Finanças

A revolução digital vai matar o cartão de plástico?


"Não", disse Ken Chenault, CEO da Amex na NRF 2016, a convenção americana do varejo. Em vez disso, as companhias de cartão de crédito estão se adaptando ao novo mundo


  Por Sérgio Teixeira Jr. 20 de Janeiro de 2016 às 13:00

  | Jornalista especializado em tecnologia e negócios, vive em Nova York (EUA)


A American Express foi fundada em 1850 e, em seus primeiros 40 anos de existência, a empresa atuava no segmento de transportes de mercadorias e valores.

Foi só em 1891 que a companhia lançou os traveler’s cheques, uma espécie de garantia de crédito que foi o embrião do negócio pelo qual a companhia é conhecida hoje.

A American Express, com seus ubíquos cartões verdes, é a 22ª marca mais valiosa do mundo, segundo o mais recente ranking da revista Forbes (a primeira colocada é a Apple).

E quem tem mais mais de 30 anos não pode se esquecer de um dos slogans mais célebres da história da publicidade: “Não saia de casa sem ele”.

O slogan foi criado em 1975, pelo lendário publicitário David Ogilvy. Mas hoje, em 2016, a American Express está vislumbrando um futuro em que as pessoas saiam de casa sem ele.

A revolução digital virou de cabeça para baixo tudo o que diz respeito ao varejo: da instilação do desejo à própria necessidade de ir a uma loja.

O último bastião a resistir bravamente nas práticas do século passado é o pagamento –ou era. Empresas como Apple e Google, que dominam o mercado de software para celulares, já permitem que os usuários paguem suas compras com o smartphone, usando os serviços Apple Pay e Google Wallet.

O próximo passo será o pagamento por meio de dispositivos de vestir, como os relógios inteligentes. O que será das empresas de cartão de crédito?

Para Ken Chenault, não haverá mudanças tão drásticas como muitos imaginam. “Não acredito que o plástico vá desaparecer”, disse Chenault na abertura do terceiro dia do Big Show, a convenção dos varejistas americanos, em Nova York.

Não é para menos: Chenault é desde 2001 CEO e presidente do conselho de administração da American Express. Em uma conversa com Terry Lundgre, CEO da Macy’s, Chenault, que trabalha na Amex há 35 anos, descreveu um cenário em que as empresas de cartão não vão cair na obsolescência.

Mas isso não quer dizer que não existam desafios, muito pelo contrário.

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que todos os sistemas de pagamento móvel exigem um cartão de crédito ou débito.

O que muda de fato é o mecanismo do pagamento: em vez de passar o cartão na leitora, basta aproximar o smartphone para que a transação seja completada.

O procedimento é mais simples e mais rápido, mas Visa, Mastercard e American Express continuam responsáveis pela movimentação do dinheiro nos bastidores (e Apple e Google ficam com uma pequena porcentagem da transação).

Um exemplo mencionado mais de uma vez por Chenault foi o do Uber. Quem já usou o serviço sabe que um dos grandes prazeres de andar de Uber tem menos a ver com a limpeza ou a qualidade dos carros e mais com um detalhe singelo, mas crucial: quando se chega ao destino, não é preciso fazer nada.

CHENAULT, DA AMEX: DESAFIOS

Basta agradecer o motorista, abrir a porta e descer. As informações do cartão já estão cadastradas junto ao Uber, que faz o débito automaticamente. O ato de pagar simplesmente desaparece.

A American Express tem um acordo com o Uber nos Estados Unidos. Todas as viagens feitas com o aplicativo recebem duas vezes os pontos do programa de fidelidade.

Para a Amex, não importa que o ato de pagar seja invisível – desde que o cartão cadastrado no Uber seja verde. Ou cinza, ou dourado, ou platinado.

Ou preto, caso o cliente gaste mais de 21 000 dólares por mês. “O que importa é nosso relacionamento com nossos clientes.
Se o que fizermos for simplesmente intermediar o pagamento, nos tornamos uma commodity”, disse Chenault. “Do ponto de vista do formato, pouco me importa se o plástico desaparecer. Nossos clientes continuam acumulando e usando seus pontos do programa de fidelidade pelo celular.”

Lundgren então fez a pergunta que estava na cabeça de muitos dos presentes: o que acontece com a marca da empresa num mundo em que os cartões de crédito não saiam mais da carteira, ou talvez nem sequer existam mais?

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“Como a American Express vai estar na cabeça dos consumidores se ela não está mais no bolso?”, perguntou o CEO da Macy’s.
Depois de alguns rodeios, Chenault voltou ao tema dos serviços, e fez uma observação importante: os pontos mais importantes da transição para a “carteira digital” têm menos a ver com a comodidade e a simplicidade e mais com as vantagens claras que o usuário vai enxergar na novidade.

Ou seja, se passar o cartão na leitora ou sacar o celular dá no mesmo, não há grandes incentivos para mudar.

Respondendo a uma pergunta da plateia, Chenault também falou sobre as criptomoedas, cujo exemplo mais conhecido é o Bitcoin.

Ele afirmou que a empresa está “interessada” na tecnologia, mas que muitos dos problemas que ela resolve já foram solucionados com os cartões de crédito.

“Além disso, temos sistemas de autorização, análise de crédito, controle de fraudes. Ao analisar as criptomoedas, é essencial ter em mente os riscos. Mas acreditamos que elas têm grande potencial tecnológico.”

FOTO: Thinkstock