Finanças

Aplicação em fundos multimercado bate recorde e indica apetite ao risco


Nessa modalidade, teoricamente, é possível obter retornos maiores do que apenas com a renda fixa, mas sem todo o risco de investir unicamente em ações


  Por Estadão Conteúdo 11 de Dezembro de 2017 às 11:47

  | Agência de notícias do Grupo Estado


A queda da taxa básica de juros na economia, a Selic, levou o investidor a partir para aplicações de maior risco. Dentro dessa categoria, os fundos multimercado são os preferidos e registram captação recorde neste ano. Eles misturam em um mesmo pacote renda fixa, ações, moedas e commodities. 

Até novembro, a aplicação captou R$ 91,7 bilhões, praticamente o total acumulado por toda a indústria de fundos no ano passado, R$ 95,2 bilhões, segundo dados da Anbima, associação que representa entidades do mercado de capitais no País.

No total, a indústria de fundos já atingiu o patrimônio líquido de R$ 4,1 trilhões neste ano, e obteve captação histórica, até novembro, de R$ 232 bilhões.

Dentro do setor, os fundos de multimercado ganharam a preferência, justamente por serem considerados um pontapé na renda variável. Nessa modalidade, teoricamente, é possível obter retornos maiores do que apenas com a renda fixa, mas sem todo o risco de investir unicamente em ações, por exemplo.

"Grande parte do volume que não vimos nos anos anteriores e que ia para títulos do Tesouro, por exemplo, agora vai para produtos com mais apetite ao risco, como os fundos multimercado", diz Carlos Ambrósio, vice-presidente da Anbima. Outro combustível para os ganhos, segundo ele, é a capacidade de poupança maior do brasileiro, por conta da queda da inflação e da melhora na economia.

O investidor de alta renda - que têm mais de R$ 1 milhão disponível para aplicar - é, sobretudo, quem busca aplicações em fundos multimercado. Segundo a Anbima, 70% desses investidores optaram por esses fundos. No total, o aplicador de alta renda injetou R$ 71,4 bilhões no mercado de fundos até outubro.

Entre os investidores com menos de R$ 1 milhão, a preferência ainda é pela modalidade de renda fixa, que responde por 83% da captação. O multimercado fica em segundo lugar e representa 15% do total captado dentro desse perfil.

O investidor com menos de R$ 1 milhão aportou R$ 69,6 bilhões até outubro - bem mais que os R$ 11,9 bilhões captados em todo ano passado. Segundo Ambrósio, esses investidores partiram para uma gestão mais ativa, ou seja, em vez de aplicarem sozinhos, optaram por fundos com estratégias que superem o indicador de referência.

Além do recorde de captação dos fundos multimercado, outro indicativo dessa propensão a ativos mais arriscados é a alta da captação dos fundos de ações. Esses fundos reverteram queda de R$ 4,1 bilhões em 2016 e registraram alta de R$ 10,1 bilhões até novembro desde ano.

Esses patamares devem seguir elevados no ano que vem, no entanto, é difícil prever se haverá outro recorde, explica Ambrósio. Ele pontuou também que esse cenário positivo para as captações depende também de condições favoráveis no mercado de modo geral, sem volatilidade, mesmo levando em conta que 2018 será influenciado pelo cenário eleitoral.

NOVA ESTRATÉGIA

Segundo o site Yubb, espécie de 'Buscapé' dos investimentos, de janeiro a novembro, a procura pelos multimercado aumentou em 167,43% em comparação com o mesmo período do ano passado. Por outro lado, as buscas por aplicações "queridinhas" dos brasileiro, como CDB e Tesouro Direto, tiveram redução de 52,73% e 38,64%, respectivamente. O levantamento do Yubb se baseia em dados da própria plataforma e também em outros dados disponíveis, como os do Google, a respeito de investimentos.

Bernardo Pascowitch, fundador do site, explica que esse aumento ocorreu em paralelo a queda de quase 50% da Selic e se deu sobretudo pelo investidor menor, que tem menos de R$ 1 milhão para investir.

O levantamento dos fundos multimercado feito pela Yubb a pedido do jornal O Estado de S. Paulo, aponta que os fundos mais buscados são da classificação multimercado Macro. De acordo com a Anbima, esses fundos realizam operações em diversas classes de ativos com estratégias de investimento baseadas em cenários macroeconômicos de médio e longo prazos.

Apesar de ser uma estratégia importante para conseguir retornos maiores, investir nesses tipos de produtos requer alguns sacrifícios do investidor. Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que esse produto, sobretudo pelos riscos, deve ser usado pelo investidor como uma estratégia de médio e longo prazo.

Outra dica é ficar em alerta em relação aos fundos muito expostos ao dólar, já que o ativo, em ano de eleição, costuma ter muitos altos e baixos. A especialista indica investir em produtos com juros, ações e commodities em sua composição.

MINICONTRATOS

Os minicontratos de dólar - um tipo de investimento do mercado futuro negociado em Bolsa - se popularizaram. Só neste ano, o volume de contratos negociados cresceu 45% em relação ao ano passado no País, destaca o jornal O Estado de S. Paulo. Esse é um produto usado para proteção em momentos de volatilidade. Um lado aposta na alta, o outro na baixa e, quem se der melhor, ganha a variação cambial do período.

Como o risco é alto, o produto não é indicado para iniciantes. Há alguns anos, as corretoras exigiam um investimento mínimo de R$ 2 mil, mas agora já é possível operar com valores em torno de R$ 100 - uma pequena fração do contrato padrão, de R$ 10 mil. A facilidade maior atraiu investidores inexperientes.

O assistente de logística Willian Nikio Doi começou a operar minicontratos de dólar em março de 2016. Antes, ele usou o simulador de uma corretora. "Ganhei muito dinheiro, mas também perdi bastante", diz. Ao fim das negociações, Nikio Doi contabilizou um prejuízo de R$ 7 mil. "Como eu era um trader (operador) iniciante, o fator psicológico pesou." Hoje, ele investe em ações e no Tesouro Direto.

Os minicontratos se baseiam na tentativa de prever para onde irá a cotação do dólar. Para isso, os investidores que acreditam na alta da moeda fazem contratos de venda e os que acreditam na baixa fecham contratos para comprar a moeda no prazo de um mês. Quem "acerta" a aposta, ganha a variação cambial.

No ano passado, o dólar à vista fechou cotado a R$ 3,25. Quase dois meses depois, havia caído para o valor mais baixo de 2017, de R$ 3,05. Em maio, atingiu o valor mais alto, R$ 3,39. E na sexta-feira, dia 8, estava a R$ 3,30.

O volume de contratos vem crescendo nos últimos anos. Para o economista Alexandre Cabral, o produto está se consolidando e as corretoras foram fundamentais para a sua popularização. "Houve um grande esforço das corretoras para atrair investidores. Com os juros em queda, aumenta a busca por investimentos mais ?nervosos?."

Neste ano, o número de contratos de minidólar negociados na Bolsa já soma 266,9 milhões, alta de 45% ante 2016. A expansão é atribuída ao interesse do investidor especulativo, atraído pela redução dos custos de operação. As corretoras cobram geralmente R$ 3 por operação em ações. No minicontrato, esse custo é de R$ 0,09.

"O minicontrato também pode ser usado para fazer proteção cambial (hedge), mas nos últimos anos percebemos a entrada grande de pessoas que estão especulando", diz o coordenador do laboratório de finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA), Evandro Siqueira.

Em 2018, ele acredita que o interesse continue alto nessa modalidade de investimento, já que com as eleições espera-se um dólar mais volátil. "O problema é quando investidores inexperientes operam minicontrato e, por falta de conhecimento, assumem muito risco."

PREVENÇÃO

Para evitar que o investidor inexperiente assuma riscos acima do limite, ou seja, negocie mais contratos do que a capacidade financeira de arcar com prejuízos, as corretoras investem em sistemas de controle. A XP Investimentos tem em sua plataforma um simulado de minicontrato de dólar. O investidor recebe as informações em tempo real para entender o funcionamento do mercado e saber se quer operar com esse tipo de produto.

Fabrício Tota, da Socopa, indica ao interessado em operar minicontratos que procure orientação. "E para quem quer investir em ativos relacionados ao câmbio, existem opções, como os fundos de investimentos atrelados ao dólar", destaca Tota. Segundo a Anbima, os fundos cambiais acumulam rentabilidade de 3,05% no ano.

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