Economia

"Temos que ser mais Brasil e menos Brasília"


Governos protecionistas e seus incentivos para (tentar) movimentar a economia deixaram o país mais pobre, aponta o economista Marcos Lisboa. Mas a mudança no debate e a agenda reformista estão no caminho para melhorar esse cenário


  Por Karina Lignelli 19 de Dezembro de 2019 às 07:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Por que o Brasil parou de crescer de forma sustentável há décadas? Depois da melhora com o Plano Real, há quase 30 anos, a culpa de o país ter chegado a um cenário de recessão econômica com altos níveis de desemprego e polarização política é "da esquerda" ou "da direita"? E por que, sendo um dos maiores emergentes, "empobreceu" em relação ao resto do mundo?

Foi com essas reflexões que o economista Marcos Lisboa, diretor do Insper, abriu sua palestra "Desafios da Economia Brasileira" apresentada no recente 7º Fórum de Desenvolvimento e Competitividade Empresarial da Distrital Sudoeste da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), coordenada por seu diretor-superintendente Ricardo Granja.  

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A alta dependência do governo, em sua opinião, é um dos principais fatores que fizeram o PIB do país estagnar em comparação aos emergentes fora da América Latina, que cresceram, em média, 12% nos últimos anos. Ou que a renda do trabalhador brasileiro tenha crescido apenas 18%, ante 35% nos países da OCDE ou 48% nos Estados Unidos.  

"O Brasil hoje é mais pobre hoje que em 2014, é um problema mais sério que um ou outro governo desastroso", diz. Para exemplificar, Lisboa cita diferenças - e semelhanças - entre governos identificados com as duas ideologias. 

De um lado, mandatários como Getúlio Vargas e JK, celebrados pela esquerda, um pela criação da CLT e a proteção aos trabalhadores, e o outro, pelo bom humor e a promessa de avançar "50 anos em 5" - mas que entregou o país com uma inflação de dois dígitos, moratória, recessão e uma crise que se alongou por 1961 (o fim do mandato), 62, 63... 

De outro, um governo comandado pelos militares e prestigiado pela direita, que apresentou agendas de crescimento da economia de 4%, 6% e 8% - mas, diferente de outros países, não fez ajustes internos penosos durante os "choques do petróleo", nos anos 70, e, ao final, devolveu o Brasil em uma grande recessão, com inflação estratosférica de 80%. 

"Esquerda e direita nunca discordaram muito (em termos econômicos), era uma visão meio consensual: éramos pobres porque éramos explorados, então era necessário proteger as empresas para que pudessem sobreviver", afirma. "Nada mais semelhante entre democracia e ditadura. Portanto, não é supreendente: deu no (desastre) que deu."

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Voltando aos dias atuais, o fato de o Brasil ter se tornado mais pobre hoje desde o Plano Real vai muito além de análises  superficiais e cansativas, como a velha alta dos juros ou o câmbio superdimensionado. Os problemas são bem mais rotineiros, conforme aponta o economista, como por exemplo, "parecer intuitivo" para o empresário gerar empregos do Brasil na China.

Mas esse é outro desastre: ligar custo a oportunidades. E, com isso, por aqui ficam pessoas paradas, fábricas paradas... "É inacreditável como as empresas ignoram fatos corriqueiros e pensam que se investirem aqui 'deixam de investir ali', porque 'o que eu deixar de investir o governo estimula'", afirma. "Ou seja, o Brasil faz um esforço danado para ser pobre."

Ele também cita os bens de capital, que são mais caros no Brasil e têm incentivos para protegê-los dos concorrentes externos ("se tivessem a mesma qualidade não precisariam de proteção", diz). Ou programas como o Inovar-Auto, criado para aumentar a competitividade da indústria automotiva no país reduzindo o IPI para os habilitados, mas fechando-a ao mercado externo. 

"Fechar a economia ao comércio global e criar incentivos é levar ao desastre", afirma. "Ao invés de produzir soja, eu levo recursos para outros lugares porque tenho subsídios - e o país fica cada vez mais pobre. Mas quando tenta abrir a economia para respirar, pouquíssimas empresas vão sobreviver em um mundo aberto. E você criou um inimigo."

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Lisboa também destaca que, por esses motivos, nenhum governo avançou no comércio exterior. E que também ainda fica supreso com questões ainda mais corriqueiras no dia a dia do país que contribuem para essa condição de "pobreza", como a venda de carro sem imposto, a fila preferencial, as meias-entradas... Tudo considerado normal pela sociedade como um todo. 

COTAIT (esq.), DA ACSP E FACESP, COM O SUPERINTENDENTE
GRANJA: MOMENTO DA 'VIRADA DE CHAVE' NA ECONOMIA

"Você não consegue desarmar essa série de gatilhos, não pode reduzir salários, não pode ser demitido... O estado do Rio Grande do Sul montou um orçamento sem reajuste salarial mas... 'no meu você não mexe!'. Ou: 'não vou reclamar da (reforma) da Previdência, mas logo na minha vez?'", lembrou o diretor do Insper, que ainda colocou outras provocações, como por exemplo se uma empresa "tem direito" a lucros, ou se o trabalhador privado "tem direito" a empregos.

"A política é um espelho da sociedade que nós somos. Vivemos num sistema disfuncional, num ninho de oportunismo que mais dia, menos dia, vai quebrar o país", alerta, reforçando que, para isso mudar, "temos que ser mais Brasil e menos Brasília." 

Mas o grande desafio no atual momento, segundo Lisboa, não é optar pela demonização nem pelas divergências políticas. Ou, nessa sociedade de extremos, não conseguiremos enfrentar nossos problemas, afirma. "O país fez suas escolhas ao longo da história. Mas se não houver capacidade de autocrítica, estamos condenados a repetir os mesmos erros do passado." 

BOAS NOTÍCIAS?

Mas assim como a máxima que diz que "brasileiro não desiste nunca", Marcos Lisboa afirma que não é preciso desanimar, pois boas notícias estão a caminho. Em sua avaliação, o debate mudou muito comparando o governo Dilma com o de Geisel e, portanto, sua esperança é que a década perdida (na economia) seja apenas uma (2011-2020)".

"Antes, quem falava da Reforma Tributária ou da Previdência? Poucos, e a outra parte falava menos do que deveria: afinal, é bom falar de reformas, mas é ruim custear os desastres. É preciso testar a sorte até o limite", afirma. 

Porém, as coisas mudaram, segundo o economista: o Congresso está diferente desde o governo Temer, pois conseguiu se articular num grande Centrão e, como novidade, assumiu o protagonismo e liderou a agenda de reformas. 

"O (presidente) Temer entregou a Reforma da Previdência de um tamanho, mas agora ela ficou três vezes maior. Também foi feita uma governança na Caixa Econômica, uma saneada nas estatais, acertou-se contas públicas... E mesmo assim continua a mesma liderança no Congresso, que mantém o compromisso de enfrentar os desafios do país", destaca. 

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Mas é preciso ficar atento: apesar da fase de euforia do mercado financeiro com o atual momento, a ponto de a Bolsa atingir os 110 mil pontos pela primeira vez na história no inicio deste mês de dezembro, o receio, segundo Lisboa, é que não se aproveite  esse momento para dar andamento a outras reformas - como a Administrativa, que esbarra em regras constitucionais para desvincular gastos do Orçamento. "Se a coisa parar, será preciso fazer ajustes duros mais para a frente." 

Por outro lado, o economista diz que, apesar dos alertas, ele está otimista com o atual momento, e acredita que, por meio de palavras, o engajamento do colegas e de empresários sensatos e comprometidos com o Brasil o cenário será outro. "O debate continua: temos que falar dos problemas, trazer dados e corrigir rumos para que dessa vez seja diferente de verdade."

Para Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), que também palestrou no encontro e disse estar "otimista" como o diretor do Insper, o ideal é acompanhar esse processo de perto. "Esse é o momento de virada de chave, do fim da dependência do estado. Só com esse ingresso na economia liberal é que país terá uma chance de maior desenvolvimento e de gerar negócios." 

FOTOS: Divulgação/Distrital Sudoeste