Finanças

Como a perda do grau de investimento afeta o seu bolso


As empresas que tomam recursos fora do país terão de pagar mais pelo crédito. Para as pessoas físicas, só aplicações pós-fixadas são as mais seguras


  Por Rejane Tamoto 09 de Setembro de 2015 às 20:34

  | Editora rtamoto@dcomercio.com.br


Apesar do rebaixamento feito pela Standard & Poor's, o Brasil ainda tem é classificado com o grau de investimento por duas outras agências internacionais: Moody's e Fitch. No entanto, a perda do selo de bom pagador pela S&P já deve gerar impactos no crédito a empresas, na cotação do dólar, na bolsa e nos juros - o que afeta as aplicações financeiras.

Para as empresas brasileiras, o custo do crédito sobe nas instituições financeiras internacionais. A mesma lógica se aplica àquelas que tem acionistas no exterior, que exigirão um retorno maior.

Segundo Samy Dana, professor de finanças da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV), se o país perder o grau de investimento mais uma vez, pela Moody's ou Fitch, os investidores institucionais e globais, como os fundos de pensão norte-americanos, serão obrigados a deixar de investir em papéis brasileiros.

"Esse movimento deve começar nesta quinta-feira (10/09), mas alguns devem esperar para ver se o Brasil será rebaixado por mais uma agência. De qualquer forma, podemos esperar que o dólar suba logo na abertura do mercado", afirmou.

Para o especialista em investimentos do banco Ourinvest, Mauro Calil, o dólar deve chegar a R$ 4,20 com a notícia do rebaixamento do Brasil. "Os fundos de pensão mais conservadores do velho mundo, como os de funcionários públicos da Inglaterra, Itália, Alemanha e França, devem retirar o dinheiro do Brasil já", afirma.

Segundo ele, cada fundo de pensão tem um estatuto diferente - em alguns só é proibido investir em países que perdem o grau de investimento de uma agência. Em outros, de duas agências. 

Com o dólar alto, a inflação deve disparar, já que os preços de importados se elevam e contaminam o de produtos locais. Assim, o poder de compra do dinheiro deve continuar diminuindo.

Na opinião de Calil, com isso, os juros devem voltar a subir - não só para conter a inflação mas também para manter a atratividade dos títulos brasileiros, que passaram a ser de maior risco.  

Ao mesmo tempo, o custo do crédito para companhias que captam recursos fora do país já ficará maior. "Nas empresas maiores, os acionistas estrangeiros vão requerer uma taxa de juros maior porque o risco aumentou. As pequenas empresas, por outro lado, já tomam crédito a um custo mais alto e isso não deve mudar", disse Dana.

O professor diz que a perspectiva em relação à taxa básica de juros (Selic) muda. A taxa ficou estacionada na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) em 14,25% ao ano, que ocorreu no começo deste mês.

Mas essa trajetória pode mudar, principalmente se o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) elevar a taxa de juros nos Estados Unidos na reunião que será realizada no dia 17 de setembro.

RENDA FIXA: RECOMENDAÇÃO É FICAR NO PÓS-FIXADO

"Se isso ocorrer será difícil a Selic permanecer no mesmo patamar e a tendência é que suba. Isso deve provocar o aumento nos juros dos títulos do Tesouro Nacional, que se tornam mais arriscados", diz. "Para o investidor brasileiro, no entanto, não há risco de não receber do governo, já que vivemos momentos piores na economia e não houve calote", afirma.

Para quem tem aplicações financeiras, de acordo com Dana, pode haver perdas dependendo dos ativos. Quem investe em fundos de ações pode ver o valor da cota cair por causa da queda da ação na bolsa de valores.

No caso da renda fixa, há chances de perdas caso a aplicação seja prefixada (com a taxa de juros definida no ato da compra).

"Não muda nada para quem está em aplicações pós-fixadas (que acompanham uma determinada taxa de mercado e cujo rendimento é definido no fim de um período)", completa Dana.

Calil também recomenda aplicações pós-fixadas nesse cenário, principalmente se o prazo do investimento é  de 12 meses. O título público com essa característica é o Tesouro Selic. 

A mesma regra vale para quem for investir em CDBs (Certificados de Depósito Bancário), em Letras de Crédito  (Imobiliário ou do Agronegócio). "É importante observar isso antes de aplicar e verificar os prazos das aplicações que estão na carteira", disse. 

Calil não recomenda a aplicação em títulos públicos que acompanham o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que pagam a variação da inflação e mais um cupom prefixado, a não ser que o investidor fique até o vencimento.

Com a expectativa de alta nos juros, as taxas fixas desses títulos podem mudar e proporcionar perdas ao aplicador que precisar resgatar antes do vencimento.

IMAGEM: Thinkstock

Atualizado às 22h15