Economia

“Se a gente não fizer nada, a desigualdade vai aumentar”


O alerta é de Aline Cardoso, Secretária Municipal de Trabalho e Empreendedorismo, em palestra na Associação Comercial de São Paulo (ACSP)


  Por Wladimir Miranda 18 de Agosto de 2018 às 07:30

  | Repórter vmiranda@dcomercio.com.br


A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) trimestral divulgada nesta semana, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que no Brasil falta trabalho atualmente para 27,6 milhões de brasileiros.

O cenário fica ainda mais dramático com a constatação de que o número de desalentados, ou seja, de pessoas que desistiram de procurar trabalho, bateu novo recorde e chegou aos 4,8 milhões no 2º semestre de 2018.

Na região metropolitana de São Paulo, o exército de desempregados soma 1,8 milhão de pessoas. A questão é preocupante e complexa. A crise econômica que afeta o país há quase cinco anos é grave, mas é suficiente para deixar tanta gente fora do mercado de trabalho?

A verdade é que o mundo do trabalho mudou. As novas tecnologias, capazes de criar vagas, também eliminam tarefas antes executadas por homens e mulheres.

Foi para debater este tema, que o Conselho do Terceiro Setor da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) convidou Aline Cardoso, Secretária Municipal de trabalho e Empreendedorismo do Município de São Paulo para a palestra O Futuro do Trabalho.

Pós-graduada em Relações Internacionais, ela foi coordenadora de projetos na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação. Construiu sua carreira no fomento ao desenvolvimento econômico e geração de trabalho e renda.

A secretária Aline Cardoso disse que quando foi convidada pelo ex-prefeito João Doria para assumir o cargo, há um ano, decidiu pensar no futuro. "Percebi que se eu pensasse só no hoje, seria numa secretária do passado”.

Aline disse que estudos mostram que na Europa e nos Estados Unidos, 4% da população econômica ativa trabalha em plataformas digitais. “A economia digital é um meio, não é um fim. Cada vez mais teremos mais trabalho, e menos emprego”, disse ela, sobre um fenômeno já conhecido.

UM DOS TEMAS DEBATIDOS NA ACSP FOI A NECESSIDADE DE QUALIFICAÇÃO
EM UM MERCADO CADA VEZ MAIS TECNOLÓGICO

Aqui no Brasil, disse a secretária, em alguns setores, o processo de mudanças nas plataformas de trabalho ocorre muitas vezes de forma agressiva. Um dos exemplos é a "uberização" no transporte de passageiros.

“De uma hora para outra, sem outra alternativa, uma pessoa que perde o emprego, vira motorista de Uber. No início, a nova modalidade gerou conflitos com os taxistas. Mas hoje a situação está mais calma. Os taxistas estão menos incomodados”, lembrou.

QUALIFICAÇÃO

Um dos problemas que o Brasil enfrenta é a falta de mão de obra qualificada. Esse aspecto fica bem evidente quando órgãos públicos abrem postos para a captação de trabalhadores. “O Brasil não está acompanhando o desenvolvimento para qualificar mão de obra. Este é um grande problema”, afirma.

A expectativa para os próximos anos é que sete milhões de postos de trabalhos vão desaparecer, por conta da chegada de novas plataformas digitais.

As novas tecnologias introduziram novos conceitos ao nosso vocabulário. Quem está dentro ou fora do mercado de trabalho é bom ir se familiarizando com expressões como robótica avançada -tecnologia que possibilita a substituição de humanos por robôs em tarefas de produção -bem como em alguns serviços como limpeza e manutenção.

“Sete milhões de vagas vão sumir, enquanto serão criados apenas dois milhões de empregos na área digital. A população será prejudicada. Claro que o ser humano tem uma enorme facilidade para se adaptar. Mas temos de fazer alguma coisa para a corda não arrebentar do lado mais fraco. E a nossa secretaria está fazendo”, garante ela.

Para amenizar os problemas, a Secretaria Municipal de Trabalho e Empreendedorismo criou um setor para apoiar a qualificação de mão de obra.

“É necessário qualificar as pessoas. Qualificar e inspirar. Na maioria das vezes a pessoa que está fora do mercado de trabalho tem problemas de autoestima e precisa ser incentivada, impulsionada. Se a gente não fizer nada, a desigualdade vai aumentar. O objetivo é gerar inclusão social", disse.

Os jovens são uma preocupação. Segundo ela, 25% da nossa juventude pertencem ao "grupo dos nem-nem". Ou seja, nem trabalha e nem estudam.

"Esse quadro me assusta. Afinal, cabeça vazia é oficina do diabo, como já dizia a minha avó. Precisamos agir, para que estes jovens não sejam abraçados pelo crime organizado. Temos de buscar um futuro melhor. O diálogo social é a saída”, concluiu ela.

A sessão foi presidida por Roberto Mateus Ordine, vice-presidente da ACSP. Ele ressaltou a importância da palestrante. “A Secretária Aline Cardoso tem um currículo elogiável e conhece bem o assunto”, afirmou.

Para Marília de Castro, coordenadora geral do Conselho do Terceiro Setor da ACSP, “o importante neste momento de mudanças é a busca do conhecimento para superar os desafios deste constante progresso da tecnologia”.

Marilia é também presidente do Conselho Municipal de Emprego de São Paulo e conselheira do Conselho Estadual de Emprego do Estado de São Paulo.

Participaram do evento Bruno Maluly, Secretário Adjunto do Emprego e Relações de Trabalho do Governo do Estado de São Paulo; Moisés Lavelberg, presidente da Rebrates – Rede Brasileira do Terceiro Setor e Lucia Bludeni, presidente da Comissão do Terceiro Setor da Ordem dos Advogados do Brasil, de São Paulo.