Economia

Queda do dólar favorece viagens para o exterior


Procura por pacotes internacionais aumenta até 40% de janeiro a setembro deste ano, de acordo com a Braztoa


  Por Estadão Conteúdo 27 de Outubro de 2016 às 08:20

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


A queda do dólar está permitindo que os brasileiros voltem a sonhar com viagens para o exterior nas férias de fim de ano.

De acordo com estimativa da Associação Brasileira de Operadoras de Turismo (Braztoa), a procura por pacotes internacionais, entre janeiro e setembro de 2016, supera os índices relativos ao mesmo período do ano passado em 30% a 40%.

Maior agência de viagens do país, a CVC viu a busca por destinos no exterior dobrar, passando de 20% para 40% do total das vendas, entre 2015 e 2016.

A busca por viagens para a América do Sul e Caribe deve apresentar um crescimento de 30% no fechamento de 2016, em relação ao ano passado, enquanto para Europa e Estados Unidos, o acréscimo deve ser de 10%, de acordo com a associação das operadoras de turismo.

Para a presidente da entidade, Magda Nassar, a expectativa é de que o aumento na média de viagens para fora do Brasil seja de 20% até dezembro.

De acordo com a Associação Brasileira de Agências de Viagem (Abav), os destinos que deverão puxar essa retomada são Estados Unidos, Caribe e América do Sul.

PLANEJAMENTO

A maior estabilidade no cenário econômico nos últimos meses tem influenciado o comportamento do turista brasileiro, de acordo com o diretor de produtos internacionais da CVC, Fábio Mader.

A retomada da confiança na economia está motivando os consumidores a planejar as viagens com mais antecedência.

"Em 2015, as pessoas adquiriram as viagens perto da data de embarque, com uma antecedência média de 45 dias", diz Mader.

"Agora, os consumidores voltaram a planejar as férias, com uma antecedência de compra de 70 dias, em média, em relação à data de embarque."

Decidir com antecedência foi exatamente o que fez o advogado e professor universitário Anderson de Souza e Silva. Ele decidiu comemorar seu aniversário de 50 anos em uma viagem para o Oriente Médio e para a Europa, no fim de novembro.

As passagens de avião foram compradas em uma agência de viagens ainda no mês de setembro. A queda do dólar animou o advogado a realizar o sonho.

"Aproveitei que o dólar está diminuindo para fazer esta viagem. Sempre quis conhecer o Oriente Médio."

A empresária Laís Queluz já planejava viajar mesmo com o dólar alto, mas vai aproveitar a recente valorização da moeda brasileira para estender a temporada nos Estados Unidos.

O pacote para um cruzeiro na Flórida, com o objetivo de comemorar o aniversário de 3 anos da filha, já estava comprado.

Com a decisão de estender as férias, agora Laís, o marido e os filhos vão passar mais seis dias na região para visitar atrações como os parques de diversão da Disney.

Apesar da melhora em relação ao ano passado, Magda Nassar, da Braztoa, diz que a entidade ainda vê 2016 como um "ano de recuperação" da economia, evitando fazer comparações com outros anos, como 2013, quando o dólar estava cotado a cerca de R$ 2. 

DÓLAR A R$ 3

O movimento de desvalorização do dólar frente ao real, que no ano acumula 20,6% no mercado à vista, coloca em alerta as empresas exportadoras de manufaturados. O setor via nas vendas externas um alento à drástica queda de vendas no mercado interno.

Em apenas dois dias, na segunda e na terça-feira, a moeda americana registrou queda de 1,6% e fechou em R$ 3,10, a menor cotação desde julho de 2015. Ontem, conseguiu uma recuperação de 1,12% e foi a R$ 3,14, mas o cenário segue preocupante para a indústria.

Embora a valorização do real neste momento esteja associada à corrida gerada pelo fim do prazo para a legalização de recursos mantidos no exterior (Lei de Repatriação), alguns analistas projetam o dólar fechando o ano próximo da marca psicológica de R$ 3,00, valor que pode se manter em 2017.

"Com a desvalorização do real ocorrida nos últimos dois anos houve certa recomposição do poder de competição do produto brasileiro, mas a preocupação é que isso acabe", diz o gerente executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco.

A mudança, ressalta ele, ocorre sem que tenham sido adotadas medidas que assegurariam melhor competitividade, como reformas tributária, trabalhista e melhoras na infraestrutura.

O cenário mais difícil para o comércio exterior começa a ficar visível na indústria de manufaturados. Em setembro, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) verificou que apenas 21 empresas importadoras deixaram de trazer produtos de fora, ante uma média mensal de 350 empresas ao longo do ano.

"Significa que está mais interessante importar do que produzir aqui", afirma José Augusto de Castro, presidente da AEB. Do lado inverso, nove empresas deixaram a lista de exportadoras, revertendo pela primeira vez no ano um crescimento que acumulava 2.078 indústrias desde janeiro.

Castro acredita que o superávit comercial de US$ 50 bilhões esperado pelo governo pode não chegar a US$ 45 bilhões.

Para José Ricardo Roriz Coelho, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), um câmbio em R$ 3,50 seria mais equilibrado do que próximo a R$ 3,00.

REFORMAS

O economista da GO Associados, Luiz Fernando Castelli, projeta a moeda americana a R$ 3,10 no fim do ano e a R$ 3,00 em 2017.

De acordo com ele, além do efeito mais imediato da repatriação, medidas que estão sendo adotadas pela equipe econômica de Michel Temer, como a provável aprovação da PEC do teto dos gastos e o andamento da reforma da Previdência, vão melhorar a percepção de risco do país e ajudar a derrubar o dólar.

Soma-se a isso também a expectativa de mudanças pouco traumáticas na taxa de juros dos Estados Unidos e a elevada liquidez externa.

Em razão da forte movimentação dos últimos dias, a Tendências Consultoria Integrada revisou de R$ 3,42 para R$ 3,17 a projeção do dólar para o fim do ano.

Para 2017, a expectativa mudou de R$ 3,53 para R$ 3,28. "Não vejo um movimento sustentável que mantenha o dólar abaixo dos R$ 3", ressalta Silvio Campos Neto, economista da Tendências.

Adriana Dupita, economista do Santander, avalia que o câmbio hoje já está "mais forte do que deveria" e prevê o dólar em R$ 3,45 ao fim do ano e em R$ 3,75 em 2017. Há dois meses, a projeção do banco era, respectivamente, de R$ 3,65 e R$ 3,95. 

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