Economia

Presidente do BC pede mais clareza em relação à agenda fiscal


Segundo Roberto Campos Neto, a realidade fiscal do país não seria tão ruim, e tornar essa mensagem evidente acalmaria o mercado


  Por Renato Carbonari Ibelli 04 de Outubro de 2021 às 14:21

  | Editor ibelli.dc@gmail.com


Diante da preocupação do mercado com relação à escalada da inflação, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, cobra do governo maior previsibilidade sobre a agenda fiscal. Segundo ele, ruídos envolvendo precatórios e o financiamento do novo Bolsa Família mexem com as expectativas inflacionárias.

Para o presidente do BC, falta ao governo melhorar a comunicação com o mercado, uma vez que, de acordo com ele, a realidade fiscal não seria tão ruim quanto a propagada. “A projeção para a dívida bruta em 2021 era de 95% do PIB, mas hoje ela está em 82%. O Brasil é muito endividado, mas a trajetória da dívida é positiva”, disse.

Segundo Campos Neto, quando o BC aumenta os juros em um momento de alta da inflação, ele passa uma mensagem de credibilidade da instituição ao mercado. “Mas o fiscal também precisa passar essa mensagem. Se o mercado entender que não existe mais teto para gastos, vamos ter nova precificação”, afirmou o presidente do BC na reunião do Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), nesta segunda-feira, 4/10.

Com relação ao aumento da inflação, o presidente do BC entende que a maior demanda por bens de consumo durante a pandemia causou desequilíbrio na oferta. “As pessoas passaram a consumir menos serviços e mais bens. Com a reabertura, imaginávamos que serviços voltasse a crescer, mas isso vem acontecendo mais lentamente do que o previsto.”

Para Campos Neto, como a produção de bens envolve mais fatores, como custos com combustível e energia elétrica, por exemplo, há impacto maior nos preços ao consumidor final. “Não é ruptura da oferta, mas mudança da demanda. A produção de chips e semicondutores não diminuiu, mas eles estão em falta. Quase todos os países sofrem gargalos nas entregas, com o preço de frete crescendo”, exemplificou.

O presidente do BC enfatizou que a escalada de preços é um movimento mundial. Em sua apresentação na ACSP, ele mostrou números que projetam a inflação do aluguel nos Estados Unidos na casa dos 10%.

“Os preços estão assustando praticamente todos os países. A questão é saber quanto da inflação ao produtor vai chegar ao consumidor.”

Outra preocupação apontada por Campos Neto é a chamada inflação verde, que acompanha os esforços dos países em limparem suas matrizes energéticas.

A produção de energia limpa aumenta a demanda por matérias-primas como lítio, cobalto, níquel e cobre, cada vez mais escassos e, consequentemente, mais caros, tendo impacto nos custos de outros setores que também demandam esses insumos.  

PIX

Durante o encontro da ACSP, Campos Neto negou que o Pix esteja motivando um aumento de crimes como golpes financeiros e sequestros. Segundo ele, esses crimes são um reflexo da reabertura da economia.

“Como a economia estava fechada pela pandemia, a criminalidade caiu. A reabertura acontece com o Pix já ativo [por isso ele aparece nas estatísticas]”, disse.   

Vedete de Campos Neto, o Pix já acumula 103 milhões de usuários e 317 milhões de chaves de acesso. Esses números surpreenderam o presidente do BC. “Eu imaginava que a essa altura estaríamos com 20 milhões de chaves. Muita gente abriu conta em banco só para ter Pix”, disse.

Ele confirmou para os próximos meses a entrada em operação do Pix Saque e do Pix Troco. Esses recursos permitirão aos clientes obterem dinheiro em espécie nos caixas de estabelecimentos comerciais.

“No interior, muitas cidades não têm agência de banco, então os caixas das lojas podem ser um ATM. E o lojista quer ter o cliente na boca do caixa”, afirmou o presidente do BC.

Ainda segundo ele, há conversas com Itália e Inglaterra para a efetivação de um Pix usado internacionalmente.

 

IMAGEM: Daniela Ortiz/ACSP






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