Economia

Varejo deve encerrar semestre melhor que o esperado


Consumidor mais adaptado à pandemia e fusões e aquisições têm ajudado, segundo empresários e economistas que avaliaram a conjuntura em reunião on-line da ACSP. Mas abre-e-fecha do comércio é ponto de atenção


  Por Karina Lignelli 28 de Maio de 2021 às 15:57

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Após patinar no primeiro trimestre, com a necessidade de retomada das medidas restritivas, o varejo ensaia recuperação com ajuda de alguns fatores, como a adaptação do consumidor à pandemia, o e-commerce e a expansão do movimento de fusões e aquisições para ampliar a gestão de dados dos clientes (CRM).  

A avaliação, dos empresários e economistas presentes à reunião on-line de Avaliação de Conjuntura da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) realizada na última quinta-feira (27/05), reforça a expectativa de um 1° semestre com resultado positivo, com projeção de alta de 3,2% em junho ante igual período de 2020.  

A pedido da ACSP, os nomes dos participantes dessa reunião não são divulgados.

Segundo um especialista em varejo presente à reunião, uma das explicações é a 'consolidação do varejo', em que o mercado assiste à incorporação de grupos médios ou varejistas on-line por grandes varejistas.  

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Como a compra recente do e-commerce de moda Dafiti pela Renner, por exemplo. "Essas varejistas que trabalham somente on-line geralmente dão prejuízo, mas possuem CRMs fabulosos que valem milhões." 

Apesar de por enquanto estar restrito aos grandes grupos, esse movimento de incorporação em busca de dados de clientes será o 'petróleo de 2021 para o varejo', destacou o especialista, citando a NRF.

"Pequenos lojistas, sem ajuda em plena pandemia, já estão desaparecendo. Entre médios e grandes, quem tiver um bom cadastro, vai sobreviver. Quem não tiver, vai se perder ou sumir."  

No âmbito do e-commerce, 2021 começou bastante 'agitado', segundo um especialista do setor, que citou dados da Ebit/Nielsen: as compras virtuais cresceram 38% só no primeiro trimestre, atingindo R$ 23 bilhões em faturamento comparado a igual período de 2019, já que em 2020 era início da pandemia e da quarentena. 

Essa adaptação ao cenário de compras on-line puxou o crescimento forte em cima de outro período forte, afirmou, com alta de 16% no tíquete médio, e 20% no número de pedidos, que atingiram 50 milhões. 

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O especialista em e-commerce destacou também que boa parte desse faturamento foi puxado pelo comércio crossborder, ou seja, de compras em sites internacionais, que cresceu 76% em 2020 e mantém a alta.  

"Um dos impactos da pandemia no Brasil foi a aceleração do e-commerce, que ampliou sua participação em 4 pontos percentuais e chegou a 10%", disse, mesmo share dos Estados Unidos cinco anos atrás. 

A maior demanda por estoques e a diminuição da poupança, assim como a recuperação da economia global, que favoreceu os preços internacionais, também ajudaram a melhorar o consumo na primeira parte de 2021. 

Todos os fatores acima têm, favorecido não só os indicadores do varejo, mas também da indústria e até dos serviços - o que reforça a resiliência da economia na crise, disse um economista presente à reunião. 

Tirando o efeito base de comparação fraco de 2020, as projeções de crescimento do PIB para os próximos meses continuam mantidas, representando praticamente uma estabilidade, destacou. 

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"Não é o caso de comemorar, mas felizmente os indicadores de atividade e do comércio vêm aparecendo bem melhores do que se prognosticava em 2020."

Mesmo assim, é preciso atenção, pois o cenário ainda é complexo: há muita incerteza quanto à evolução da vacinação e da pandemia, que podem acarretar novas ampliações dos protocolos de isolamento, alertou.  

INDÚSTRIA SE PREPARA PARA 2° SEMESTRE 

O setor industrial segue em 2021 com recuo no nível de atividade menor que o esperado: segundo outro economista presente à reunião, a queda de sazonalidade em março sobre fevereiro ficou em apenas -2,4%. 

Porém, assim como o varejo, e devido aos impactos da pandemia, o setor comparou o primeiro trimestre com igual período de 2019, revisando a projeção de 4,4% de alta para 2,6%.

"É uma taxa de expansão menor, mas não deixa de ser favorável", destacou o economista

A explicação para a melhora é o desempenho da massa salarial que, menor, acabou levando ao consumo da poupança acumulada. Assim como já citada adaptação dos consumidores à pandemia, que reduziu os impactos financeiros da segunda onda, como aconteceu em outros países.  

A busca por menos serviços, e mais produtos essenciais, fez indústrias como a extrativa, de minério de ferro, por exemplo, crescer 51,3% no primeiro trimestre em valor, e a de transformação subir 15,6%.  

As exportações industriais foram puxadas pelo crescimento da economia americana, segundo o economista, pelo aumento da demanda na Argentina, e pelo efeito multiplicador do agro no setor de máquinas. Aqui, a produção de caminhões subiu 83,9% no 1° quadrimestre ante igual período de 2020, e 35,1% sobre 2019. 

Porém, o economista apontou que 67% das empresas têm se defrontado com a dificuldade na compra de matérias-primas e de componentes, de acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) - o que já pode gerar risco de alta nos custos e repasse gradual de preços. 

Mas o setor se prepara para o crescimento da economia global no 2° semestre que, segundo projeções do FMI, deve crescer 6%, lembrou. "O mercado interno também deve melhorar com o avanço da vacinação e o fim das medidas restritivas, mas continua no radar uma terceira onda, com o surgimento de novas cepas." 

ALTOS E BAIXOS DO AGRO

Os bons resultados do agronegócio continuam, mas não dá para fugir do clima. Segundo um representante do setor que participou da reunião, a falta de chuvas em regiões do Centro-Sul, em estados como Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo provocarão uma quebra significativa na safra de milho de 2021. 

A seca atrasou em um mês o plantio de milho e soja no verão, e do milho no inverno, com possibilidade de perda de 20% da safra e causando grande 'desconforto' nas indústrias, afirmou. Uma praga nova, a cigarrinha, também será responsável pela perda de 6 milhões de toneladas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. 

Ainda que o Brasil tenha sido o único país a expandir sua produção do grão para 100 milhões de toneladas em dez anos, essa é uma questão gravíssima: com a pandemia, aumentou a demanda pelo milho em regiões como Europa e China, e pode faltar produto. "Ele é o principal grão para produção de proteína animal", destacou. 

Porém, mesmo com as questões pontuais, o milho segue com três anos de preços favoráveis no mercado externo, segundo o especialista. Assim como os setores de pecuária e cana de açúcar, que registram grande expansão mesmo com a seca recorde, a mais grave desde 1941, disse outro empresário do setor.  

Quanto aos preços, esse empresário afirmou que o 'estrago' que a agricultura podia ter causado na inflação com a alta já foi assimilado, e alguns deles tendem a se acomodar. "Mas não a níveis anteriores", disse.  

O empresário sinalizou outro ponto de destaque do agro brasileiro: mesmo com clima tropical, o Brasil virou grande exportador de vinhos, uvas e agora, de maçãs, planta típica de climas temperados, cultivadas no Sul. 

"Já estamos competindo com o mercado internacional, e com resultados inexoravelmente positivos."

FOTO: Rovena Rosa / Agência Brasil






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