Economia

Temor de guerra cambial faz dólar subir e bolsa cair


A moeda norte-americana subiu 1,66% e terminou esta segunda-feira, 5/8, em R$ 3,9561, o maior nível desde 30 de maio


  Por Estadão Conteúdo 05 de Agosto de 2019 às 19:12

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O temor de uma guerra cambial na economia mundial fez o dólar fechar a segunda-feira, 5, no maior nível em mais de dois meses.

A moeda americana subiu 1,66% e terminou em R$ 3,9561, a cotação mais alta desde 30 de maio.

O nervosismo dos investidores foi reflexo da decisão da China de deixar o dólar romper a marca psicológica dos 7 yuans pela primeira vez desde 2008, movimento que levou o presidente americano a chamar Pequim de "manipulador cambial" e estimular a busca por ativos mais seguros.

A fuga de ativos de risco fez investidores saírem de mercados emergentes e buscarem proteção em ativos no Japão e Suíça e no ouro, que subiu.

Por isso, o dólar se enfraqueceu ante divisas fortes, mas se fortaleceu perante moedas de emergentes, como Colômbia (+2,2%), Índia (+2%), Argentina (+1,8%) e África do Sul (+1,1%).

Um dos reflexos da fuga do risco é que o Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil, termômetro do risco-país, subiu para 142 pontos-base na tarde desta segunda, de 132 pontos da sexta-feira.

"A reescalada da tensão entre Washington e Pequim continua a ser o combustível para um movimento de vendas maciças de ativos de risco", afirma a economista-chefe do grupo financeiro americano Stifel, Lindsey Piegza.

Para ela, a piora da tensão comercial entre as duas maiores economias do mundo corre o risco de se transformar em uma guerra cambial, o que contribui para enfraquecer moedas de emergentes e valorizar a de países desenvolvidos.
À tarde, o dólar bateu máximas, a R$ 3,9666, com a confirmação pelo Ministério do Comércio da China de que pode suspender novas compras de produtos agrícolas americanos.

Nesse ambiente de menos propensão a tomar risco, os estrategistas do JPMorgan alertam que as moedas de emergentes "parecem crescentemente mais vulneráveis".

Outro banco americano, o Morgan Stanley, ressalta que a alocação em moedas destas regiões, principalmente real, peso mexicano, lira turca e rand da África do Sul, caiu para 23% desde que o Fed se mostrou menos "dovish", na última quarta-feira (31) e Trump anunciou novas tarifas para a China (1º).

O aumento na volatilidade desde então mostra que cresceram os movimentos mais defensivos, aponta o banco americano.

A QUEDA DA BOLSA

A onda de aversão ao risco no mercado internacional não poupou a bolsa brasileira e o Índice Bovespa por pouco não perdeu o suporte psicológico dos 100 mil pontos, conquistado em junho, nesta segunda-feira, 5/8.

Novos sinais de deterioração das relações comerciais entre Estados Unidos e China derrubaram os preços das commodities e as bolsas de Nova York em mais de 3%, sem deixar chance para os papéis de países emergentes.

Com isso, o Ibovespa fechou aos 100.097,75 pontos, em queda de 2,51%.

A queda foi praticamente generalizada entre as 66 ações que compõem a carteira teórica do Ibovespa.
As exceções foram Marfrig ON (+1,03%) e IRB Brasil Re ON (+0,14%).

Profissionais nas mesas de renda variável relataram que as vendas foram claramente comandadas por investidores estrangeiros, tendo os brasileiros como principal contrapartida.

Depois de terem retirado R$ 6,5 bilhões da B3 em julho, o investidor não-residente iniciou agosto no mesmo ritmo.
Segundo dados da B3, no dia 1º o saldo líquido indicou saída de mais R$ 826,384 milhões.

"Não havia como o Ibovespa resistir ao movimento global, que foi bastante forte. Os índices setoriais das bolsas americanas registraram quedas expressivas ao longo da tarde, principalmente o financeiro e o de energia. Os pares brasileiros acompanharam e por isso vimos perdas tão fortes em Petrobras e Vale", disse Luiz Roberto Monteiro, operador da Renascença Corretora.

Os mercados amanheceram estressados depois que a China deixou o dólar romper a marca psicológica dos 7 yuans, o que não ocorria desde 2008.

Em consequência, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusou o país de "manipulação cambial".
À tarde, Trump disse no Twitter que a "histórica" manipulação cambial da China é uma prova de que os americanos não estão pagando pelas tarifas impostas sobre importações chinesas.

Ele voltou a acusar o governo chinês de utilizar manipulação do yuan e práticas comerciais injustas para "roubar negócios e fábricas, prejudicar os empregos, diminuir os salários e prejudicar os preços cobrados pelos fazendeiros" nos EUA.

Em queda firme desde a abertura, o Ibovespa atingiu a mínima do dia às 16h09, aos 99.630,09 pontos (-2,96%).
Naquele momento, as bolsas americanas ampliavam as perdas para além dos 3%, depois de o governo da China divulgar comunicado ameaçando adotar uma "suspensão de novas compras de produtos agrícolas dos EUA por companhias chinesas".

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