Economia

Recuperação é certa, mas elevação de impostos ameaça


A tendência é positiva para setores e indicadores da economia, mas empresários temem que governo opte pela saída do aumento de impostos para equacionar as contas


  Por Redação DC 28 de Julho de 2017 às 08:00

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


Os números da primeira metade do ano mostram que a tendência de recuperação se consolidou, independentemente do desenrolar da crise política

O clima, porém, é de otimismo cauteloso. O que preocupa empresários que participaram de reunião mensal na Associação Comercial de São Paulo (ACSP) nesta quinta-feira (27/07) é que o governo escolha aumentar novamente impostos, como fez com o PIS/Cofins sobre combustíveis, para cumprir a meta fiscal deste ano. 

A elevação de tributos, na visão dos empresários, é uma ameaça à já comprometida competitividade do país ante concorrentes internacionais.

Uma estimativa mostra que o impacto da alta do imposto sobre o diesel foi de R$ 1,2 bilhão para exportadores de soja.

Uma alternativa à elevação de tributos seria o corte de gastos e adiamento do reajuste de salário dos servidores, de acordo com os presentes ao encontro denominado Comitê de Avaliação de Conjuntura da ACSP.

Trata-se de um fato negativo diante de um cenário de recuperação que se firmou ao longo dos últimos seis meses. 

A inflação oficial atingiu o patamar de 3% em 12 meses até junho, apoiando de forma consistente a redução dos juros básicos da economia, que voltaram ao patamar de um dígito nesta semana - de 9,25% ao ano -após quatro anos. 

É certo que esses indicadores são importantes alavancas para os setores da economia. Mas o ritmo de melhora depende de outros indicadores. 

A confiança do consumidor, por exemplo, ainda oscila. O Índice Nacional de Confiança  da Associação Comercial de São Paulo, medido pelo Instituto Ipsos, mostra que houve uma queda de 68 pontos para 63 pontos, na passagem de junho para julho. 

O percentual sinaliza que os consumidores ainda não vislumbram uma melhora do mercado de trabalho. Os dados indicam que a crise política interferiu mais no investimento e em novas contratações.

Neste mês, a população desocupada chegou a 13,8 milhões de pessoas, permanecendo estável em relação a fevereiro e crescendo 20,4% em relação a maio de 2016 (2,3 milhões de pessoas a mais).

Outros indicadores apresentaram um ponto de inflexão -ou seja, pararam de piorar, mas ainda levarão tempo para voltar a crescer, como as vendas do varejo e aqueles que medem a situação do emprego, do crédito e da produção industrial. 

A concessão de crédito continua restritiva nos bancos, diante do quadro ainda recessivo e da taxa de desemprego ainda elevada, segundo um representante do setor financeiro.

O spread (a diferença entre o que o banco paga para o investidor e o que cobra para emprestar ao cliente) está ainda muito elevada, especialmente para empresas. 

Em maio a taxa de ocupação registrava queda de 1,3%, sobre igual mês do ano passado.

VAREJO ZERA PERDAS EM 2018

O varejo deve zerar as perdas dessa prolongada crise apenas em fevereiro de 2018, quando a projeção  de queda atingirá 0,04%, de acordo com economistas da ACSP.

Ou seja, as quedas serão graduais, já que segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o varejo encerrou abril com declínio de 3,6% nas vendas.

A estimativa é que o setor só voltará a ter crescimento no patamar atingido em 2014 - que ainda assim foi de 2,2%, segundo o IBGE, o menor em uma década - em 2021. 

A retomada também será diferente, já que o setor terá de se adaptar a novos hábitos do consumidor, como o de comprar online e retirar na loja, por exemplo. 

Outro indicativo de redução gradual no declínio das vendas figura no índice Cielo de vendas do varejo que registrava queda de 3,7% em janeiro, percentual que foi reduzindo mês a mês até chegar a -1,6% em maio.

Segundo o indicador, os setores que têm recuperado o fôlego são as drogarias, empresas ligadas ao turismo nacional e transporte. 

O segmento de farmácias, além de bom desempenho nas vendas, com crescimento de 7,8% em junho puxado por medicamentos, também registram a expansão no número de lojas de grandes varejistas pelo país -casos das redes Raia Drogasil e Pague Menos. 

Representante de uma entidade que reúne pequenas drogarias diz que esse movimento tem empurrado os pequenos para locais ainda mais distantes do país. 

Outros setores tiveram crescimento pontuais, como o de materiais de construção que, apesar do recuo de 4% nas vendas no acumulado até maio, registrou um aumento de 30% nas vendas de lâmpadas de LED. 

Depois de acumular queda de 20% nos últimos dois anos, a indústria teve um respiro, com crescimento de 0,50% de janeiro a maio.

Mas é preciso cautela devido à base baixa de comparação. Em 12 meses até abril, a produção da indústria ainda está negativa em 2,4%.

Um segmento que também saiu de uma queda de dois dígitos foi o de produção de alumínio, que em maio voltou a registrar 1,3% de aumento do consumo, o equivalente a cerca de 20 mil toneladas. 

A produção do setor têxtil melhorou e subiu 5,3% de janeiro a maio sobre igual período do ano passado. O setor empregou 20 mil pessoas neste ano depois de cortar 30 mil no ano passado. 

A avaliação é que um ciclo negativo ficou para trás. Mas o crescimento generalizado dos setores da economia ainda demanda tempo. 

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