Finanças

Como proteger seu dinheiro em aplicações que seguem a inflação


Uma maneira de blindar parte do patrimônio é aplicar em investimentos atrelados a índices de preços. Mas eles também oferecem riscos. Saiba como evitar perdas


  Por Rejane Tamoto 05 de Fevereiro de 2016 às 09:00

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


A inflação oficial ainda deu não sinais de trégua para o investidor depois de ter encerrado 2015 em 10,67%. No patamar de dois dígitos, deixou um ganho real (descontado o índice de preços) muito pequeno para o investidor da renda fixa e até fez com que o dinheiro guardado na caderneta de poupança perdesse o poder de compra. 

Os sinais são pouco claros sobre quando a inflação deverá, de fato, desacelerar. Há economistas que acreditam que o desemprego e a recessão forçarão a queda dos preços.

E há os que acreditam que as medidas tomadas pelo governo ao estimular o crédito, além da difícil situação das contas públicas e a decisão do Banco Central de manter a taxa Selic estacionada em 14,25% ao ano, podem fazer com que os preços persistam em patamares elevados neste ano. 

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Diante da incerteza, especialistas recomendam que o investidor - de acordo com o seu perfil de risco - considere diversificar, que nada mais é do que distribuir o dinheiro guardado em aplicações de renda fixa com diferentes estratégias. 

"É preciso verificar se há perfil de risco. Se o investidor é muito conservador, prefere perder da inflação do que correr o risco de ver a rentabilidade negativa. Assim, deve permanecer em aplicações vinculadas ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário, taxa que segue a Selic)", diz Marcos Daré, presidente do comitê de Varejo da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). 

Carlos Ambrósio, vice-presidente da Anbima, afirma que a renda fixa está bem volátil, ou seja, com taxas que flutuam rapidamente, e por isso, o investidor deve verificar se realmente tem tolerância para aplicações que seguem a inflação.

"Como predomina a incerteza em relação à situação da economia, é importante diversificar. Quem tem prazo pode montar uma carteira de títulos públicos, e quem quer movimentar, pode avaliar os fundos de investimentos que acompanham os índices", diz.  

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Após fazer a Análise de Perfil do Investidor, ou suitability, o investidor deve estudar as diferenças entre as aplicações e avaliar os seus riscos. A seguir, quatro passos para fazer essa avaliação. 

ENTENDA O RISCO DA APLICAÇÃO 

Uma aplicação acessível, do ponto de vista do valor mínimo de entrada de R$ 30 é o título do Tesouro IPCA, que paga um rendimento pós-fixado (a variação deste índice) e mais um juro prefixado (definido no ato do investimento).

Com taxas atrativas à primeira vista, é uma aplicação que tem riscos e é preciso entendê-los. A cada dia o valor da taxa prefixada muda e isso reflete diretamente no preço do título naquele momento e, consequentemente, no rendimento para o investidor.

O risco aqui é o de precisar vender o título - porque esta é a única forma de resgatar o dinheiro investido antes do vencimento - em um momento desfavorável da taxa. Nesse caso, pode-se perder dinheiro.

Quem resgata o valor do título na data de vencimento -disponível para os anos de 2019, 2024, 2026, 2035 e 2050 - recebe o rendimento prometido. "É preciso tomar cuidado ao adquirir títulos que vencem em prazos longos, em 2024 em diante, caso precise resgatar o valor antes", afirma Mauro Calil, especialista em investimentos do banco Ourinvest.

SAIBA O QUE É MARCAÇÃO A MERCADO

Essa variação no preço e na rentabilidade dos títulos públicos leva um nome técnico, a marcação a mercado.

Em outras palavras, trata-se da atualização diária do valor dos títulos públicos (ou mesmo de outros ativos) que compõem um fundo de investimento.

Mesmo que o título tenha uma taxa determinada (pré ou pós-fixada), é preciso que esse valor seja atualizado diariamente, de acordo com as expectativas para as taxas no momento.

Esse método contábil de atualização da carteira é obrigatório em fundos de investimento e serve para se obter o valor justo da cota a cada dia, de acordo com essas oscilações de taxas, para o caso de resgates e novas aplicações.

Isso, no entanto, pode fazer com que um investidor retire menos do que aplicou, caso peça o resgate em um dia desfavorável.

"É como levar um balde de água fria dormindo. Para investir em fundo é preciso entender o que é esse método. Um exemplo: se a inflação está em elevação, a expectativa leva a marcação a mercado a derrubar o preço do título, mesmo que isso não tenha se concretizado. Se a inflação está em queda, o preço do título sobe. Então, é uma combinação da trajetória da taxa de inflação com a expectativa do mercado em relação a esse movimento", explica Calil. 

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DEFINA UM PRAZO

Ambrósio, da Anbima, lembra que tanto os títulos públicos como os fundos indexados têm volatilidade e o investidor precisa ter um horizonte de tempo de investimento ao entrar nessas aplicações.

"É necessário fazer a aplicação e, depois, uma revisão mais espaçada e não em movimentos curtos, para não mexer na hora errada. É difícil falar em prazo, mas acredito que não pode ser em um período menor do que dois anos", afirma. 

Para Calil, quem tem prazo curto para investir deve permanecer em aplicações que acompanham a Selic ou o CDI. 

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DETERMINE QUANTO INVESTIR E ONDE

Se o investidor tem perfil para esse tipo aplicação e um prazo de um a três anos, pode considerar destinar uma parcela de 20% a 30% em aplicações atreladas à inflação, segundo Calil.

"Há muitas opções além dos fundos e títulos públicos, como os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) de bancos, letras de câmbio e de crédito (imobiliário e do agronegócio). Os índices também não se restringem ao IPCA e há também aplicações que remuneram a variação do IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado)", afirma.

Nessas aplicações, explica, não há o efeito da marcação a mercado, mas atenção: há perdas caso o investidor queira resgatar o valor antes do prazo definido. "Há casas bancárias que não dão liquidez (a possibilidade de resgate antes do prazo) e outras dão, mas cobram penalidade e o investidor recebe menos do que o esperado", conclui Calil.

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