santander.

Mas esse mercado também já apresentou aumento nos custos de captação e financiamento. As taxas futuras de juro para 2025, por exemplo, subiram de 12,50% ao ano para 15% desde que o governo anunciou a revisão da meta fiscal. "Isso nos faz imaginar que o custo do dinheiro no Brasil vai continuar alto nos próximos anos", afirma Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria.

Pelos dados da Anbima, as captações no mercado interno somaram R$ 60,3 bilhões entre janeiro e julho ante R$ 88,5 bilhões de igual período do ano passado.

*Foto: Thinkstock






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