Economia

'Produzir no Brasil custa R$ 1,5 tri a mais que em países da OCDE'


Novo presidente do Ciesp, o empresário Rafael Cervone avalia o cenário para a indústria durante e pós-pandemia, e aponta ações para impulsionar o desenvolvimento do setor em São Paulo


  Por Karina Lignelli 18 de Agosto de 2021 às 12:00

  | Repórter lignelli@dcomercio.com.br


Capacitar e qualificar novos quadros e empreendedores para a indústria 4.0, além de trabalhar pela mudança de vocação do setor em cada região, dentro da nova realidade que se instalou a partir da pandemia. 

Essas são algumas das prioridades do empresário Rafael Cervone à frente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), cargo para o qual foi eleito em julho último. 

Engenheiro têxtil formado pela FEI, e ocupando cargos como presidente emérito do Conselho de Administração da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (ABIT), Cervone enxerga a indústria como um dos grandes pilares para a retomada econômica pós-crise da covid. 

Mesmo com os desafios do atual cenário, que vão desde falta de componentes à ameaça de crise hídrica, o empresário de Santa Bárbara do Oeste afirma que o aumento da demanda tem melhorado os indicadores de confiança do setor, trazendo expectativas de terminar 2021 com crescimento.  

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Porém, ele reforça e defende a necessidade da criação de uma política industrial agressiva no país, para gerar um ambiente de maior estabilidade e previsibilidade para atrair investimentos internos e externos. 

"Não é por acaso que os países que elevaram a participação da indústria no PIB em mais de 20% tenham sido os únicos que aumentaram significativamente a renda média da população", destaca.

Acumulando o cargo no Ciesp com o de 1° vice-presidente da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Cervone diz que a nova gestão, que vai de 1° de janeiro de 2022 até 2025, deve começar 'acelerando' o desenvolvimento da indústria paulista. 

"Vamos trabalhar recriando nichos de desenvolvimento, pensando na migração para o interior como eixo para estimular prefeitos a estabelecerem políticas que não sejam concorrentes, mas complementares."

A seguir, Cervone fala sobre desafios, expectativas e dificuldades, e as propostas à frente do Ciesp:  

 

O senhor assumiu o Ciesp em meio à pandemia. Fale um pouco sobre esse cenário do ponto de vista da indústria. 

Os desafios são imensos, passamos os últimos dois anos em meio à crise da covid, depois de sete, oito anos de recessão profunda, e os impactos estão piores no Brasil do que no resto do mundo. E tem uma outra questão: nós criamos os próprios problemas como país, o que aumenta os desafios na retomada. 

Mas percebemos que a expectativa da indústria para aumento da demanda tem sido positiva, pois os indicadores de confiança do 1° e do 2° trimestres estão praticamente atingindo níveis pré–pandemia. Um ponto importante é que, enquanto o (Boletim) Focus do Banco Central projeta um PIB de 5,3%, Fiesp e Ciesp projetam 5,7%. 

 

A retomada promete, então. 

Sim, mas há pontos de atenção que temos que monitorar, como a falta de matéria-prima e insumos e o custo elevado. A ameaça de crise hídrica deve repercutir sobre o preço da energia e o potencial risco de racionamento deve afetar a agricultura, que esse ano já sofre com o forte impacto da seca e das geadas. 

Estamos sofrendo com a crise hídrica esse ano, mas temos que nos preparar e economizar energia agora para segurar as barragens e não sofrermos um impacto ainda maior, porque a escassez vai ser forte. 

Também estamos atentos a um terceiro ponto, que são as mudanças da política monetária americana, que devem causar impactos no mercado mundial. O quarto ponto são os rumos da política fiscal, e como deve impactar a reforma tributária.

Outro crescente motivo de preocupação é o endividamento das famílias. Pelas estatísticas do sistema financeiro, nos últimos doze meses até abril, 58,5% da renda estava comprometida com dívidas. 

 

Com tudo isso, como está a competitividade do setor?  

Essa é uma outra agenda. Encomendamos um estudo ao Boston Consulting Group, que compara o custo de produzir no Brasil com o custo de produzir a mesma coisa em países concorrentes e integrantes da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Nele, foram considerados 12 itens, entre tributos, a facilidade de abrir e fechar empresas, apoio do governo, entre outros. A diferença com os outros países é que produzir no Brasil custa R$ 1,5 trilhão a mais por ano. 

 

Esse é um problema antigo, de antes da crise. O que falta para isso começar a mudar? 

A indústria brasileira não precisa de proteção, precisa de isonomia competitiva. E isso passa por um item da mais alta relevância: política industrial. O Brasil precisa saber o que quer da indústria, que representa 11% do PIB, mas leva um terço da arrecadação de impostos nas costas. É o mesmo que colocar uma bola de chumbo no pé do empresário, enquanto ele corre 400 metros com barreira.

Geramos 20% dos empregos, 50% do setor exporta bens, 70% do investimento vai para P&D. Mas 33% vai para a arrecadação de tributos federais, sendo 31% para a previdência, de empregados e o patronal.

Hoje, a grande discussão do B20, um braço privado dos países do G20 do qual eu faço parte, é justamente que nenhum desses países vai sair sozinho dessa crise sem sinergia, sem políticas industriais agressivas. 

 

Quais seriam essas políticas? 

Na pandemia, o (presidente americano) Biden destinou US$ 300 bilhões para recuperar a indústria, e na União Europeia vários países estão diferindo ou postergando impostos - o que é muito relevante para o setor. A 'guerra' entre Estados Unidos e China não se dará mais a partir de políticas econômicas, e sim industriais.

Não é coincidência que na última década, quando a manufatura sofreu perda de competitividade, o Brasil tenha crescido pouco mais de 3%, enquanto o mundo teve expansão superior a 30%.

Também não é por acaso que os países que elevaram a participação do setor no PIB em mais de 20% tenham sido os únicos que aumentaram significativamente a renda média da população.

 

Mas o Custo Brasil também tem sua parcela de culpa, não?

Também. O custo Brasil e as incertezas sobre o Brasil. A Mercedes de Iracemápolis (SP), que tinha o parque industrial mais moderno do mundo, fechou. E tem a Ford... O Brasil precisa de políticas consistentes, de longo prazo, transparência, previsibilidade, um projeto de país de longo prazo que excede governos. 

Já disseram que o Brasil é tão difícil que até o passado é incerto: uma canetada de um juiz remete a empresa a um custo de cinco anos atrás. A política do puxadinho é o grande problema. Resolvem as coisas em partes, mas deixam de atacar a origem do problema. 

Uma reforma tributária com isonomia de arrecadação e simplificação do sistema resolveria a questão das novas tecnologias, da nova realidade, dando um salto de qualidade ao reduzir informalidade, a concorrência desleal, a guerra fiscal. Uma reforma adequada faria o PIB crescer 20% em 10 anos.

 

Como estão os preços na saída das fabricas, o impacto do dólar, e os investimentos no atual cenário?

Estamos vivendo agora momentos que vão estimular o crescimento econômico: o mundo vai crescer 5% esse ano impulsionado pelas commodities e exportação, mas ao mesmo tempo a indústria de transformação sofre com baixos níveis de estoque no mundo inteiro. 

Com a pressão dos custos de matéria prima, especialmente de energia, e dos insumos, não há mais espaço para segurar repasse de preços. E temos que tomar muito cuidado com a concorrência dos importados, diante de um governo que quer baixar imposto de importação num momento muito crítico do mercado. 

A desvalorização do real tem feito o câmbio oscilar entre R$ 5,20, R$ 5,15, mas ele deve se estabilizar em 2022, 2023. E o preço das commodities continua em alta. O custo do frete internacional preocupa, pois ele subiu de US$ 15 mil para US$ 20 mil.

O Brasil precisa mudar radicalmente o perfil exportador. É muito bom exportar commodities, mas também é importante exportar valor agregado. A gente exporta minério de ferro mas importa máquina, acredita? Isso é resultado de políticas de curto prazo, e tem que mudar. 

 

A falta de componentes tem sido um grande problema para a indústria, e há perspectivas de que isso só volte ao normal em 2023. Como está essa situação?

É uma preocupação ainda, e vai demorar um pouco para se ajustar, porque houve uma parada muito grande do comércio e dos serviços. A tendência é se ajustar ao longo do tempo, mas não deve se estender até 2023.

Porém, há alguns segmentos nos quais essa questão é mais crítica, como o de papelão, já que a pandemia acelerou as entregas on-line e o mercado abraçou o delivery, que envolveu também embalagens de plástico. 

Essas indústrias estão com a capacidade instalada no limite de 100%, e isso demanda novos investimentos. Outras áreas também estão se ajustando aos custos do aço, do minério de ferro, das resinas plásticas, mas ainda não conseguiram ajustar tudo. É um problema do início da cadeia mesmo. 

 

Falando em capacidade instalada, o setor já voltou aos padrões de produção pré-crise? 

Na média, as indústrias já estabeleceram padrão de produção pré-crise. Se você estabelecer uma base 100 em fevereiro de 2020, estava produzindo 100%. Hoje, se pegar produtos alimentícios, está em 95,7%, quase atingindo a normalidade. Higiene pessoal, 95,6%, produtos têxteis, 93%... tudo por conta do poder de compra. 

E há setores que estão acima de 100, como bebidas, com 1%, madeira com 10%, químicos com 6%, metalurgia, 13%, e informática, 12%. Mas máquinas e equipamentos ainda está muito negativo, abaixo de 90%.

No momento, quem está com capacidade instalada em baixa, coloca o pé no freio. Após sete, oito anos de recessão e covid, há uma demanda reprimida por investimentos, mas se a retomada for positiva, logo supera.

A questão é: o Brasil está tumultuado com notícias do governo, com as eleições a preocupação aumenta, e nenhum estrangeiro investe com perspectiva de curto prazo. Quem está fora olha o Brasil como mercado potencial sim, mas para isso é preciso que governo, legislativo e judiciário encontrem uma sinergia.   

 

Diante desse cenário, quais são as principais propostas para essa nova gestão à frente do Ciesp? 

Há uma preocupação com a retomada, então estamos nos organizando para isso. Na Fiesp respondemos pelo Sesi e o Senai, então estamos desenvolvendo produtos para capacitar mão de obra, formar empreendedores, e para qualificar e requalificar para novas tecnologias, já que estamos no auge da discussão da indústria 4.0. 

 

Quais são esses produtos?

No momento, são quatro grandes programas voltados ao aumento da produtividade: nas paradas, nas crises, perde-se produtividade, escala. Então estamos capacitando para a manufatura avançada e de alto impacto. 

Com o Ministério da Economia, temos o Emprega Mais, com programas gratuitos de qualificação e inserção profissional. E para o 'novo emprego', o programa de Requalificação, direcionado a quem perdeu emprego mas não tem mais atributos para se reempregar. A ideia é deixar esse profissional apto a se recolocar.

Com o Sebrae, o Sebrae Tech: mais do que nunca, a digitalização das empresas ganhou importância. É um programa voltado à presença digital, e-commerce, busca orgânica e novas oportunidades de negócio. 

Já o Empreenda Rápido é direcionado ao pessoal desempregado, que capacita para ser empreendedor. Nessa crise, mais de 14 milhões saíram do mercado de trabalho, a taxa de pobreza, que em maio de 2020 era de 5,3%, em janeiro chegou a 13%. Então, ele pode se tornar um MEI, para gerar renda própria e ajudar na retomada.  

 

E como o Ciesp pretende trabalhar o desenvolvimento da indústria paulista? 

Temos eixos de desenvolvimento locais, regionais e macrorregionais, e estamos indo para a internacionalização com as Américas, fazendo encadeamento com as cadeias globais de valor.

Mas, olhando o ABCD, por exemplo, a discussão agora é quais as verdadeiras vocações para cada região. A indústria 4.0 mostra que, com as novas tecnologias, novas indústrias virão, e outras deixarão de existir. 

A covid trouxe aprendizado e mudanças, como o trabalho remoto, que mostrou que existe outra vida além da empresa. Com isso, a visibilidade do interior melhorou muito, pela sua qualidade de vida superior.

E continua favorável à indústria, para a migração de pessoas que moram na capital e perceberam que podem trabalhar em sistema híbrido, e fez com que elas repensassem seus objetivos. 

Fora que está cada vez mais difícil o trabalho nas grandes capitais, então, uma de nossas frentes será ajudar a redefinir quais as vocações da capital, e quais as do interior. 

 

De que jeito?

Temos uma rede de representatividade fantástica no interior, com 42 diretorias regionais. Então vamos unir a força da Fiesp, com a força setorial dos sindicatos patronais, para colaborar com o desenvolvimento das pessoas, das indústrias e das cidades. E dentro de discussões não só de ESG, mas de cidade sustentável, de novas tecnologias que integrem esse futuro, e que impactam energia, saneamento e infraestrutura. 

Vamos trabalhar recriando nichos de desenvolvimento, pensando na migração como eixo para estimular prefeitos a estabelecerem políticas que não sejam concorrentes, mas complementares. Esse é o pulo do gato. 

FOTO: Divulgação






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