Economia

Presidencial "maluca" dos EUA começou agora e vai até novembro


Resultados do Estado de Iowa favorecem o republicano Ted Cruz e dão praticamente empate entre Hillary Clinton (foto) e Bernie Sanders


  Por João Batista Natali 02 de Fevereiro de 2016 às 12:51

  | Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Paris, é autor "Jornalismo Internacional" (Contexto)


O sistema acionado nos Estados Unidos para a escolha de um presidente é simplesmente “maluco”. A palavra não é pejorativa e está sendo usada no site da rede CNN.

A maluquice está na eleição que começou nesta segunda-feira (01/02), no pequeno Estado de Iowa, e que deve acabar só em novembro, com o voto popular para a sucessão de Barack Obama.

O que aconteceu em Iowa foi um “cáucus”, espécie de convenção ampliada de eleitores. Os republicanos consagraram Ted Cruz, um conservador do Texas que deixou em segundo lugar o excêntrico Donald Trump, aquele que quer expulsar muçulmanos e construir um muro para impedir a entrada clandestina de trabalhadores mexicanos nos Estados Unidos.

No campo dos democratas, Hillary Clinton teve uma minúscula vantagem sobre o senador Bernie Sanders, um personagem singular na política norte-americana, que se diz socialista e quer submeter Wall Street a pesados tributos e regulamentação.

Apurada a votação de Iowa, no campo republicano Cruz ficou com oito delegados, e Trump, com sete. Entre os democratas, Hillary ficou com 22 delegados, e Bernie com 21. Outros candidatos menores também disputaram e ficaram com delegados em número inferior.

Vejamos o que são esses delegados. O presidente não é eleito pelo voto popular. Ele é eleito por um colégio eleitoral de 538 delegados.

Em apenas duas ocasiões na história eleitoral norte-americana a Casa Branca foi ocupada por um presidente que ficou em segundo lugar no voto popular, mas ganhou entre os delegados. Foi o que aconteceu em 2000, quando Al Gore ganhou, mas não levou. A Presidência foi para o republicano George W. Bush.

Mas voltemos ao atual começo do processo eleitoral. Em Iowa foi o primeiro cáucus. Mas a primeira eleição primária será na terça-feira (09/02), no também minúsculo Estado de New Hampshire.

A primária é uma eleição aberta a todos os filiados do partido ou às vezes nem isso é necessário. Vota quem quer.
Esse sistema de eleição em três etapas – primárias e cáucus, voto popular e colégio eleitoral – é muito antigo nos Estados Unidos. Começou a ser esboçado em 1835 e se generalizou a partir de 1912.

A lógica por detrás das primárias é generosa. Trata-se de impedir que a decisão sobre a candidatura presidencial seja tomada pelos dirigentes partidários. Quem manda são os filiados aos partidos ou simpatizantes, numa espécie de jogo em que o poder não está na cúpula. Está nas bases.

É claro que democratas e republicanos realizam a cada quatro anos uma convenção partidária para a escolha do candidato presidencial. Mas a convenção é uma simples formalidade, já que ela oficializa o nome mais votado nos cáucuses e primárias.

E tudo isso num país em que o voto não é obrigatório. No cáucus, na primária ou na eleição presidencial de novembro vota quem quer. Na última presidencial, a de 2012, em que Obama se reelegeu ao derrotar o republicano Mitt Romney, 45,1% dos eleitores preferiram ficar em casa e deixaram de votar. A porcentagem não foi excepcional. Ela está na média histórica.

Não é simples saber com antecipação quem estaria hoje melhor posicionado para ocupar a Casa Branca a partir de janeiro de 2017.

Uma das suposições é que o imenso establishment político acaba por consagrar posições moderadas e a rejeitar radicalismos.
As duas mais nítidas radicalizações estão hoje, por razões diferentes, no republicano Trump e no democrata Sanders.

Trump não é nem deputado, nem senador. É um magnata do setor imobiliário, que dispensa a coleta de fundos entre simpatizantes e está custeando a campanha do próprio bolso.

Ele não tem o apoio de nenhum governador republicano e de nenhuma liderança de peso no Congresso. Isolado, sem dialogar ou negociar com quem quer que seja, Trump se sente à vontade para multiplicar declarações homofóbicas ou islamofóbicas ou machistas.

Mas é ele, e não Ted Cruz ou Marc Rubio (outro conservador), quem encabeça, com 40%, as preferências do eleitorado republicano.

Com ideias que chutam o pau da barraca, Donald Trump catalisa o voto dos desiludidos, dos que têm uma pulsão difusa de protesto.
Sanders está no campo oposto e foi muito bem definido, em perfil em O Globo, pela jornalista Dorrit Harazin. Ele é aquele que hoje nos inspira desconfiança por defender as mesmas ideias que defendíamos quando éramos jovens e idealistas.

Ser de esquerda não é uma anomalia na política norte-americana. Quem mais se aproxima desse perfil na recente história eleitoral foi George McGovern, derrotado em 1972 por Richard Nixon.

O exemplo mais distante e explícito foi o de Eugene Debs (1855-1924), fundador do Partido Socialista Americano, e que concorreu cinco vezes à Casa Branca. Conseguiu 6% dos votos em 1912. Para evitar o crescimento dele, o Partido Democrata incorporou em sua plataforma a defesa de questões trabalhistas e sociais.

Hillary é a mulher do ex-presidente democrata Bill Clinton e que disputou em 2008 as primárias democratas com Obama, de quem se tornou depois secretária de Estado.

No campo oposto, o republicano Ted Cruz, senador pelo Texas, é ligado à ala mais conservadora de seu partido, patrocinada pela Tea Party, um movimento de base que defende corte de impostos e diminuição radical do tamanho do Estado.

Não há hoje um candidato com uma plataforma quase monotemática como foi a do presidente democrata Jimmy Carter (1977-1981), que, ao dar ênfase aos direitos humanos, entrou em atrito com governos autoritários, entre eles o do Brasil, na época sob regime militar.

Os Estados Unidos têm uma rede espessa de interesses econômicos no mundo globalizado e ela pouco depende da Casa Branca. É por isso que seria ingênuo cair em previsões sobre o partido ou o concorrente que seria melhor para o Brasil.
Quem quer que seja eleito, teremos “politics as usual” – política como a habitual.