Finanças

Como o ‘open banking’ pode favorecer o pequeno comércio


Dados bancários e financeiros passariam a ser dos clientes, com melhores condições para negociar com os bancos preços cobrados por produtos e serviços


  Por Vitor França  22 de Outubro de 2018 às 08:00

  | Economista da Boa Vista SCPC


*com  Flávio Calife, economista da Boa Vista SCPC

Um dos grandes desafios na gestão de pequenos negócios no Brasil é a obtenção de crédito, especialmente para capital de giro.

De acordo com pesquisa realizada pelo Sebrae em 2017, 82% dos pequenos empresários entrevistados que procuraram instituições financeiras enfrentaram dificuldade para obter empréstimos, sendo que 43% apontaram as elevadas taxas de juros como o principal obstáculo.

Ao menos parte da explicação para as altas taxas de juros está no maior risco do segmento: segundo dados de agosto do Banco Central, a taxa de inadimplência das micro, pequenas e médias empresas estava em 5,3%, contra apenas 1% no caso as grandes companhias.

Quando são consideradas apenas microempresas e microempreendedores individuais, o índice de março (último disponível) superava os 10%.

As elevadas taxas de juros, por outro lado, acabam deixando bons pagadores de fora do mercado de crédito e, com isto, selecionando tomadores de maior risco.

Novamente de acordo com a pesquisa do Sebrae, 73% dos entrevistados recorreram a capital próprio ou lucro para financiar capital de giro, 27% usaram o cartão de crédito, 23% negociaram prazos maiores com fornecedores e apenas 18% utilizaram empréstimos bancários. A seleção adversa de maus pagadores tende a elevar as taxas médias de inadimplência.

Por trás das altas taxas de juros, dos elevados índices de inadimplência e da oferta escassa de crédito para pequenos negócios está a concentração de mercado em pouco bancos. Afinal, pouca competição tende a resultar em preços mais altos e menor oferta de produtos e serviços.

No caso particular do segmento bancário, a concentração de mercado cria ainda um problema adicional: enquanto as grandes instituições financeiras detêm uma valiosa massa de dados e informações a respeito do comportamento dos clientes – o que as ajuda a aprimorar a avaliação de riscos e a oferta de produtos –, empresas menores veem sua capacidade de competir limitada pela falta de informação.

Pensando nisto, com o objetivo de reduzir este problema informacional e incentivar a competição, o Banco Central anunciou recentemente sua intenção de implementar no país um modelo de ‘open banking’, sistema em que os dados bancários e financeiros passam a ser dos clientes –e não mais dos bancos.

A ideia é que, de posse de suas informações, o cliente passe a ter melhores condições para negociar com os bancos os preços cobrados por produtos e serviços.

Autorizados pelos clientes a acessar suas informações, diferentes competidores, por sua vez, podem ofertar produtos e serviços de acordo com o perfil dos clientes.

Sem dizer que, com todas as informações compartilhadas em um mesmo ambiente digital, aumenta tanto a capacidade de competir dos bancos menores e das fintechs como a conveniência para os usuários, que poderiam acessar e gerenciar serviços de diferentes prestadores a partir de uma única plataforma.

Com isto, pequenos comerciantes passariam a ter acesso a toda uma gama de produtos e serviços financeiros, de diversas instituições, poderiam comparar custos e benefícios e escolher, assim, o que melhor se adeque às suas necessidades.

No limite, o ‘open banking’ abriria espaço para o surgimento de instituições voltadas para públicos específicos, como aplicativos para pequenos negócios, por exemplo, que reuniriam os produtos e serviços de diferentes bancos mais adequados às necessidades deste nicho.  

O impacto da implementação do open banking no mercado brasileiro vai depender, é claro, do modelo a ser formatado pelo Banco Central.

Na Europa, por exemplo, a regulação estabeleceu que, já a partir do início deste ano, os bancos disponibilizassem os dados dos clientes de forma ampla e irrestrita.

Em Hong Kong, por outro lado, os bancos mantiveram a autonomia para definir com quem querem compartilhar os dados de seus clientes.

Diante dos maiores spreads do mundo, dos recentes avanços tecnológicos e da relevância crescente das fintechs, o momento atual é especialmente oportuno para a discussão do ‘open banking’ no Brasil, que, de certa forma, já ganha vida em alguns casos isolados (parcerias do Banco do Brasil com algumas fintechs para compartilhamento de dados, por exemplo), mas ainda carece de uma regulamentação que favoreça efetivamente o aumento da competição.

Um modelo de abertura ampla sem dúvida seria benéfico aos pequenos comerciantes brasileiros, que, uma vez donos de seus próprios dados financeiros, em um ambiente digital com informações bancárias plenamente compartilhadas, passariam a ter acesso a mais instituições financeiras e a uma gama maior de produtos e serviços, com maior conveniência, tarifas menores e taxas de juros mais justas.

IMAGEM: Pixabay