Finanças

Crédito pela internet tem análise tão rígida quanto a de bancos


Sites de empréstimos online para pessoas físicas também atrai pequenos empresários endividados. Saiba como essas plataformas funcionam


  Por Rejane Tamoto 12 de Outubro de 2015 às 08:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Se na agência bancária está difícil convencer o gerente a liberar crédito a uma taxa de juros menor, nas plataformas de empréstimo pela internet também haverá uma análise rígida. Elas protegem-se igualmente da inadimplência, com a diferença de dar a resposta rapidamente.

É um processo mais cômodo, mas nem sempre de baixo custo. A taxa de juros, nesse caso, depende do perfil do tomador de crédito.

O fato é que as plataformas de marketplace (vinculadas a bancos) ou peer-to-peer lending (na qual pessoas emprestam para outras) no Brasil podem ser uma alternativa para quem não conseguiu o recurso por outros meios, segundo três empresas que iniciaram o serviço neste ano. Elas recebem comissões por operações de crédito aprovadas.

No Brasil, o Banco Central exige que essas plataformas estejam vinculadas a bancos ou financeiras autorizadas pelo órgão. Assim, devem obedecer aos critérios de envio de informações detalhadas de suas operações.

No país, somente instituições financeiras podem captar dinheiro de investidores para emprestar a outras pessoas. A exigência brasileira, no entanto, fez surgir uma versão tropicalizada do peer-to-peer lending. 

Em seu modelo original, que já funciona em outros países, o peer-to-peer lending é uma plataforma na qual uma pessoa interessada em investir pode emprestar para outra que precisa do crédito, sem a necessidade de intermediação dos bancos. 

Nos Estados Unidos, por exemplo, esse formato de empréstimo é adotado por quem precisa do recurso para consolidar dívidas diversas, inclusive com cartões de crédito. 

Em uma apresentação sobre as finanças no século 21, Andrei Shleifer, professor de Harvard, disse que estudos mostram que há potencial para esses empréstimos crescerem 14% nos próximos dez anos, enquanto o ritmo atual é de 2% ao ano. O setor movimenta US$ 6 bilhões nos Estados Unidos. 

“Há um início de expansão de empréstimos para pequenas empresas pela internet nos Estados Unidos. Esse tipo de empréstimo é menos personalizado e orientado, mas é eficiente”, afirmou Shleifer, durante congresso organizado pela BM&FBovespa em agosto. 

O QUE OBSERVAR

Gustavo Marques, gerente da unidade de acesso a mercados e serviços financeiros do Sebrae-SP, diz que, de fato, o pequeno empresário está encontrando muitas dificuldades na aprovação de crédito nos bancos.
 
"Há muitos casos de empresários que tomam microcrédito na pessoa física para a empresa. É mais fácil conseguir no CPF do que no CNPJ porque, de forma geral, a pessoa física tem mais garantias do que a jurídica", explica. 

Apesar disso, ele faz ressalvas e aconselha o empresário a separar a utilização do dinheiro, com registros em planilhas separadas, para verificar se o empréstimo realmente está sendo usado para capital de giro - sem misturá-lo com o consumo pessoal e familiar. 

"Se o dinheiro for usado para o pagamento de dívidas, terá de ser emprestado a uma taxa de juros menor do que a cobrada no débito em aberto", afirma.

LEIA MAIS:Segundo o Banco Central, juros do crédito bateram recorde em agosto

Outra cautela é referente ao destino do dinheiro que será emprestado. "Pense se precisa mesmo do crédito e para qual finalidade. Se a conta não fecha no fim do mês, o crédito pode piorar a situação da empresa, ao trazer endividamento, mesmo que seja fácil e rápido pela internet", recomenda Gustavo Marques. 

Ele diz que o empresário deve observar o Custo Efetivo Total (CET), a taxa que embute juros e Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). "Pesquise a plataforma e tente localizar conhecidos que já utilizaram. Verifique as exigências de garantias", avisa.

BAIXA INADIMPLÊNCIA

A versão brasileira do empréstimo pela internet – que conta com financeiras ou pequenos bancos na intermediação – tem uma análise de risco de crédito tão detalhada quanto a das instituições em uma agência física. 

Afinal, para oferecer taxas menores aos tomadores, é preciso que o índice de calotes seja baixo.

Na plataforma Biva, por exemplo, os tomadores de crédito, por meio do CPF, podem registrar o quanto querem emprestar e o prazo. Eles devem colocar como garantias bens pessoais, e esta tem sido uma alternativa para muitos pequenos empresários. 

A oferta é disponibilizada a investidores pessoas físicas, que decidem se querem ou não emprestar. 

A operação, apesar de conectar pessoas em cada uma das pontas, tem a intermediação de uma financeira. A diferença, no caso, é que a decisão não é da instituição e sim dos investidores. Trata-se, na verdade, de uma modalidade adaptada de crowdfunding (financiamento coletivo).

“Nossa grande preocupação foi dar segurança aos usuários e, por isso, efetuamos uma rigorosa análise de crédito para que a inadimplência seja baixa. De abril a setembro, operamos com zero de inadimplência. Garantimos a rentabilidade ao investidor caso o tomador não pague a parcela do empréstimo”, afirma Paulo Felipe Martins David, fundador e CO-CEO da Biva.

A análise de crédito é feita em três passos. O sistema certifica-se de que não há fraude e investiga o tomador, ao pesquisá-lo nos birôs de crédito. Depois, faz a análise financeira e comportamental. Isto porque muitos que procuram a plataforma não tiveram acesso ao crédito por outros meios. 

LEIA MAIS:Cooperativas são opção financeira, mas beneficiam pouco os pequenos empresários

A avaliação do comportamento  leva em conta fatores como: o tempo que a pessoa demorou para responder a uma determinada pergunta do questionário, se ela leu ou não os contratos e em que momento parou de navegar. Esses dados são cruzados com as demais informações, de etapas anteriores, para formar uma taxa de juros. “O comportamento é o tipo de variável que o banco não usa”, diz. 

Segundo David, por causa da análise mais rígida, apenas 40 pessoas de 500 cadastradas concluíram operações de empréstimo,de acordo com dados de abril a setembro.  

A taxa de juros oscila de 1,5% ao mês a 4,7% ao mês, dependendo do perfil de crédito traçado pelo sistema. “Não é uma taxa superbarata, mas é adequada a quem quer emprestar para pagar uma dívida de custo maior”, diz. 

A maioria dos tomadores de crédito é formada por mulheres e pequenos empresários, que faturam até R$ 6 milhões por ano. “Cerca de 80% são empresários de serviços, de e-commerce e lojistas, que podem solicitar o crédito em todo o Brasil”, conta. 

NOTA DE CRÉDITO DEFINE TAXAS 

Outra plataforma de prestação de serviços financeiros do tipo marketplace é a Geru, que é correspondente do banco AndBank e está em operação desde março deste ano. Sandro Reiss, fundador da plataforma, explica que faz uma avaliação de risco própria para atribuir uma nota de crédito ao interessado, que é o que determina a taxa de juros a ser cobrada na operação. 

"A tabela com as notas está no site, de forma transparente. Nossas taxas começam em 25% ao ano e terminam em 80% ao ano”, diz Reiss, que afirma que o modelo de avaliação é restritivo.  

Segundo ele, a diferença da análise de crédito da Geru em relação ao processo convencional é que ela não leva em consideração apenas os dados de birôs de crédito.

“Incorporamos mais informações e tecnologia para fazer uma avaliação sofisticada, com 35 classes de riscos diferentes. O cadastro leva cinco minutos e a resposta sobre a aprovação de crédito vem na hora”, diz.

Reiss afirma que a plataforma trabalha com uma estimativa de inadimplência baixa, mas sem citar o índice esperado pela Geru. A maioria dos usuários que procura a plataforma, ou 60% deles, quer tomar um empréstimo a taxa de juros menor para refinanciar dívidas mais caras. Os pequenos empresários representam 20% da base. 

ESTRUTURA REDUZ CUSTOS

Outro motivo para o custo mais baixo do empréstimo nas plataformas online é o fato de o serviço não ter as mesmas despesas com estrutura física na comparação com as das agências bancárias. 

Esse é o caso da Lendico, plataforma de marketplace do banco BMG em operação desde julho deste ano. 

Marcelo Ciampolini, fundador da Lendico, diz que o processo de liberação de crédito segue as normas do banco, de forma a evitar que maus pagadores possam acessá-lo. Ele diz que uma das travas é a faixa de renda e de idade dos interessados.

"O crédito é aprovado em três minutos, mas só se não houver inconsistência nas informações. Um usuário já disse ter renda de R$ 10 mil e descobrimos que o holerite estava adulterado", afirma. 

O principal objetivo de quem busca crédito na plataforma, explica, é a renegociação de dívidas de custo maior, como o rotativo do cartão de crédito e cheque especial,  por exemplo.

A plataforma libera empréstimos de R$ 2,5 mil a R$ 35 mil, sendo que os valores maiores são pedidos por pessoas físicas que também são empresários. De 30 mil pedidos cadastrados de julho a setembro, mais de 400 foram aprovados.

Do total, 16% dos pedidos de crédito partiram de pessoas que precisavam do recurso para quitar débitos da empresa. 

FOTO: Thinkstock