Finanças

Comércio se opõe à proposta de fim do parcelamento sem juros


Financiamento concedido pelo setor varejista é responsável por mais da metade das compras realizadas no país. Em 2017, o parcelado sem juros movimentou R$ 400 bilhões


  Por Mariana Missiaggia 15 de Fevereiro de 2018 às 08:00

  | Repórter mserrain@dcomercio.com.br


Parcelar compras em doze meses sem juros poderia deixar de ser uma opção para os consumidores brasileiros. 

No início do ano, empresas de cartão de crédito propuseram ao Banco Central (BC) acabar com a prática do parcelamento sem juros.

No lugar dessa modalidade, seria criado uma espécie de crediário para que o consumidor continue a pagar suas compras em parcelas.

Como contrapartida ao varejo, as empresas de cartão de crédito ofereceram reduzir de 30 para cinco dias o prazo para pagar os lojistas.

A proposta faz parte de uma série de medidas apresentadas pelas bandeiras, ainda em 2016, sob a justificativa de reduzir custos e aproximar o modelo brasileiro de pagamentos do padrão internacional.

ROCHA PERDEU MAIS DE R$ 1 MILHÃO
COM CHEQUES DEVOLVIDOS

Entidades ligadas ao comércio estão se posicionando contra a possibilidade do fim do parcelamento sem juros no cartão.

Para elas, esse modelo já está enraizado no mercado brasileiro e traz mais praticidade aos consumidores e lojistas.

REAÇÃO DO COMÉRCIO

Se adotado, o modelo de parcelamento com juros trará muita dor de cabeça para Marcílio de Brito Rocha, 36 anos, proprietário da loja de bolsas Anny Bijuterias, na rua Comendador Abdo Schahin.

Há dois anos, ele deixou de aceitar cheques. A decisão veio depois de acumular mais de R$ 1 milhão em cheques devolvidos em menos de um ano.

Hoje, cerca de 60% de seus clientes optam pelo pagamento parcelado, mesmo com a oferta de desconto de 10% para compras acima de R$ 1 mil.

Para Domingos Barbosa, gerente da Rubi Ótica, na rua São Bento, região central da cidade, a aprovação de uma proposta como esta é a pior coisa que poderia acontecer com o comércio em 2018.

De acordo com o comerciante, a opção do parcelamento de até dez vezes sem juros é mais que uma facilidade. Na maioria das vezes, essa é a única maneira para um cliente adquirir um bem importante, como, por exemplo, os óculos de grau, segundo Barbosa.

“A cobrança de juros não apenas dificulta, mas deve impedir muitas famílias de comprar o que necessitam, além de prejudicar o comércio”, afirma.

Para Sabrina Ribeiro, 35 anos, sócia-proprietária da Dona Carlota, na região da avenida Paulista, o fim do parcelamento sem juros vai reduzir o poder de compra do consumidor, dificultar a negociação entre cliente e comerciante, assustar os consumidores e forçar o comércio a aceitar cheques.

“A justifica de juros embutidos não procede. Aqui na loja fazemos parcelamento sem juros, e à vista damos desconto de 5% a 10% dependendo do valor”. “Além disso, as taxas já são pagas. E as operadoras ganham dos dois lados”, diz.

SILVA, GERENTE DA DOURAL:
MEDIDA PREJUDICARIA AS VENDAS

João Carlos Silva, 32 anos, gerente da Doural, na rua 25 de Março, acredita que se vingar, a novidade irá piorar ainda mais a situação do comércio, podendo fazer, inclusive, com que muitos lojistas voltem a aceitar o cheque como pagamento, mesmo sem a segurança do recebimento do valor vendido.

Hoje, cerca de 70% das compras realizadas na Doural são feitas na modalidade de parcelamento sem juros.

“Com a crise instalada, e em ano de Copa do Mundo e eleição, esse tipo de notícia nos afasta ainda mais da possibilidade de recuperação da confiança do consumidor”, diz.

Marcel Solimeo, economista-chefe da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), não acredita na regulamentação da proposta.

Na opinião do economista, o assunto é complexo para ser definido sem um estudo aprofundado e num momento em que o varejo ensaia um tímida recuperação. 

"O parcelamento sem juros surgiu como uma alternativa ao cheque pré-datado, para dar mais segurança (ao comerciante). A modalidade já está consagrada e funciona bem", diz 

Para a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), “cabe aos varejistas definir suas práticas de negócio, portanto, quem deve definir como cobrar é o próprio comerciante – considerando sua capacidade, seus parceiros e a necessidade e conveniência de seus clientes”, diz a entidade em nota.

Em um recente artigo publicado no Diário do Comércio, o economista Vitor França alerta que a medida, se fosse aprovada, representaria uma pedra no caminho da recuperação ainda incipiente do consumo.

"Uma vez que o parcelamento sem juros parece profundamente enraizado nos hábitos de consumo do brasileiro, o fim do parcelamento no cartão de crédito poderia estimular a volta do já quase extinto cheque pré-datado, acarretando em maiores custos de compensação e liquidação, estimulando a informalidade e elevando a inadimplência dos lojistas", afirma França.

FOTOS: Thinkstock e Mariana Missiaggia/Diário do Comércio