Economia

Trump desperta o horroroso fantasma do protecionismo


Sobretaxa na importação americana de aço e alumínio atinge em cheio o Canadá e pode afetar em US$ 8 bilhões as exportações do Brasil


  Por João Batista Natali 05 de Março de 2018 às 15:20

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


A imensa confusão está criada, e até com alguns erros de apontaria.

Ao tentar impor uma sobretaxa de 25% sobre as importações americanas de aço e de 10% sobre as de alumínio, O presidente Donald Trump quis machucar a China, mas acabou atingindo o Canadá e o Brasil.

É o que afirmaram neste domingo (04/03) o Financial Times e o Wall Street Journal.

E os chineses, apesar de irritados com os riscos de protecionismo, foram sarcásticos por meio da mídia oficial.

O jornal Hanqiu (ou Global Times, na edição em inglês) disse que a China é apenas o 11º exportador de aço para os Estados Unidos. E que, ao procurar atingi-la, Trump quis em verdade se impor diante de tradicionais aliados.

O fato é que Trump não consultou o Partido Republicano no Congresso e nem mesmo sua assessoria econômica, ao anunciar na última quinta-feira (01/03) que decidira pela sobretaxa.

E nesta segunda-feira (05/03) o presidente deu novas provas de estar se movendo de maneira errática.

Depois de seu secretário do Comércio afirmar na véspera que nenhum país seria uma exceção, Trump digitou pelo twitter que poderia poupar o México e o Canadá, mas desde que ambos permitissem concessões aos norte-americanos no quatro da Nafta (zona de livre comércio da América do Norte).

Em outras palavras, o que poderia se assemelhar a uma pressão para negociações com as quais o Brasil, a Rússia e a Alemanha nada têm a ver (os três são os maiores exportadores de aço para o mercado americano) acabou se tornando um novo pesadelo no Congresso.

Isso porque os deputados e senadores de Estados de maioria republicana, no Centro-Oeste (o chamado Corn Belt) têm chiliques ao sentirem que o Nafta corre algum risco, já que México e Canadá são grandes compradores de grãos americanos.

Outro detalhe. Os republicanos, partido de Trump, são em sua esmagadora maioria partidários do livre comércio e da preservação das tarifas em patamares bastante baixos.

O Washington Post diz que há no Congresso um sentimento de perplexidade. Ou mais que isso. Os parlamentares estão “apopléticos”, diante da quebra de regras comerciais que políticos e economistas sabem perfeitamente que são benéficas para todos, dentro e fora dos Estados Unidos.

O ALTO PREÇO DO PROTECIONISMO

Esses episódios comprovam o quanto governos e economistas estão chocados com a tentativa de Trump de impor ao comércio mundial uma onda inesperada de protecionismo.

Com relação ao aço e ao alumínio, o Brasil já calcula seus prejuízos com o fechamento parcial das fronteiras americanas.

Pelas estatísticas do Instituto Aço Brasil, no ano passado o país exportou para os EUA 15,4 milhões de toneladas do produto, no valor de US$ 8 bilhões.

Por sua vez, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula em US$ 144 milhões as exportações brasileiras de alumínio na direção do mesmo cliente.

Ainda no Brasil, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse que medidas protecionistas seriam ruins para a economia brasileira, mas que o mesmo aconteceria com a economia americana.

Em entrevista à rede CBN, ele também afirmou que uma guerra tarifária não é de interesse de ninguém. “Vai ter preços mais caros, tudo vai ter uma tarifa a mais.”

Suas preocupações vão mais ou menos no mesmo sentido que as expressas pelo FMI.

A ameaça de protecionismo também redirecionou a pauta de uma comitiva de primeiro nível que o Brasil envia, nesta terça, aos Estados Unidos.

Os ministros Henrique Meirelles, da Fazenda, Dyogo Oliveira, do Planejamento, Fernando Coelho Filho, das Minas e Energia, e Maurício Quintella, dos Transportes, viajariam em busca de investimentos.

Agora também tentarão – se é que isso é possível – sondar sobre a possibilidade de mudança no plano de sobretaxa da Casa Branca.

O QUE PASSSA PELA CABEÇA DE TRUMP

No final de janeiro o presidente americano deu uma avant-première do que viria pela frente.

Anunciou sobretaxas sobre painéis de células fotoelétricas (produção de eletricidade com a luz do sol), sobretudo produzidas pela China, e sobre máquinas de lavar roupas, importadas aos milhões da Coreia do Sul.

A Casa Branca acreditava que, com isso, protegeria os interesses dos produtores americanos, submetidos a uma suposta concorrência predatória por parte de concorrentes com mão de obra mais barata e moedas subvalorizadas no momento de suas exportações.

De certo modo, lembrou nesta segunda-feira a BBC, Trump bateu nessa tecla durante a campanha eleitoral de 2016. A emissora britânica lembra uma visita que o então candidato presidencial republicano fez à cidade de Monessan, na Pensilvânia, onde uma siderúrgica que chegou a empregar 40 mil operários empregava, agora, apenas 7 mil.

Mas o mesmo Trump afirmava na época que os empregos do setor automobilístico americano estavam sendo canibalizados pelo México.

Uma reportagem da revista Economist, no entanto, demonstrava que os operários cumpriam há duas décadas tarefas hoje desempenhadas por robôs.

A culpa então não era dos mexicanos, mas de um novo e sofisticado momento no processo de automação eletrônica.

O fato é que a confusão está agora criada. A China afirma que não permanecerá impassível.

Ela pode estar dizendo muitas coisas, inclusive a possibilidade de se desfazer de suas reservas cambiais em dólar (é ela que financia em grande parte a dívida pública americana, por meio de títulos do tesouro).

Se isso acontecesse, o mundo mergulharia numa depressão, com o dólar desvalorizado ao extremo e com alta inflação nos Estados Unidos.

Mas digamos que as respostas em estudo sejam todas elas mais sensatas. A União Europeia já anunciou o plano de sobretaxar calças jeans e motocicletas norte-americanas.

E se, em resposta, Trump sobretaxar os automóveis que a Europa vende no mercado americano? Nada indica que isso ocorrerá, a não ser na atual escalada verbal.

A verdade, no entanto, é que o comércio mundial – Trump despreza organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio – atravessa um momento de turbulência.

O mais prático seria Trump recuar. Mas, com a microcefalia que o acometeu para determinados assuntos, isso acabaria desgostando os operários das siderúrgicas de Monessan, na Pensilvânia.

 FOTO: Fotos Públicas/Divulgação