Economia

Por que a crise chinesa piora a percepção de risco do Brasil


A turbulência que ecoou da bolsa chinesa para o mundo sinalizou que o Brasil pode sofrer mais do que o previsto com a desaceleração do país asiático


  Por Estadão Conteúdo 25 de Agosto de 2015 às 08:31

  | Agência de notícias do jornal O Estado de S.Paulo


O Brasil seria afetado não apenas porque a China consumirá menos e forçará a queda no preço de matérias-primas. O Brasil também tende a ser visto como um país mais arriscado.

O economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), explica como o contágio tende a ocorrer:

 "Nesta segunda-feira (24/08), ficou claro que a desaceleração da China aumenta o mau humor em relação a todos os emergentes, e o Brasil, que tem a economia em recessão e a política fragilizada, vai ser visto com mais desconfiança ainda", diz.

Senna vem acompanhando o Dólar Index (indicador que mede o desempenho do dólar ante várias moedas), o risco Brasil e a variação do real.

Ao longo de todo o ano de 2014 e no primeiro trimestre de 2015, não houve tendência definida entre eles. "Mas  a partir de 17 de julho, quando o presidente da Câmara anuncia o rompimento com o governo, passamos a sofrer com o ambiente político: o risco Brasil subiu e o dólar acompanhou", diz Senna. "A desaceleração da China agrava o quadro."

O mercado sinalizou que compartilha dessa percepção. Os contratos de proteção contra eventual calote brasileiro, os credit default swap (CDS), atingiram nesta segunda-feira, 24, o nível mais alto desde 2009, acompanhando o movimento de aversão global aos risco. O CDS do Brasil de cinco anos atingiu 370 pontos-base, o nível mais alto desde 13 de março de 2009.

MATÉRIAS-PRIMAS

Outro fator que preocupa é o preço das matérias-primas, que tende a ser afetado de diferentes maneiras. "Brasil e China vinham adotando modelos de crescimento quase opostos: no Brasil, prevalecia o consumo como motor, na China, o investimento; agora a China se volta para o consumo", lembra Raul Velloso, especialista em contas públicas que acompanha o cenário internacional para medir os impactos sobre a economia local.

Por causa da virada, os produtos mais afetados são minerais e metais ligados a investimentos em infraestrutura, que arrefeceram, lembra Velloso. A Bolsa sinalizou quais setores são vistos como mais frágeis. A lista de maiores quedas na BM&F Bovespa hoje foi encabeçada por Metalúrgica Gerdau PN (-12,46%), Usiminas PNA (-10,42%) e Oi PN (-9,67%). Vale ON recuou 7,78%, a R$ 15,40, e Vale PNA ficou 7,96% mais barata, a R$ 12,38. O preço do minério de ferro caiu 4,1% no mercado à vista chinês.

Produtos agrícolas se mostraram mais resistentes. Contratos de soja na Bolsa de Chicago fecharam com leves baixas, mas podem se recuperar na visão de analistas. Alcides Torres Junior, diretor-fundador da Scot Consultoria, também descarta que as carnes sofrerão, ainda mais a carne brasileira. "Nossos produtos são mais baratos que os chineses."

ABILIO

Apesar do momento de turbulência, a China continua sendo um mercado "promissor" para a empresa de alimentos BRF, avaliou o empresário Abilio Diniz, presidente do Conselho de Administração da companhia.

"No momento, o mercado está turbulento, mas se olharmos para trás e projetarmos para frente, acho que a China continua sendo um mercado altamente promissor", disse a jornalistas durante um congresso de varejo em São Paulo nesta terça-feira, 25. "Nós na BRF continuamos investindo na China", acrescentou.

O executivo também mencionou que o Carrefour, empresa da qual ele é acionista tanto da holding na França quanto da subsidiária brasileira, tem investido no país asiático. Questionado se a atual instabilidade no país poderia pesar negativamente nas exportações da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, Abilio afirmou que a companhia "não tem sentido nada".

IMAGEM: Thinkstock





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