Economia

Turbulências internas também provocam flutuações do câmbio


O endividamento público crescente e as incertezas quanto às eleições são apontados por economistas da ACSP como estímulos para a valorização do dólar frente ao real


  Por Instituto Gastão Vidigal 23 de Maio de 2018 às 18:44

  | Da equipe de economistas da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)


Dois fatos, intimamente relacionados, chamaram a atenção na semana passada: a depreciação do real frente ao dólar e a manutenção da taxa de juros básica (Selic) por parte do Banco Central.

No primeiro caso, pode-se afirmar que a moeda brasileira seguiu o movimento observado nos demais países emergentes, frente ao cenário provável de um maior número de aumentos na taxa de juros norte-americana.

Esse cenário se explica pela maior expectativa de inflação nos Estados Unidos, decorrente da redução de impostos, do aumento de gastos públicos, da saída unilateral deste país do acordo com o Irã, o que tende a elevar o preço do petróleo, além da aceleração das vendas do varejo.

A mera expectativa de maiores juros internacionais tende a afugentar capitais financeiros das operações de curto prazo em mercados como o brasileiro, o que tende a reduzir a entrada de dólares, elevando seu preço, representado pela taxa de câmbio.

Contudo, tratando-se do real, essa é só parte da história, pois a elevação da cotação da moeda estrangeira também obedeceu ao maior risco país percebido pelos investidores estrangeiros.

O endividamento público crescente, sem que se visualize solução na forma de uma reforma previdenciária, foi o principal fator pelo lado econômico, enquanto a grande incerteza política e a falta de compromisso dos principais candidatos à eleição presidencial com essa reforma também ajudaram a elevar a percepção de risco.

O Banco Central reagiu à depreciação do real mantendo a taxa SELIC em 6,5% ao ano, surpreendendo a maioria dos analistas de mercado, que apostavam em uma última redução de 0,25%.

Na avaliação do Comitê de Política Monetária (Copom) o real mais depreciado geraria pressões de custos, que elevariam a inflação, e, por isso, seria prudente manter o custo do dinheiro no atual nível.

Ainda que a política de juros aponte para o cenário de inflação do próximo ano, pois as mudanças na taxa básica demoram vários meses para afetar a economia, a reação da autoridade monetária gerou “ruído” desnecessário.

Além disso, a lenta recuperação da atividade e o elevado nível de ociosidade contribuirão para arrefecer o aumento dos preços em 2018, o que, a partir da correção monetária, tende a transmitir-se para a inflação do próximo ano.

Vale lembrar que o regime cambial adotado é do tipo flutuante, o que implica que a intervenção da autoridade monetária no mercado de moeda estrangeira deverá ser pontual e não sistemática, unicamente para reduzir volatilidades excessivas.

Nesse sentido, não se pode deixar de mencionar que a perda de valor da moeda brasileira ocorrida nos últimos meses aumentou a competitividade de vários setores ligados à indústria, o que favorece a retomada do crescimento econômico.

Vivemos tempos de turbulências externas e internas, que tenderão a provocar novas flutuações da taxa de câmbio.

Seria importante que o Banco Central minimize o grau de discricionariedade da política monetária, evitando, assim, aumentar o já elevado nível de incerteza do cenário político-econômico.

LEIA ANÁLISE COMPLETA DA ACSP

 

IMAGEM: thinkstock