Economia

Procura menor por crédito diminui o consumo das famílias


Segundo o Banco Central, os consumidores estão cautelosos e os bancos temem a alta da inadimplência. Os juros do crédito à pessoa física atingiram o maior patamar desde 2011


  Por Redação DC 27 de Outubro de 2015 às 14:17

  | Da equipe de jornalistas do Diário do Comércio


A renda menor, o aumento do desemprego e os juros mais altos reduzem a demanda das famílias por crédito dos bancos, na avaliação de Tulio Maciel, chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC).

“De uma maneira geral, o crédito para o consumo mostra um arrefecimento em relação a períodos anteriores. O próprio ciclo econômico é uma explicação para isso. Outro fator é a própria cautela das famílias em termos de endividamento e comprometimento de renda futura”, disse Maciel.

O endividamento das famílias brasileiras subiu de 45,9% em junho para 46% em julho, segundo dados divulgados nesta terça-feira (27/10) pelo Banco Central.

O que mais pesa no orçamento são as dívidas imobiliárias que, se descontadas, reduzem o endividamento para uma participação de 27,1% da renda anual do consumidor em julho, ante 27,2% em junho. 

Segundo Maciel, há uma tendência de que isso dispare por efeitos da evolução mais moderada da massa salarial e o aumento do custo dos empréstimos por causa da alta dos juros.

Além da maior cautela dos consumidores, os bancos também estão mais seletivos na oferta de crédito - em uma comparação pode ser feita com 2012, quando houve aumento da inadimplência.

Em setembro, comparado ao agosto, o saldo total do crédito com recursos livres (bancos têm autonomia para aplicar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros) para as famílias ficou estável, em R$ 795 bilhões. 

No caso do crédito para a compra de veículos, houve queda no saldo de 1,1% e chegou a R$ 166,691 bilhões. Também houve redução no saldo dos gastos à vista no cartão de crédito (R$ 112,604 bilhões), de 1,9%.

Segundo Maciel, a redução do saldo do crédito para a compra de veículos e das compras a vista no cartão de crédito é “indicativo de fragilidade de consumo”.

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No total, o saldo das operações de crédito livre e direcionado (empréstimos com regras definidas pelo governo, destinados, basicamente, aos setores habitacional, rural e de infraestrutura) para empresas e famílias apresentou alta de 0,8% no mês e chegou a R$ 3,160 trilhões. 

No mês, o crédito livre cresceu 0,5% e o direcionado, 1,1%. “Tivemos em setembro crescimento semelhante ao que vinhamos observando em meses anteriores – uma dinâmica de expansão moderada, em linha com as projeções para o ano”, disse Maciel. 

O BC projeta expansão de 9% no saldo das operações de crédito, este ano. Em 12 meses encerrados em setembro, o saldo das operações de crédito cresceu 9,1%.

JUROS ALTOS

Os juros continuaram a subir, em setembro, de acordo com dados do Banco Central. Para as pessoas físicas, a variação foi de 1,1 ponto percentual (p.p.) de agosto para setembro, quando ficou em 62,3% ao ano. Esta foi a maior taxa da nova série histórica da instituição, iniciada em 2011.

As taxas que mais subiram para as famílias foram a do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, que chegaram a 414,3% ao ano (14,62% ao mês) e a 263,7% ao ano (11,36% ao mês). 

"O rotativo continua em ritmo de crescimento acentuado e é um financiamento que só deve ser usado em períodos curtos", afirmou Maciel.

O juro do cheque especial subiu 10,5 p.p.e a do rotativo do cartão de crédito, 10,8 p.p., de agosto para setembro.

Esses dados são do crédito livre, em que os bancos têm autonomia para aplicar o dinheiro captado no mercado e definir as taxas de juros.

No caso do direcionado (empréstimos com regras definidas pelo governo, destinados, basicamente, aos setores habitacional, rural e de infraestrutura) a taxa média de juros caiu 0,1 p.p. para pessoas físicas (9,8% ao ano).

INADIMPLÊNCIA

Um dos poucos dados positivos da economia brasileira atualmente é a taxa de inadimplência permanecer "comportada" em meio à deterioração de outros indicadores, segundo o assessor econômico da FecomercioSP, Vitor França. 

A taxa de inadimplência ficou estável em setembro em 4,9% frente a agosto. Para pessoa física, foi registrado o único aumento nessa comparação, passando de 5,6% para 5,7%.

Para as empresas, caiu de 4,2% para 4,1% de um mês para o outro. Desde o início do ano, verifica-se uma certa estabilidade no volume de calote ao sistema financeiro.

O dado que considera crédito livre mais direcionado mostra inadimplência também estável, em 3,1%, desde agosto.

França estima que a taxa de inadimplência seguirá em uma tendência de alta, mas dificilmente subirá rapidamente nos próximos meses. "Não vejo possibilidade de estouro da inadimplência. O avanço deve ser gradual", projetou.

O assessor econômico da FecomercioSP destaca ainda que o detalhamento dos dados da autoridade monetária permite perceber que quem atrasa as contas tem conseguido quitar as dívidas em menos tempo. 

"A inadimplência para Pessoa Física entre 15 e 90 dias passou de 5,1% para 5,5% entre setembro de 2014 e 2015, mostrando uma tendência de alta. Já o atraso superior a 90 dias avançou bem menos, de 5,6% para 5,7%", observou.

O especialista ressalta ainda que pesquisas da FecomercioSP dão conta que o avanço da inadimplência tem sido mais intenso nas famílias com renda mais baixa. O reflexo deste movimento é que elas têm recorrido a crédito mais caro para quitar as contas em atraso.

"Pelo dados do BC, o que cresce em termos de concessão para pessoa física são os empréstimos emergenciais, das linhas de rotativo do cartão de crédito e de cheque especial, que já têm um limite pré-aprovado", observou. 

Ele destaca que a inadimplência das pessoas físicas no cartão de crédito passou de 7,2% para 8,0% entre setembro de 2014 e setembro de 2015.

*Com informações de Estadão Conteúdo e Agência Brasil

FOTO: Fátima Fernandes

*Atualizado às 15h20